A última dívida: elas venceram as compras compulsivas

A última dívida: elas venceram as compras compulsivas

Esta é a terceira matéria do Especial Compras Compulsivas. Se você ainda não viu o restante, acesse a primeira parte aqui e a segunda, aqui.

Na primeira vez em que colocou os pés em um grupo de devedores anônimos – grupo de apoio mútuo para quem tem problemas com dívidas – Patrícia* só conseguia chorar. Foram três reuniões sem falar uma palavra até que conseguiu colocar para fora o que estava sentindo. “Eu sempre soube que comprava demais, mas nunca tinha percebido que isso era um problema de verdade.” Essa foi a primeira vez em que a auxiliar administrativa teve contato com o termo transtorno de compras compulsivaspara saber mais sobre o que é a oniomania, acesse o primeiro episódio da série.

Foi pela indicação de uma amiga da mãe que ela decidiu conhecer o grupo, mesmo sem saber exatamente onde estava pisando. Um ano e meio depois do primeiro encontro, ela já não se sente mais a mesma pessoa que durante dez anos comprou mais do que precisava ou podia pagar.

Essa história não é só dela. Ao longo deste especial, você conheceu outras quatro mulheres que tiveram suas vidas desestruturadas pela dependência em comprar: Ana, Maria Aparecida, Cláudia* e Amanda*. De diferentes maneiras, entretanto, todas elas conseguiram encarar o problema e retomaram o controle sobre as suas escolhas financeiras. No último episódio da série, você conhece essas histórias.

O ponto de virada

Como o consumo faz parte do nosso estilo de vida, é comum que as pessoas convivam com as compras compulsivas por anos – ou mesmo décadas – até conseguirem admitir que precisam de ajuda. “A aparição do transtorno normalmente está ligada ao início da vida adulta, quando há a conquista da autonomia financeira. A percepção do problema, no entanto, só costuma ocorrer por volta dos 30 anos – embora haja uma parcela grande dos pacientes com mais de 50 anos”, explica Tatiana Filomensky, psicóloga do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da USP.

Para Patrícia, o “chacoalhão” veio depois do conselho de uma conhecida, já no caso da professora e poeta, Ana, foi o próprio corpo que deu seus sinais. “Eu tinha dois cargos no Estado e ficava praticamente o tempo todo na escola. Até que em 2012 fiquei doente e precisei me afastar por estresse. Nesse período parei para me olhar no espelho e pensar na minha vida. Decidi que ia pedir exoneração de um cargo.”

Foi aí que veio o baque: com o salário cortado pela metade, era urgente tomar uma atitude em relação ao alto padrão de consumo. Foi assim que Ana começou um processo de reflexão, mudança de hábitos e muita vigilância sobre as suas escolhas. Naquele ponto, a professora contabilizava sete dívidas: quatro em empréstimos e três em cartões de crédito. “Não era um valor exorbitante, mas, para o meu salário de professora, era.”

“A última dívida”

Foram três anos trabalhando para colocar a vida financeira nos eixos. E não foi fácil. “Tive que aprender a racionalizar o processo de compra, colocar na balança aquilo que eu precisava e podia comprar. Também perdi algumas amizades no caminho, mas outros laços ficaram mais fortes.”

Esse caminho de autoconhecimento acabou rendendo um livro de sua autoria: “A Última Dívida” – que dá título à essa reportagem.“ Quando escrevia, sentia que alguém estava me vigiando. Eu me perguntava: ‘Você está seguindo o plano mesmo?’ ‘Por que você teve essa recaída?’ Foi ótimo para colocar os pés no chão.”

O livro foi finalizado em maio de 2015 – não por acaso, o mesmo ano em ela terminou de pagar a sua última dívida. O projeto começou como um “diário de bordo”, mas hoje a autora busca uma editora para publicá-lo. “Meu projeto agora é levar esse livro a público e tentar ajudar outras pessoas. Acho que quando você supera algo, isso tem que ser bradado aos quatro ventos, porque se você conseguiu, outros também podem.”

ana_vilela_livro

Pouco mais de um ano depois de ter deixado as dívidas para trás, Ana já trocou de carro pagando a diferença à vista. Depois de dez anos vivendo no limite da sua vida financeira, ela já consegue destinar parte da sua renda à uma poupança. “Mas é preciso lembrar que a oniomania é como um vício, ninguém fica totalmente curado. Por isso, é preciso estar sempre alerta.”

