A corda bamba entre o equilíbrio da indústria e o desemprego

A corda bamba entre o equilíbrio da indústria e o desemprego

Na coluna Em $uma desta semana, a jornalista Naiara Bertão fala sobre as mudanças no cenário da indústria brasileira com o crescimento do desemprego. 

O que mais eu tenho recebido nos últimos dias foram e-mails sobre palestras, cursos, workshops e hangouts para falar sobre oportunidades de negócio em tempos de crise e como alavancar as vendas neste momento delicado. Eu não tenho comércio, mas meus pais têm e já sentiram a queda nas vendas em 2015. Em uma despretensiosa volta em shopping ainda se vê muitas vitrines com promoções e lojas vazias. Uma pesquisa divulgada pela Fecomércio na semana passada mostra que São Paulo vive o menor nível de intenção de compras da história do indicador. Muito por causa da inflação que ultrapassa 8% em 12 meses, do aumento dos juros e da tarifa de energia, o desemprego e a perspectiva de recessão. Tudo isso faz a pessoa querer costurar o bolso para não tirar nenhum tostão que possa fazer falta lá na frente – um cenário que ninguém sabe se vai ser mais ou menos pior.

Boca grande – Já falei para vocês sobre a difícil tarefa de manter as inúmeras contas em ordem quando não se tem mais renda, como eu, recém-demitida. Ainda mais com essa inflação que não para de abocanhar o poder de compra do dinheiro. Gente, até a cerveja deve subir 20% com o aumento dos impostos! Na ata da sua última reunião, o Banco Central indicou que esse foi o principal motivo para subirem a taxa básica de juros, Selic, para 13,25% ao ano. Só no fim de 2016 (isso mesmo, ano que vem) é que o BC espera que a inflação fique mais próxima do centro da meta, de 4,5% ao ano.

Se as pessoas não consomem, não se vende e as empresas enfrentam dificuldades. A atividade do setor de Serviços, por exemplo, registrou em abril o menor nível em 6 anos, de acordo com o Índice de Gerentes de Compra (PMI, na sigla em inglês) da Markit e do HSBC. A indústria já está quase na UTI: o IBGE mostrou na semana passada que a produção industrial caiu 5,9% no primeiro trimestre. Só a fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias despencou nada menos do que 20,7% neste ano! Isso mostra claramente que as concessionárias de veículos ainda tentam desovar os estoques e, por isso, não estão fazendo encomendas grandes à industria. E logo as montadoras pensam: por que produzir mais se não estou vendendo? A Anfavea, associação do setor automotivo, já revisou as metas de produção para este ano: queda de 10%.

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Desemprego – A gente sabe que trabalhador ocioso é sinônimo de dinheiro mal gasto na visão dos empregadores, ainda mais com a altíssima carga trabalhista do Brasil. As empresas até entendem que, algumas vezes, compensa mais manter um funcionário sem trabalhar a ter de gastar com treinamento dos novos, quando a situação econômica melhorar. A indústria automotiva, por exemplo, já demitiu em 2015 4,9 mil funcionários. Esse número poderia ser bem maior se as montadoras não estivessem tentando alternativas, como férias coletivas e lay-off (suspensão temporária do contrato de trabalho), como fizeram a Fiat, a Ford e a Volkswagen na semana passada. É claro que há também uma forte pressão dos sindicatos para isso.

Contudo, muitas empresas não têm porte nem condições financeiras para manter funcionários em tempos ruins. Assim, a demissão é a decisão mais correta nesse contexto. Dados da Pnad Contínua, do IBGE, foram claros: o desemprego subiu para 7,9% no 1º trimestre de 2015, acima das taxas do fim do ano passado (6,5%) e de um ano atrás (7,2%).

Para aqueles que, como eu, foram demitidos sem justa causa, há sempre a possibilidade de pedir o seguro-desemprego caso não consiga um novo trabalho rapidamente. E nesse ponto é bom lembrar que as regras estão mudando. O Congresso está de vento em popa na votação das emendas do texto que altera os benefícios trabalhistas. Aprovaram, por exemplo, o aumento do período que uma pessoa deve trabalhar para poder pedir o benefício do seguro-desemprego. Se antes bastava bater ponto seis meses, agora o trabalhador precisa ter trabalhado 12 meses. O governo queria até mais (18 meses) porque evitaria gastar uma boa quantia com isso, mas a negociação com os parlamentares não foi fácil.

O desemprego, assim como a inflação, acabam assustando os consumidores e a ausência de clientes assusta, por sua vez, a indústria. Como a agroindústria e produtores de commodities em geral dependem das fábricas comprarem seus produtos, também acabam sofrendo o baque. E assim o desânimo vai contagiando mais e mais pessoas.

Recentemente uma amiga me contou um episódio curioso. Em um ponto comercial de Seabra, na Bahia, uma requintada padaria, que ela me descreveu como “estilo paulistana”, com pães e frios gostosos e opções de sanduíches, e por onde ela passava de vez em quando, fechou as portas. Dias depois, no mesmo lugar havia sido aberta uma funerária. “Crônica da vida real”, finalizou minha amiga.

 

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

Crédito das fotos: Shutterstock

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Naiara Beltrão

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