Cartão de loja: o desconto de 10% vale a pena?

Cartão de loja: o desconto de 10% vale a pena?

“Você gostaria de fazer o cartão da loja e ganhar 10% de desconto na primeira compra?”. Em tempos difíceis, qualquer gasto a menos é bem-vindo – ainda mais quando a vendedora jura que você não pagará nenhuma taxa. Você reluta, mas aceita. Talvez até pergunte mais algumas vezes se realmente não pagará anuidade, recebendo sempre a mesma resposta.

Então, assina o contrato, faz suas compras e volta para casa sem nenhum sinal de complicação. Porém, quando o mês vira, recebe a fatura e leva aquele susto: de onde saiu essa anuidade? E esse seguro, que não lembra de ter contratado?

Esse foi o choque que a jornalista L.* teve ao abrir a primeira fatura que recebeu de uma loja de roupas femininas. O cartão lhe foi oferecido no caixa, quando ela passava uma bota de R$ 150. Desempregada, ela aceitou – afinal, todo gasto a menos seria bem-vindo. “A vendedora me disse que o cartão não tinha anuidade, que eu não ia pagar nada naquela compra pelo cartão e ainda teria 10% de desconto. Perguntei mil vezes se ela tinha certeza de que eu não pagaria nada, e ela confirmou”, conta.

Porém, na fatura constava a cobrança de uma anuidade de quatro parcelas de R$ 15, totalizando R$ 60, mais R$ 5,99 de um seguro. “Eu tenho certeza que li o contrato e não vi nenhum valor do tipo. É muito difícil eu assinar alguma coisa sem ler. Se tinha, devia estar em outros termos e/ou em letras bem miúdas”, afirma.

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Vale tudo?

L. não está sozinha. Uma breve busca no site Reclame Aqui revela que, apenas nos últimos 12 meses, as principais lojas de departamento do Brasil tiveram mais de 14.800 reclamações registradas referentes ao cartão de crédito oferecido por elas. Elas vão desde cobrança indevida de anuidade e seguros até envio de cartão para as consumidoras sem que elas tivessem solicitado.

A gerente de marketing do Finanças Femininas Malu Lopes quase foi vítima da má fé de um vendedor. “Ele disse que algumas pessoas tinham direito a um desconto de 10% e perguntou se poderia verificar se eu tinha. Disse que sim e passei meu CPF. Quando percebi, ele já estava cadastrando meus dados para fazer um cartão, sem sequer avisar do que se tratava”, diz.

Já a jornalista Daniella Silva recebeu via Correios o cartão de uma loja que nunca havia pedido. “Pensei que, se não usasse, não pagaria nada, e simplesmente ignorei. Até que começaram a vir os boletos apenas com uma taxa, pois eu nunca fiz compras com ele”, relata. Depois de ligar diversas vezes na central, ela conseguiu cancelar o cartão e as cobranças indevidas.

Como se proteger

Talvez L. não tivesse feito o cartão se não houvesse a promessa de zero anuidade. “Ela foi atraída pela falha na informação. Então, uma vez que essa oferta foi realizada de forma clara, é ela que prevalece”, diz Renata Reis, coordenadora de área do Procon-SP.

Sentir-se lesada fez L. ligar na central de atendimento da loja para cancelar o cartão e pedir estorno dos valores cobrados. Porém, a atendente informou que não poderia devolver o dinheiro, pois ela havia contratado aquele plano e assinado a papelada do seguro, sendo que a única maneira de resolver seria na loja.

Para Ione Amorim, economista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), mandar a consumidora para a loja é uma prática abusiva. “O SAC é um canal protegido, onde você terá o direito de obter resposta em até cinco dias. Se não obtiver, ou ela não for satisfatória, poderá procurar a ouvidoria com o número de protocolo e, paralelamente, reclamar junto ao Banco Central ou na Secretaria Nacional do Consumidor. Se você for apenas falar com o gerente, não terá garantia alguma”, alerta.

Caso nada disso resolva, você pode recorrer aos Juizados Especiais Cíveis – também conhecidos como Juizados de Pequenas Causas. “A loja deve devolver em dobro tudo o que a consumidora pagou indevidamente”, enfatiza Renata.

Apesar disso, L. diz ter resolvido o caso com a gerente da loja, que não relutou em diminuir a anuidade para três parcelas de R$ 3,90 e cancelar o seguro. “Como ela resolveu, nem fui atrás do Procon ou da Justiça. Eu só queria não ter que pagar a mais por algo que disseram que não iam cobrar, mas sou leiga e fico com medo de dar algo errado. Então, preferi pagar, mesmo estando muito brava”, lamenta.

Aqueles 10% valem a pena?

Ter diversos cartões de loja é um convite ao descontrole financeiro. “A maioria das pessoas não é suficientemente organizada para dar conta de diversas faturas, então, acaba acumulando dívidas com taxas de juros altíssimas”, alerta Carol Ruhman Sandler, fundadora do Finanças Femininas e coach financeira.

Se você já está envolvida em dívidas, é preciso montar um plano para quitá-las. Comece pelo cartão que tem as maiores taxas de juros. “Separe 50% da sua renda para as despesas essenciais, 20% para os itens supérfluos e 30% para quitar os débitos”, orienta Carol. Se você tem dinheiro guardado, use-o para se livrar dessa situação – ao pagar as dívidas à vista, você pode pedir um desconto valioso. Neste vídeo você confere mais dicas da Carol para quitar dívidas.

Então, antes de considerar aqueles 10% de desconto na primeira compra, respire fundo e pense direito. “É uma pegadinha. O benefício está embutido nos custos que você terá depois, então, é preciso ficar bem atenta”, finaliza Ione.

*O nome foi ocultado para preservar a fonte.

Fotos: Shutterstock

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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