Os próximos passos

Não apenas Ana encontrou seu caminho rumo às “últimas dívidas”. Por anos Cláudia viu sua vida sobrecarregada pelos juros altíssimo do rotativo do cartão de crédito, pelos financiamentos de uma casa e um carro e vários empréstimos consignados. Depois de ter passado por terapia durante um período, hoje ela se prepara para começar uma reserva financeira.

“Vejo com tristeza todo o dinheiro que ‘joguei fora’. Ainda devo alguns empréstimos e tive um bebê recentemente, o que fez minhas despesas aumentarem bastante, mas hoje eu tenho consciência do quanto eu ganho e posso gastar. Estou me preparando para começar a poupar, para realizar meus sonhos e também cuidar da minha aposentadoria.”

Leitura complementar

Cuide Melhor Do Seu Dinheiro

Cuide Melhor Do Seu Dinheiro

Ver mais

Depois de fazer as contas e perceber que somavam mais de R$ 300 mil, a advogada e professora Maria Aparecida renegociou o que devia e está em processo de pagamento. Ela teve acompanhamento de um psicólogo, dos devedores anônimos (D.A.) e também contou com a ajuda de um advogado especializado para as negociações.

“Foram 20 anos endividada e tenho mais uns cinco pela frente pagando o que devo. Mas hoje vejo um amadurecimento, eu tenho consciência de que não preciso de tanto crédito. O D.A. é muito útil. Nas reuniões você reflete, ouve outras histórias e aos poucos vai caindo a ficha de que precisa mudar.”

Amanda contou com a auxílio de um psicólogo, medicação e terapias alternativas para aprender a controlar os impulsos. Patrícia, que ainda participa das reuniões do D.A., está grávida e recentemente deu entrada em um apartamento com o namorado, com quem está há mais de dez anos.

“Desde que procurei ajuda minha vida está muito mais equilibrada, em todos os sentidos. Estou conseguindo cuidar melhor do meu dinheiro e a relação com o meu namorado também melhorou muito. Ele simplesmente me achava descontrolada e hoje consegue entender o meu lado e me ajudar.”

Precisa de ajuda?

Se você se identificou com os sinais e as histórias desta reportagem especial, pode ser hora de procurar ajuda. O tratamento da oniomania engloba uma série de ações. A psiquiatra Fátima Vasconcellos, membro da diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), indica a terapia cognitiva-comportamental e a participação em grupos motivacionais, como os devedores anônimos, como opções aos portadores. A administração de medicação por parte de um psiquiatra também pode ser necessária.

Existem no País iniciativas específicas para tratamento de transtornos do impulso. Uma delas é o PRO-AMITI, Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria (IPq), onde há um grupo gratuito para cuidado ao transtorno de compras compulsivas. Tatiana explica que o tratamento no local envolve avaliação médica e apoio psicológico, com grupos de apoio, manutenção, auxílio à organização das finanças pessoais e acompanhamento familiar. “A duração varia, mas é de no mínimo um ano”, coloca a psicóloga.

Outra frente de ação é por meio de grupos focados no controle das dívidas. Alguns Procons e a Defensoria Pública, por exemplo, prestam gratuitamente esse serviço a pessoas superendividadas.

Formas de tratamento para compradores compulsivos:

  • Acompanhamento psiquiátrico
  • Acompanhamento psicológico individual
  • Terapia em grupo
  • Grupos de apoio (como os devedores anônimos)
  • Ações de auxílio à organização das finanças pessoais e das dívidas

 

Fotos e artes: Shutterstock e Raquel Leitzke Küster

Gostou do nosso conteúdo? Clique aqui e assine a nossa newsletter! 

Desabafa!

Se você tem alguma dúvida sobre sua vida financeira ou uma boa história sobre dinheiro para contar pra gente, mande através do formulário abaixo.

Dúvidas enviadas através desse formulário não serão respondidas individualmente por e-mail.

O conteúdo da sua mensagem poderá ser utilizada em nossas matérias. Caso você prefira não ter o seu nome identificado, é só selecionar a opção "Mensagem Anônima".

personNome

personSobrenome

Mensagem anônimainfoSim

local_post_officeEmail:

commentMensagem: (obrigatório)

Este conteúdo foi útil para você?

Financas Femininas

Finanças Femininas

Sua independência financeira depende de você, com uma ajudinha nossa.

close