Carreira e maternidade: uma conversa sincera (mesmo)

Carreira e maternidade: uma conversa sincera (mesmo)

*Lecticia Maggi

As mulheres podem ou não podem ter tudo? Dá para conciliar maternidade com uma carreira muito demandante?

Nos Estados Unidos, o debate sobre tais tópicos é acalorado e ganhou mais força após 2012, quando Anne-Marie Slaughter, hoje presidente e CEO da New America Foundation, escreveu o texto Why Women Still Can’t Have It All (acesse aqui). Prontamente, Marissa Mayer, CEO do Yahoo, respondeu dizendo que dava sim para “ter tudo”. E sua história comprovaria isso: ela assumiu o Yahoo em 2012, grávida de sete meses e tirou apenas duas semanas de licença maternidade. Em setembro deste ano, anunciou que terá gêmeos.

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Aqui no Brasil, as discussões sobre carreira, feminismo, direitos (sobre o corpo, as escolhas, a vida) também nunca pareceram tão fortes. Para falar sobre trabalho e maternidade, especificamente, a Impulso Beta entrevistou a engenheira Mariane Hotta, de 34 anos. Formada pela Universidade de São Paulo (USP) e com MBA pela Universidade Harvard, nos EUA, a mais prestigiada do mundo, Mariane sempre se destacou em ambientes muito masculinos. Aos 29, já tinha um cargo de gerência na consultoria A.T Kearney e perspectivas de rápida ascensão. Até que, aos 30 anos, o primeiro filho chegou e muitas de suas certezas foram testadas… Confira na próxima página!

Maternidade é um desafio sim.  “Esse discurso do ‘we can have it all’ coloca muita pressão nas mulheres em geral, pois a verdade é que, na prática, poucas conseguirão se sentir satisfeitas em todas as áreas, o que faz com que muitas de nós se sintam frustradas. A maternidade é sim um grande desafio e é preciso falar sobre isso. Além disso, a maternidade acontece de maneira muito diferente para cada mulher, sem termos qualquer controle sobre isso. No meu caso por exemplo, meu primeiro filho, Guilherme, precisou de muito cuidado no começo e tive sorte, pois a A.T Kearney foi muito parceira.

Depois da licença maternidade, eu estava frágil tanto física quando emocionalmente e não estava preparada para voltar a ser consultora, então, negociei ficar no time administrativo da empresa: saia às 16h e recebia 80% do meu salário. Em termos de carreira, fui penalizada e fiquei um ano “estagnada”. Se fosse olhar só pelo lado profissional, teria voltado direto para consultoria e crescido mais rápido. Mas, por outro lado, tive mais tempo com meu filho e consegui amamentá-lo até os 9 meses. Fiz uma escolha consciente, pesando os prós e contras, mas respeitando as prioridades que eu tinha estabelecido para mim naquele momento.”

Troca de carreira. “Com a maternidade, há um grande aumento da carga de trabalho e apesar de A.T Kearney ter me apoiado bastante, com o nascimento do meu segundo filho, Leonardo (hoje com 2 anos), percebi que não cresceria na velocidade que gostaria, sendo o tipo de mãe que queria ser. Como consultora, não tinha horários certos – e o cliente nem sempre é em São Paulo e, às vezes, não entende que você precisa sair todos os dias às 18h. Resolvi, então, trabalhar na empresa do meu pai que hoje está numa situação difícil. Estou gostando muito de trabalhar na área de reestruturação e me esforçando muito para recuperar a empresa da minha família.”

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Chegar em casa às 18h30: um ‘luxo’. “Para mim, hoje, meus filhos são a minha prioridade e não há cargo ou salário que seja mais importante do que acompanhar o crescimento deles. Às vezes, quando falo que priorizei um pouco mais a família, parece que abri mão da carreira e não é isso. Trabalho muito e chego em casa às 18h30, dou janta para meus filhos e fico cerca de 1h30 com eles para brincarmos e conversarmos um pouco antes deles irem dormir. Meu marido é quem os leva à escola, pois saio cedo para poder chegar cedo em casa. Até hoje, ainda não consegui assistir a uma aula de judô do meu mais velho, mas tenho o ‘luxo’ de chegar em casa todos os dias às 18h30. Do ponto de vista profissional, chegar em casa às 18h30 pode parecer cedo, mas do ponto de vista pessoal não sobra tanto tempo assim.”

Lembre-se: sua vida, suas escolhas. “Tenho amigas, no entanto, que agiram de forma diferente com a maternidade. Uma, que inclusive é uma das profissionais que mais admiro, nunca reduziu a jornada de trabalho e em três anos conseguiu virar sócia da empresa. Ela dizia que queria aproveitar quando a filha era pequena para trabalhar mais, chegar aonde queria e depois ter mais tempo com ela. Hoje, como sócia, é mais dona do próprio tempo. A sociedade às vezes é cruel e julga muito as mulheres que parecem priorizar a carreira, sem muitas vezes saber de fato as necessidades e os objetivos de cada família. Não julgo as pessoas que fizeram escolhas diferentes da minha, pois não há uma única resposta certa para todas as mulheres.”

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Importância do apoio do companheiro. “Meu marido propôs que, se eu quisesse focar mais na carreira, ele ficaria em casa. Acho que ele estava brincando, mas mesmo assim eu fiz a opção de ser a pessoa que estaria mais em casa com as crianças…  Apesar disso, ele também resolveu trocar de área – deixar consultoria e ir para indústria – para ter mais tempo com nossos filhos. A divisão de tarefa com o pai das crianças é importantíssima e determinante no sucesso profissional da mãe. Ter filhos implica em uma série de atividades, preocupações e decisões que devem ser administradas no dia a dia e se temos alguém para nos ajudar com essa carga adicional de trabalho, conseguimos mais tempo e paz de espírito para nos dedicar à carreira. Infelizmente, a divisão poucas vezes é igualitária e as mães ainda são as mais sobrecarregadas. Não é à toa que muito se discute sobre carreira após a maternidade e pouco se fala sobre o tema após a paternidade.

Não antecipe problemas e nem desista antes de tentar. “Por fim, o que gostaria de dizer é que existe muito tabu em torno do tema carreira e maternidade, o que faz com que muitas mulheres desanimem antes mesmo de buscar alternativas. A maternidade é sim um desafio, mas não um empecilho. Há empresas que oferecem diversas facilidades, como creche no local de trabalho, horário flexível, redução de jornada.. É importante procurar bastante e negociar. Depois que temos nossos filhos é muito comum as mulheres se deixarem em segundo plano, mas não podemos esquecer de nossos objetivos e de nossa individualidade, pois afinal nossos filhos crescem e, infelizmente, eles crescem muito rápido.”

Fotos: Impulso Beta

*Lecticia Maggi escreve para o Impulso Beta. Mulheres em busca de independência e em processo de empoderamento compartilham suas histórias e trajetórias, afim de inspirar outras mulheres a alcançarem o sucesso.

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