Brasileiro acredita que poupar não vale a pena

Brasileiro acredita que poupar não vale a pena

*Carolina Ruhman Sandler

Essa foi a conclusão de um estudo sobre escolhas e dinheiro realizado recentemente pelo Banco Itaú. Parece difícil de acreditar, mas o estudo mostra como o nosso passado econômico continua a influenciar o nosso comportamento com dinheiro. Nós continuamos a gastar como se não houvesse amanhã, muito por conta da memória do período de inflação alta que vivemos na década de 1980.

Com isso, os nossos valores se inverteram: não consumir é gastar, enquanto o consumo é visto como um ganho, e qualquer investimento é percebido como arriscado demais. Afinal, por que deixar para amanhã o que você pode ter hoje? Isso explica a estatística de que apenas 30% da população brasileira consegue poupar – e deles, 86% colocam o dinheiro guardado na caderneta de poupança.

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O estudo revelou que o consumo é visto como uma forma de expressão. Você é o que você compra, assim como a forma como você se veste revela tanto sobre a sua personalidade. Comprar gera uma sensação de conexão, de pertencimento – você vira da “tribo” que só tem iPhone ou Samsung. Saber comprar bem equivale a fazer boas escolhas – e quem nunca se sentiu a mulher mais esperta da terra depois de comprar algo que queria muito na liquidação?

Repare em toda a conotação positiva dada ao consumo. O consumo está até ligado à generosidade: quem compra para o outro sente menos culpa. A gente consegue justificar certas compras, dizendo que tal pessoa merece!

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Por outro lado, o ato de poupar está associado a tomar riscos, a manter o dinheiro escondido de nós mesmos. É um ato que não comunica nada a ninguém, isolado da comunidade. E quem nunca disse que ia deixar o dinheiro “parado em algum investimento”? É justamente o contrário! A gente aplica para fazê-lo crescer, não tem nada de imobilidade no ato.

O simbolismo está todo invertido, e o estudo também revelou que nossas escolhas estão desconectadas umas das outras, de tal forma que falta consistência para nossas ações. Assim, da mesma forma que a gente sabe tudo sobre as melhores dietas mas não consegue pular a sobremesa, o nosso conhecimento não gera necessariamente uma ação. Eu sei que preciso ter dinheiro guardado, mas também preciso ter a nova bolsa-desejo, e assim tudo fica para depois…

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Na nossa percepção, o ato de poupar está ligado a valores baixos, a manter o dinheiro estável, parado e seguro. O dinheiro guardado fica na conta corrente ou na caderneta de poupança. Já os investimentos estão todos ligados a valores altos, a aplicações arriscadas e, em última análise, inacessíveis. No entanto, para qualquer pessoa que trabalhe no mercado financeiro, o ato de investir é a consequência lógica do de poupar, e não o seu oposto.

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Se pensamos mesmo desta forma, onde fica o nosso estímulo para guardar dinheiro e investir? Para buscarmos uma forma de melhorar a nossa relação com nosso dinheiro, é essencial olhar pelo foco da realização pessoal. “Quando as pessoas fazem escolhas a partir de uma perspectiva do que é mais importante para elas e de que o planejamento pode fazer uma grande diferença para viverem bem, a relação com o dinheiro e com as escolhas muda para melhor”, acredita Denise Hills, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco.

Ela não está sozinha – a partir do momento em que a sua ficha cai de que são as suas escolhas que te trouxeram para a sua situação atual e são as suas escolhas que podem ajudar a te tirar disso, percebemos que a única forma de melhorar a sua situação e correr atrás dos seus sonhos é assumir o seu protagonismo. Então, é hora de se perguntar: o que é que te move?

*Carolina Ruhman Sandler é a fundadora do site Finanças Femininas e coautora do livro “Finanças femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva). Jornalista, tem 31 anos, é casada e mãe da Beatriz.

Fotos: Shutterstock

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