As mulheres querem produtos que as representem

As mulheres querem produtos que as representem

“As mulheres prósperas, instruídas e liberadas do Primeiro Mundo, que têm acesso a liberdades inatingíveis para qualquer outra mulher até agora, não se sentem tão livres quanto querem ser”. As palavras são da escritora americana Naomi Wolf, no livro “O Mito da Beleza”, publicado em 1991.

Na obra, ela mostra como a beleza ainda aprisiona a mulher moderna, dita pela sociedade como livre de amarras patriarcais depois de diversas conquistas de movimentos femininas ao redor do mundo. 25 anos depois da análise de Naomi, infelizmente o cenário não é muito diferente, e é possível notar o quanto mulheres ainda sentem as imposições que a autora aponta, como padrão de aparência física, corpo, rosto, cabelo e roupas vindas da mídia e reproduzidas socialmente.

Em contrapartida, o feminismo também continua firme e forte, assim como as mulheres que resistem à padrões de beleza, se aceitam e compartilham desta força com outras mulheres. A pesquisa “Revolução Delas”, divulgada em novembro do ano passado, mostra como o empoderamento feminino pode virar empreendedorismo, fazendo com que as mulheres deixem de ser um nicho no mercado, para fazerem o mercado que querem ver.

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A descoberta de que é possível se sentir bonita e satisfeita consigo mesma usando seu cabelo natural, sem esconder as dobrinhas do corpo ou as rugas que aparecem com a idade é transformadora para muitas mulheres, que deixam de gastar com procedimentos muitas vezes torturantes por não sentirem mais a necessidade de se ajustarem às exigências da sociedade.

Elas agora buscam por produtos que ajudam a valorizar e assumir suas formas naturais e o Finanças Femininas mostra alguns dos novos mercados que podem surgir a partir disso.

Mercado Plus Size:

De acordo a criadora do Bazar POP Plus Size, Flávia Durante, há alguns anos, o termo plus size era atribuído à coleções de estilo mais clássico e nada muito além disso. “Simplesmente não existia “moda plus size” e sim roupa para tamanhos especiais”, lembra a jornalista.

Por meio da criação do Bazar, que, em três anos já teve 11 edições, ela encontrou uma maneira de levar mais informação de moda para mulheres que vestem numerações acima do 46. “Assim como não há um perfil único da mulher brasileira, também não há o perfil da mulher plus size. Há gordas de todos os tipos, as moderninhas, clássicas, românticas, sexy. A única coisa em comum é que elas estão se posicionando e exigindo melhorias no mercado de moda especializada”, conta.

Bazar-Pop-Plus-Size-mercado-que-EmpoderaFlávia Durante em uma das edições do Bazar POP Plus Size. Foto: Reprodução do Facebook

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Segundo Flávia, o projeto consegue empoderar um grande número de mulheres por meio da moda, mostrando que não há limitações para o que elas querem vestir. “Muitas não conseguiam expressar sua identidade através da moda. É algo muito cruel tirar isso da mulher”, afirma.

Buscando quebrar estereótipos e padronizações de como uma mulher gorda deveria se vestir, Flavia realiza uma curadoria para escolher as marcas que participam do Bazar. “Não basta ser apenas “plus size”, mas tem que tem um espírito jovem, autoral e criativo”, justifica. A loja Chico Bolacha costuma sair de Porto Alegre para São Paulo para participar do evento. Outras marcas até mesmo nasceram em uma das edições do Bazar POP Plus Size, como é o caso de Oh, Querida e Lollaboo.

Estas e outras lojas têm surgido e integrado um nicho de mercado denominado “plus size”, pois as grifes famosas insistem em não vincularem a imagem do negócio a pessoas gordas, menos ainda fabricar numerações maiores que 44. Nas lojas de departamento e fast-fashion, ainda é possível encontrar numerações maiores, mas sempre escondidas estrategicamente, aponta Flávia. “A denominação é necessária pois ainda estamos em um momento de afirmação e descoberta. Eu prefiro um atendimento especializado com toda a vitrine e estoque com roupas pensadas para mim do que ser uma cidadã de segunda classe escondida no segundo andar.

