Até que ponto a crise pode piorar?

Até que ponto a crise pode piorar?

Desde o ano passado, em meio à toda turbulência de um ano eleitoral bem agitado, já esperávamos que a crise econômica fosse agravar. No início do ano, no entanto, com a troca da equipe econômica do governo e o anúncio de medidas rigorosas que prometiam melhorar o cenário, surgiu uma esperança de que fosse possível organizar a casa ao longo deste ano e pensar em 2016 com um pouco mais de tranquilidade. O que estamos vendo, no entanto, está bem distante desta perspectiva otimista.

As medidas de ajuste fiscal não estão fazendo o efeito desejado, os gastos do governo continuam altos, as tensões políticas estão cada vez piores, a tendência é que a dívida externa continue elevada e tudo isso resulta em queda de credibilidade diante dos investidores externos. Na última semana, o Brasil caiu mais um patamar na classificação da agência de rating Moody’s. Apesar de não ter perdido grau de investimento, o país fica num limiar muito próximo de uma queda para grau especulativo. A agência anunciou que não pretende fazer uma nova avaliação no prazo de pelo menos um ano, mas as demais (Fitch e Standard&Poors) ainda devem se posicionar sobre a atual situação da nossa economia.

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Para quem tem acompanhado essa notícia nos jornais – mas não sabe exatamente o que isso representa – o economista Mucio Zacharias, professor do IBE-FGV, mostra o impacto que essa mudança poderia trazer. Em linhas gerais, as três agências de rating citadas acima apontam qual é credibilidade que cada país tem, ou seja, a capacidade que eles possuem de honrar suas dívidas. Quanto maior a nota, mais confiável é considerada aquela economia.

Dentre os critérios de classificação de cada agência, o Brasil está num patamar considerado de qualidade média, que ainda gera confiança para investimentos mais duradouros, ou seja, possui grau de investimento. Se a nota continuar a cair, o país passa a ter classificação ruim e sai de grau de investimento para especulativo. Isso significa dizer que os investidores de longo prazo – que trazem retorno para nossa economia em um horizonte mais amplo – dão lugar àqueles especulativos, interessados em retornos elevados enquanto houver oportunidade.

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A bola de neve

O professor explica ainda a diferença desta crise para outras passageiras que pudemos observar em um passado recente. “Antigamente nossas crises eram assim: havia muita demanda, a inflação subia, para segurar a inflação os juros subiam também e o Banco Central ficava sempre ali intermediando esse cabo de guerra. Nos últimos cinco anos estamos vendo o fracasso das políticas adotadas. Em 2010, tivemos um PIB muito bom, mas também aumento das contas e receitas menores, o que começou a gerar perda de credibilidade no país”, detalha.

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O que se viu a partir daí, foi a mudança de visão das empresas em relação ao país, em função dos resultados aquém do esperado. “Naquele momento, as empresas não tiveram o retorno que esperavam, tinham endividamento razoável e credibilidade razoável no país. A partir daí elas passaram a ter um crescimento pífio, a inflação comendo as margens de lucro, a indústria muito endividada e o câmbio totalmente desequilibrado. No fim das contas, falta consumidor, falta investidor, falta perspectiva para retorno e isso dá origem a uma crise gravíssima”, avalia.

Para dar uma ideia do descompasso das contas no país, o professor salienta que os gastos do governo crescem 7% ao ano, enquanto a receita cresce somente 1,3%. Trazendo para um exemplo prático, seria como pensar em um orçamento doméstico em que você ganhasse um salário de R$ 10 mil, mas começasse todo mês devendo R$ 11 mil, ou seja, um saldo negativo de mil reais constantemente.

Recuperação

Com o cenário atual, o especialista não acredita em uma recuperação de curto prazo. Ou seja, o quadro ainda pode piorar no próximo ano. “O Levir entrou na equipe econômica para assumir uma função de ‘mãos de tesoura’, mas as medidas não estão surtindo efeito. Os gastos do governo estão tomando conta de um modo preocupante, são criados mais impostos e o empresário fica cada vez mais sufocado. Só de junho para julho, as recuperações judiciais cresceram 93%, enquanto as falências subiram 70%, de acordo com o Serasa. É muita coisa”, comenta.

Um grande receio do especialista é que o Brasil perca nota de crédito até o final do ano. Na avaliação dele, isso faria com os juros subissem ainda mais. “Se o Brasil perde grau de investimento, os juros sobem muito para atingirem um nível especulativo. Isso gera um custo infindável para o país. Isso faz a gente voltar para 2003, quando o Brasil ainda era muito dependente dos órgãos internacionais, seria um retrocesso muito grande”, finaliza.

Para evitar que o país perca ainda mais credibilidade perante as agências de classificação de risco, seria preciso mostrar sinais de entendimento político, ao contrário do que vem acontecendo. Do lado de cá, sabemos tudo isso resulta em custo de vida mais elevado, orçamento apertado e medo do desemprego. Sendo assim, enquanto essa nuvem cinzenta não vai embora, o que dá para fazer é apertar os cintos com gastos e evitar extravagâncias.

Fotos: Shutterstock

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