Brasília está alvoraçada com tantas preocupações

Brasília está alvoraçada com tantas preocupações

*Naiara Bertão

De uma coisa eu não posso reclamar: jornalista econômico se diverte. O governo Dilma foi todo cheio de divertimentos. O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, era o mestre de toda a diversão dos meus últimos anos cobrindo assuntos duros e difíceis de entender. Vivia dizendo coisas inconsistentes e, muitas vezes, fora da realidade que literalmente “ríamos para não chorar”. Com tantos anos ao lado de Mantega, Dilma aprendeu a soltar pérolas. A clássica, com certeza, é a da meta: “Não vamos colocar uma meta. Vamos deixar em aberto. Quando a gente atingir uma meta, a gente dobra a meta”, disse a presidente em julho ao falar do programa Pronatec para jovens aprendizes.

Como se não bastasse a forte repercussão na imprensa do dito, até seu ex-aliado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, tirou uma casquinha logo após a separação: “Vamos levar, sim, à votação o projeto de votação da reforma tributária. Nossa ideia é em setembro, mais tardar em outubro. O objetivo é concluir até o fim do ano. Como diria, primeiro a gente atinge a meta, depois a gente dobra a meta. Vamos tentar atingir a meta e depois, se possível, a gente dobra”, ironizou.

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A ‘brincadeira’, porém, pode ficar no passado se o governo e Cunha acertarem uma reaproximação. Por um lado, Cunha quer apoio para evitar perder o mandato pelas denúncias de corrupção que vieram à tona e devem passar pelo Conselho de Ética do Congresso. Por outro, Dilma está preocupada com o barulho que a oposição está fazendo sobre o novo pedido de impeachment.

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A semana passada foi de intensas reuniões sobre o assunto. A presidente alegou, em entrevista a uma emissora de TV, que não há acusações contra ela e que a pressão da oposição para que ela saia do poder é uma tentativa de “pedalada política”, atalho para o poder. O termo é uma clara referência ás pedaladas fiscais, práticas ilegais no orçamento público, das quais o governo Dilma é acusado e pode ser uma forte sustentação em um pedido de impeachment, se condenado.

Enquanto Dilma se reúne com seus aliados e consultores para ver o céu no meio do bombardeio político, o atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, reforçou a bandeira do equilíbrio fiscal através do pagamento de impostos. Sem a CPMF, disse, alguns benefícios estão ameaçados, como seguro-desemprego e abono salarial. Como bem colocou um âncora de telejornal: não há discussão sobre a necessidade de aumentar a receita, mas sim sobre a moral que o governo tem para cobrar mais impostos da população. Esta mesma população que não está conseguindo fechar as contas direito com a alta da inflação, dos juros, a queda da renda e a ameaça do desemprego.

Já nem prestamos mais atenção nas notícias sobre recorde de baixa de vendas, fechamento de lojas, empresas entrando em recuperação judicial e a falta de investimento. De tudo isso, é com o investimento que mais deveríamos nos preocupar: o Brasil ainda não sabe como usá-lo bem. É triste ver, por exemplo, notícia sobre o trem bilionário de Cuiabá, incluído no plano de mobilidade para a Copa do Mundo, que mal saiu do papel e tirou o lugar de um sistema completo de corredores de ônibus na cidade. O deputado estadual mato-grossense Romoaldo Junior (PMDB), líder do governo na Assembleia Legislativa em 2011, quando a Casa aprovou a construção a linha de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) explicou que a construção do sistema foi aprovada pela “euforia do momento”.

Por mais que Eduardo Cunha bata na tecla de que “quem não deve não teme”, a troca troca de amigos, acusações e decisões em Brasília mostra que, após a euforia da bonança, pode vir uma ressaca bem forte.

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalha para o Guia Bolso e passou por diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

Fotos: Shutterstock

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