Age Rebranded:

Flávia faz ainda uma observação de como não só as mulheres jovens que não querem atender a padrões e aceitar qualquer coisa que o mercado oferece. “Nesses três anos de bazar, reparei que nem as avós gostam mais de “roupa de senhorinha”. Elas também querem peças mais modernas e coloridas”, conta.

Age Rebranded pode ser traduzido como “idade repensada”. E é isso que mulheres como Susana Vieira, Bruna Lombardi e a modelo americana Jacky O’Shaughnessy têm feito. Elas aproveitam a visibilidade para mostrar que não há uma idade determinante para uma mulher se aposentar, menos ainda limites para o que se pode fazer ou vestir com a idade.

Aos 62 anos, Jacky estrelou uma campanha da marca American Appareal com o slogan “Sexy não tem data de validade”, demonstrando como fica difícil discordar.

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Transição Capilar e o Big Chop:

A transição capilar, processo para recuperação do cabelo natural deixando a raiz crescer sobre as pontas alisadas, proporciona esta aceitação pessoal e também muitas mudanças. Antes mesmo antes de começar comprar produtos para cuidar do tipo real do seu cabelo, é preciso passar por uma descoberta de identidade e descobrir até mesmo qual é este tipo.

Para muitas mulheres, principalmente as negras, os cachos ou crespos na raiz são escondidos desde muito cedo por chapinha ou química de alisamento, apresentados como a solução para fios supostamente rebeldes. Foi assim para a estudante de Artes, Lorena Moreyra, que tentou o processo de transição duas vezes até conseguir assumir o seu cabelo natural. “Toda vez que minha raiz do cabelo começava a crescer, eu tinha a mania que de passar meus dedos entre os fios e sentir a textura. Ficava imaginando como seria o meu ‘cabelo verdadeiro’, já que não o via há muito tempo”, lembra.

Outra motivação foi o dinheiro e o tempo gastos com a manutenção do alisamento que ela mantinha. “Cada vez que eu tinha que retocar a raiz, iam em média R$ 200,00. Fora os cremes de hidratação, ampolas, shampoos, entre outros, que nunca me davam um resultado satisfatório. E eu ainda me sentia cansada de passar de cinco a oito horas sentada na cadeira do salão”, conta Lorena, que tinha ainda medo de ter a saúde prejudicada por tantos produtos químicos.

transicao-capilar-mercado-que-EmpoderaO antes e depois da estudante Lorena Moreyra. Fotos: Reprodução Instagram

A necessidade de cortar os gastos a fez voltar à transição entre 2014 e 2015, mas dessa vez, com apoio de grupos sobre o assunto na internet e também com uma mudança de atitude interna. “Por que eu teria que ficar escondendo meu cabelo como se isso fosse motivo de vergonha? Ser negra e ter o cabelo crespo não é e nem deveria ser motivo de vergonha para ninguém! Fiz reafirmações comigo mesma e acima de tudo, me senti bem comigo mesma. Não esperava que a transição iria me fazer pensar em tais questões”, afirma.

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Assim como Lorena, quem deseja começar a transição capilar, hoje encontra informações em páginas e grupos no Facebook, como a “Faça Amor, Não Faça Chapinha”. Cresceram também o número de youtubers que falam sobre cabelo natural e suas próprias experiências com a transição, além de conteúdo na mídia, que não pode ignorar a força do movimento pelo cabelo natural.

Está mais fácil até encontrar salões especializados, como é o caso do Garagem dos Cachos em São Paulo, da cabeleireira Sabrinah Giampá. Ela se especializou em cortes e cuidados para cabelos crespos e cacheados, fugindo da segmentação que a mairia dos profissionais do ramo de beleza tomam, a do alisamento.

“Quando comecei a atender, eu tinha consciência que estava entrando num nicho totalmente desprezado pelo mercado. Mas o que mais me surpreendeu, foi perceber que eu estava abrangendo um nicho mais menosprezado ainda: o das mulheres tentando se livrar das químicas alisantes”, conta a profissional.

E o empreendimento valeu a pena, pois Sabrinah ajuda muitas clientes que procuram por ela em busca do tão sonhado big chop, o grande corte que remove toda a química do cabelo. “Eu sei que o que a cliente está fazendo ali não é um simples corte, é algo que vai muda-la pra sempre e toda a sua vida, por isso há cumplicidade e muita troca. Não vejo um cabelo ali, vejo um ser humano que quer ser feliz podendo ser quem é, sem máscaras”, afirma a especialista.

