5 lições que minhas dívidas me ensinaram sobre empoderamento feminino

5 lições que minhas dívidas me ensinaram sobre empoderamento feminino

*Itali Pedroni Collini

2015 foi um ano cheio de novidades para mim: me formei em economia, arranjei meu primeiro emprego efetivo no segundo semestre e fui chamada para participar de quatro congressos internacionais – o primeiro era o Spring Meetings do FMI e do Banco Mundial, na qual fui como integrante da delegação jovem, e os outros eram congressos acadêmicos onde eu poderia apresentar minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Sem dúvida eu nunca havia planejado tantas coisas num ano só, e não estava financeiramente preparada para isso. Como estagiária que precisava se manter em São Paulo, eu não tinha dinheiro guardado na poupança e muito menos investimentos em renda variável dos quais eu pudesse ‘realizar lucro’ e usar para as viagens.

Decidi ir atrás de patrocínio, de crowdfunding e parcerias. Para minha feliz surpresa, obtive patrocínio da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) para o Spring Meetings (Washington D.C.), doadores me ajudaram a atingir a meta do crowdfunding para o Congresso Europeu de Contabilidade (Glasgow), e consegui uma parceria com a BM&F Bovespa para bancar minhas passagens ao Congresso da Associação Internacional de Economia Feminista (Berlim) e ao Congresso Americano de Contabilidade (Chicago).

Mas se fosse tudo tão redondinho assim, eu não estaria aqui escrevendo para vocês, não é mesmo? Na minha última viagem eu tinha as passagens pagas, mas não a hospedagem e os gastos por lá. Como estava próxima de me formar e fazendo processos seletivos, decidi encarar a bronca no cartão de crédito, afinal, na minha cabeça ‘logo tudo estaria resolvido com um emprego novo e salário fluindo’.

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Acontece que a ideia de que somos todos racionais e fazemos sempre as melhores escolhas bate de frente com o incentivo massivo ao consumo, principalmente para as mulheres, e ao uso de crédito bancário. Ao final de uma semana da minha última viagem, com hospedagem, alimentação e compras, eu não só estava com o limite do cartão próximo de estourar como também estava usando grande parte do cheque especial! Quando voltei ao Brasil o dólar continuou subindo e minha fatura ainda não havia fechado, resultado: cartão estourado por causa da valorização do dólar.

Aí surge aquela pergunta: ‘mas você não é economista? Deveria saber dessas coisas, ter se planejado melhor! Pegasse um empréstimos a juros mais baratos que o cartão ou cheque especial, então!’. Eu sou humana antes de ser economista, e cresci na sociedade do consumo antes de ser educada sobre planejamento financeiro. O que vocês acham que vai falar mais alto num momento decisivo?

Lendo um pouco mais sobre o assunto, descobri que a minha situação não é diferente de milhares de mulheres que, com educação formal ou não, se colocam em situação de risco financeiro por falta de planejamento, por impulsos consumistas e por não ter o hábito de pensar todas as possibilidades de crédito e seus riscos atrelados. No meu caso foi uma viagem para o exterior, mas isso pode acontecer com qualquer coisa que envolva falta de grana no presente, uma despesa de saúde inesperada, um gasto com propriedade (carros, casa), um surto de compras após o término de relacionamento (quem nunca?)…

Quando percebi que mesmo com o emprego novo eu não poderia dar conta dessas dívidas sem entrar num looping de cheque especial, vi que precisava de um plano melhor. Um plano meu, adequado às minhas necessidades, à minha vida, ao meu projeto para o próximo ano. Ninguém poderia pensar o plano por mim, porque essa era uma responsabilidade muito grande para deixar na mão de outra pessoa.

Após inúmeras buscas por informações bancárias, simulações, entre parcelamento de cartão de crédito, crédito pessoal e cheque especial, optei pelo crédito pessoal, unindo minhas dívidas numa só. Assim quitei cartão de crédito, cheque especial e recomecei do zero, com uma dívida de 15 meses só minha, fruto do meu processo de decisão.

O que eu aprendi em todo esse processo?

1) Não tenha medo de expor seus planos, suas motivações e ir em busca patrocínio e/ou fazer um crowdfunding online, muita gente pode se identificar com o seu projeto e decidir, por generosidade e crença no seu trabalho, doar uma quantia que vai te fazer a diferença!

2) É importante confiar no seu taco e isso não significa descartar um plano B. Se você acha que pode dar conta do próximo desafio financeiro, encare! Mas invista um tempinho pensando num plano B, ele pode ser essencial num evento inesperado (como a alta abrupta do dólar, no meu caso, que teria sido mitigada se eu houvesse comprado aos poucos durante o ano).

3) Antes de se jogar nas opções mais fáceis e acessíveis (cartão e cheque especial), invista tempo analisando outras. Geralmente, se sua situação estiver realmente apertada no presente, o ideal é alongar a dívida com a sabedoria de que você precisará apertar os cintos por um tempo, mas pelo menos não comprometerá toda sua renda numa dívida de curto prazo que pode virar um looping de cheque especial.

4) Quando se perceber numa enrascada financeira, gaste menos tempo se culpando e mais tempo analisando como sair dessa com mais conhecimento do que você tinha antes, e mais poder de decisão sobre seu próprio bolso.

5) Ainda que assessores financeiros, ou mesmo pessoas próximas que entendam do assunto, sejam desejáveis como fonte de informações caso você não saiba por onde começar, ninguém pode planejar suas finanças melhor que você, sob a sua perspectiva, se você se informar melhor. Isso é ter o poder de decisão em suas mãos, o que por si só já é possuir um direito que muitas mulheres até o século passado não podiam, de errar e aprender com as rédeas do próprio bolso. Portanto, orgulhe-se disso!

Itali Pedroni Collini é formada em Economia pela Universidade de São Paulo, criou com colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco Mundial e teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita em 3 congressos acadêmicos internacionais: AAA, EAA e IAFFE. Atualmente, Itali trabalha na Landmark Capital e colabora com o podcast Mamilos.

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