Bárbara Sweet e o feminismo no microfone

Bárbara Sweet e o feminismo no microfone

“Eu não ganho porque sou mina, ganho porque tenho talento. Ganho porque te ausenta um bom conhecimento. Meu irmão, vá estudar! Vá saber o que falar, MC é compromisso e ocê (sic) não honra aqui, rapá (sic), então eu honro no seu lugar!”. As palavras nasceram do raciocínio rápido e afiado da MC Bárbara Sweet. Feminista, voz impostada, jeito simples e rimas fortes. Com este conjunto, a mineira de 28 anos carrega a responsabilidade de ter sido a primeira mulher a batalhar em duelos em Belo Horizonte, abrindo espaço para outras mulheres subirem no palco. Hoje, o Finanças Femininas traz um pouco mais da trajetória de Bárbara Bretas Coelho, responsável por levantar a bandeira do feminismo na cultura que representa a voz das ruas.

Em meio a uma multidão aglomerada, um mestre de cerimônias tem poucos minutos para defender-se de ataques, geralmente pessoais. Ao fim do tempo, quem rima melhor sai ovacionado e o adversário tem o desafio de esfriar as ideias que provavelmente fervilharam, mas não se traduziram em palavras tão fortes.

A batalha de Santa Cruz

Quando fez a rima citada acima, em setembro deste ano, em São Paulo, Sweet respondia ao MC Pasquim, que optou por ataca-la por seus ideais feministas. Ela avalia que ele fez a pior escolha. “Todo mundo sabe que me atacar com isso é caixão, todo mundo sabe que sou feminista, estou preparada para rebater qualquer argumento relacionado a isso. Ele não precisava fazer isso, poderia ter atacado a mim. Os caras já avisam, não fala nada de feminismo e nem de mulher, senão você vai perder. Os caras tem que fugir do lugar comum, de querer me atacar me mandando lavar louça”.

Em sua rima, Pasquim disse que os homens sofriam mais violência doméstica que as mulheres, completando a rima com um palavrão direcionado a mulheres feministas. O ataque foi a deixa para que ela o bombardeasse com uma série de argumentos rimados, enquanto a plateia delirava. Até a conclusão desta matéria, o vídeo havia sido compartilhado mais de 15 mil vezes e recebido cerca de 12.300 curtidas.

 

A postura da jovem foi aplaudida inclusive pelo rapper Emicida, que não poupou elogios a ela em sua página no facebook.

O início na cultura do improviso

O apelido “Sweet” surgiu na infância. Filha de pais separados, ela conta que sempre que o pai a visitava, levava um saco de balas de gelatina de uma loja chamada Sweet Sweet Way. Na escola, levava o saco de balas com o nome da loja e distribuía o presente entre amigos. “O apelido pegou na sexta série e ficou comigo daí em diante”, conta.

O gosto pela rima veio ainda na adolescência. Aos 14 anos, entre amigos e rodas de violão, começava a fazer o que é chamado de freestyle, que é a rima livre, surgida na base da improvisação. Até então, tudo fluia na base da brincadeira. Em 2008 resolveu participar de sua primeira batalha, mas o desfecho não foi muito bom. “Ele me atacou falando do meu peito, do meu corpo, fiquei mal, não soube digerir aquilo muito bem. Depois disso fiquei afastada por um tempo, mas voltei em 2012”. Quando resolveu subir aos palcos novamente, foi cada vez mais incentivada pelos amigos do Família de Rua a competir e duelar mais e, felizmente, seguiu os conselhos.

Segundo ela, na época em que aconteceu a batalha mencionada, faltava-lhe a maturidade para entender que o ataque que é feito ao adversário durante uma batalha não deve ser levado para o lado pessoal. Ela esclarece, no entanto, que atacar um MC pessoalmente é diferente de atacar um movimento, por isso não aceita que tentem diminuir o feminismo ou desmerecê-la pelo fato de ser mulher.

barbara_sweet/arquivo pessoal

A bandeira do feminismo

“O feminismo é uma descoberta, a sociedade sempre leva a gente para outro lado, para ser machista. Fui descobrindo através de pesquisa, a partir do momento que comecei a fazer coisas que supostamente não deveriam ser feitas. Quando comecei a batalhar não tinha nenhuma mulher fazendo isso em BH. Tinha menina que fazia rap, fazia freestyle, mas não batalhava, aquilo me incomodava muito. Os homens sempre zoavam usando mulher para diminuírem uns aos outros, dizendo que o outro rimava ‘feito mulherzinha’. Aquilo foi brotando em mim uma vontade de estar ali, de mostrar para o cara que se fosse eu ali ele não falaria aquilo nunca mais na vida dele”, relembra.

Apesar do amor que sempre nutriu pelas batalhas de MC, ela conta que não se sentia representada, que sentia-se ofendida como plateia. Mãe de uma garotinha de 6 anos, ela certamente tinha a vontade de dar um exemplo diferente. Sweet avalia que seu crescimento e exposição como MC preparada para enfrentar o machismo foi importante não só para as mulheres, mas para muitos homens que também fazem parte desta cultura. “Sem querer ser pretensiosa, mas quando resolvi dar a cara foi maravilhoso para eles, porque ainda não tinha ninguém ali para desconstruir isso (machismo) para eles. Foi a partir do momento em que botei a cara que mostrei a eles que estavam errados, foi uma forma deles se questionarem”, ressalta.

Hoje, além dela, outras três mulheres participam de duelos de MC em Belo Horizonte. Na visão de Sweet, o passo que ela deu foi fundamental para que outras mulheres percebessem que tem capacidade de enfrentamento. “Passei a ter contato com mais meninas, elas se sentem representadas, elogiam, ficam felizes da gente bater de igual para igual com os caras. Este enfrentamento em um ambiente masculino é transcedental, fico muito feliz de ter estimulado muita gente”, completa.

barbara_sweet/arquivo pessoal

Projetos

Além do disco que está gravando e uma agenda de shows em várias cidades, Sweet conta que faz parte do projeto “Mina no Mic”, que segundo ela visa fomentar a participação das mulheres na cultura de rua. Ela e outras três MCs tocam o trabalho, visando expandir a cena hip hop para a ala feminina. “O foco é trazer mais meninas, trazer oficinas de rimas, estamos tentando um projeto pela Funarte e queremos construir o espaço da mulher dentro do hip hop. Não por ser menina, mas por ser capaz, por ter talento, por empoderamento”, frisa.

Nas palavras da própria MC, a mulher precisa descobrir em si a capacidade de enfrentamento. Para todas nós fica um bom exemplo de quem não tem receio de falar o que é preciso. Com uma mensagem tão forte e necessária sendo levada por Sweet, o Finanças Femininas deseja a ela muito sucesso!

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