Sabrinah também tem formação em jornalismo, e ela conta histórias de transição e big chop que ouve no salão no blog Cachos e Fatos.

No-Poo e Low-Poo

Depois do corte, vêm as orientações de como cuidar do cabelo natural e é aí que os termos No-Poo e Low-Poo começam a fazer parte do vocabulário de mulheres que acabam de assumir seus cabelos naturais.

Sabrinah recomenda um dos dois tipos de lavagem para suas clientes, pois, depois de tantos anos com química,nada mais saudável que aderir a produtos que agridem minimamente os fios, ou seja, têm redução ou nenhum uso de químicos em sua composição.

Um produto No-Poo dispensa completamente o uso de surfactantes (emulsionantes). Já o Low-poo, utiliza o Cocamidopropyl Betaine, um detergente natural muito menos agressivo que o Lauril Sulfato de Sódio, que vem em grandes quantidades na maioria dos shampoos comuns. “A rotina sem espuma permite que você escolha seus cosméticos pelos componentes e não pelo marketing e embalagem. Dessa forma você não se engana mais comprando detergente achando que está comprando óleo de argan”, explica.

“A indústria cosmética é toda direcionada para a indústria dos alisamentos, que a sustenta. Você acaba acreditando que seu cabelo não tem jeito e vira uma presa mais fácil para progressivas e outras químicas agressivas disponíveis no mercado, que além de danificar o cabelo e prejudicar a saúde, nos tornam escrava destes processos, e faz com que as mulheres gastem seus salários, menores que o dos homens, com uma infinidade de tratamentos que muitas vezes a deixam endividadas”, analisa a cabeleireira.

Impulsionado a reverter este quadro, o ativismo pelo cabelo natural busca facilitar o acesso aos produtos No-Poo e Low-Poo. Uma boa pesquisada em grupos segmentados na web ajudará a encontrar listas de produtos baratos e recomendados para os métodos. Surgem ainda as marcas destinadas somente a elaborar produtos do tipo, como é o caso da Lola Cosmétics.

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Coletor Menstrual:

Para muitas mulheres, o período de menstrual pode ser extremamente desagradável, principalmente por causa do uso de absorventes internos ou externos, que provocam odores, desconforto e muitas vezes podem até serem prejudiciais a saúde. Por isso, a adesão ao coletor ou copo menstrual tem crescido cada vez mais.

Um vídeo da youtuber Jout Jout ajudou a popularizar o produto, que existe e está à disposição das mulheres desde a década de 30! Mas o produto sempre perdeu para o apelo das indústrias para o uso do absorvente, só para fazer as consumidoras gastarem mais.

Supondo que você compre no mínimo dois pacotes de absorventes por mês, daqueles mais simples: sem aba e de tamanho padrão que custam em média R$ 4,20, você gastaria R$ 109,20 no ano. É um preço muito parecido com o do coletor menstrual, porém, em cinco anos você já terá gastado em R$ 546,00, enquanto o coletor pode durar pelos mesmos cinco anos sem necessidade de troca. Também são cinco anos sem jogar absorventes no lixo e colaborando um pouco mais para o meio ambiente.

Segundo a jornalista Marina Rozas Montali, que utiliza o copinho há quatro anos, basta cuidar bem do produto para que ele dure mais. “Quando acaba o ciclo, é só ferver para esterilizar e guardar na capinha de proteção que geralmente acompanha”, explica.

Ela aponta ainda que o copinho é confortável, principalmente para quem pratica esportes e tem a rotina bem agitada. “As vezes até esqueço que estou menstruada quando estou usando o coletor”, afirma Marina.

O copinho não chega a ser à prova de vazamentos, mas se colocado bem, pode ser usado por até 12 horas e, para aprender a colocar, será preciso perder a vergonha do seu corpo e a ignorar a distância que o absorvente colocou todos esses anos: hora de se tocar. “É um método polêmico, pois menstruação ainda é um tabu. Mas o copinho faz com que a gente conheça melhor nosso corpo, nosso ciclo”, argumenta.  

A InCiclo é uma das marcas mais populares e vendem os coletores online para quem não encontrar em farmácias. A loja tem até uma panelinha para ferver somente o seu coletor.

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