Como controlar os pedidos das crianças em época de crise

Como controlar os pedidos das crianças em época de crise

*Luciana Cattony

Crianças são seres que naturalmente querem tudo. Pedem o que veem pela frente: o brinquedo da propaganda, o biscoito do personagem, a mochila da moda, a pasta de dente do super-herói, o aplicativo de celular, a viagem dos sonhos e até o modelo do carro dos pais. Segundo o Instituto Alana, no documentário “Criança, a alma do negócio”, 80% da influência de compra das famílias vem das crianças. Não é à toa que percebemos nas propagandas em geral, mesmo naquelas de produtos e serviços que não se referem diretamente ao universo infantil, uma linguagem acessível aos pequenos e até a presença de elementos lúdicos em algumas mensagens. E como agir diante de tantos pedidos?

Ceder às vontades das crianças costuma ser regra em grande parte das famílias brasileiras. Muitos pais, na preocupação de não frustrar os pequenos, perdem as rédeas da situação e comprometem o domínio da disciplina e até a vida financeira da família. Com a atual crise econômica, alguns adultos acabam se endividando para satisfazerem os desejos dos pequenos. Segundo Cláudia Montier, psicóloga e sexóloga, especialista em casais e família, muitos pais dizem sim a todos os caprichos dos filhos na tentativa de minimizar algum sentimento de culpa ou por quererem dar aos filhos o que não tiveram.

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Envolva-se de verdade

Cláudia adverte que, antes de acatar o pedido da criança, é interessante acolhê-la com carinho, estimular o diálogo e demonstrar um real interesse por ela. “Comece perguntando ao seu filho sobre seu dia e diga que depois conversarão sobre o pedido em questão, preenchendo de uma forma afetiva e interessada o pedido da criança”. Mais do que bens materiais, os pequenos precisam de carinho e atenção.

O melhor que os pais e responsáveis podem dar aos seus filhos é a qualidade do tempo; independente se são algumas horas ou apenas poucos minutos. O importante é que estejam plenamente presentes. Quando as crianças encontram sentido na argumentação dos pais, elas se chateiam, mas acabam aceitando. “A agressividade e a falta de paciência de alguns adultos dificultam a comunicação, podendo trazer como consequência as temidas birras e a má educação”, afirma Cláudia Montier.

De acordo com a pedagoga, psicopedagoga e coordenadora escolar do Colégio Batista Mineiro, Mônica Dias de Almeida Vieira, é muito comum encontrar alunos que não recebem bem as regras e intervenções feitas pelos professores ou outros funcionários da escola, fruto da educação recebida em casa. “Não há crescimento sem envolvimento, o que significa dizer ‘não’ em algumas situações; inclusive negar alguns bens materiais”, opina.

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Você é o adulto

Os adultos precisam entender que ao dizerem ‘não’, eles estão contribuindo para uma relação sólida e não o contrário, como muitos pensam. Na maioria das vezes, o ‘não’ é dado ao pedido e não à criança em si. As frustrações fazem parte e são fundamentais para o amadurecimento das crianças, visto que a vida adulta também é feita de constantes privações. “As crianças precisam de referências de autoridade; isso traz segurança para elas”, complementa Mônica Vieira.

A criança aprende a ter limite a partir do respeito e da certeza de que alguém mais capacitado está cuidando dela, de acordo com a psicóloga Cláudia. Por isso é importante que os pais estejam seguros para que possam transmitir esses limites de forma clara e objetiva. Uma postura firme, sem recuos nas regras, é essencial para não gerar confusão na cabeça dos pequenos. “Quando as regras não são claras, a tendência é insegurança, baixa tolerância à frustração e comportamentos de manipulação aos responsáveis”, explica. Mesmo com choros e birras é importante manter uma posição firme.

Seja coerente e cuidado com a superproteção

Os adultos devem se lembrar que superproteção e falta de limites podem causar problemas mais graves no futuro. Se seu filho cresce achando que pode tudo, sem ouvir um “não”, provavelmente terá maior chance de se envolver na adolescência com fatores que o faça “fugir” da realidade, como álcool ou drogas, por exemplo. Não se pode esquecer também que as crianças aprendem com os exemplos. Não adianta proibi-las de comprar o que querem e sair de outra loja com muitas compras para você. A coerência entre o falar e o agir é fundamental.

Aproveite a oportunidade

A crise econômica e a contenção de despesas podem ser uma ótima oportunidade de ensinar as crianças o valor do dinheiro. Ceder aos caprichos dos pequenos é uma forma de torná-los indiferentes a essas questões. Uma dica é começar a orientar sua criança dizendo ‘isso está caro’, ‘isso está barato’, fazer combinações e relembrá-las sempre que necessário. Por exemplo: “Viemos neste supermercado para comprarmos coisas para casa e não é momento de levar brinquedos”, explica Cláudia. Vale ressaltar também que para uma educação financeira de sucesso, é preciso ensinar a criança a se planejar para comprar o que deseja e sobretudo saber esperar.

A relação entre pais e filhos é de constante aprendizado e, por isso, tão rica! Os filhos precisam entender que não são os bens materiais que dão sentido à vida e que as conquistas são fruto de muito esforço e trabalho. Já os pais precisam se conscientizar que o melhor que podem oferecer às crianças não são as coisas, e sim o exemplo; alicerçado em valores que não se compram.

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Recomendação de leitura

Com a ajuda de Kênia Silva, criadora do Projeto Vira Páginas, um espaço dedicado para compartilhar a importância da leitura no desenvolvimento das crianças, separamos alguns livros para facilitar a prática do que foi falado por aqui:

LIVRO_A_PEQUENA_DITADORA

Sabe a história do dono da bola? Valentina é assim. Mandona que só ela, a menina é uma verdadeira ditadora! Para escrever esta nova história, o autor Luciano Trigo buscou inspiração em sua filha, e dedica a obra aos pais e professores que andam desesperados por impor limites aos pequenos.

LIVRO_QUERO_QUERO

Carla é uma menina igual a tantas outras, mas às vezes ela se sente muito diferente e sofre por isso. Sempre que a menina não consegue ter ou fazer o que quer, grita, esperneia, sapateia. Seus pais e todas as pessoas ao seu redor estranham muito e não sabem o que fazer… Por que será que Carla é assim? Por que ela não consegue se expressar de outra maneira? Neste livro, a autora fornece ferramentas para que pais e educadores possam entender e ajudar as crianças a perceberem que o limite pode e deve existir, sem autoritarismo, contradições ou imposições.

LIVRO_POR_QUE_PRECISO_DE_DINHEIRO

Entre as frases preferidas das crianças estão as que iniciam com por que, a palavrinha que expressa as dúvidas, a curiosidade e os protestos dos pequenos. Esta historinha original e rica em ilustrações vai explicar à pequena Lúcia as funções do dinheiro, como consegui-lo e como valorizar o dinheiro dos pais.

LIVRO_CARAO_COM_CARINHO

Em um mundo em que os pais, a cada dia, são ameaçados na sua autoridade pela pressão externa e pelas tensões familiares, aprender como ajudar os filhos, dando-lhes referenciais para se sentirem seguros de si e conscientes dos seus limites nas relações com as outras pessoas, é tarefa de relevância pedagógica. A repreensão com afeto é possível. Mais que isso: só com afeto é que os limites são estabelecidos com eficiência, tornando-se duradouros.

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Fotos: Shutterstock

*Luciana Cattony é publicitária e fundadora do site Real Maternidade.  Luciana tem como objetivo facilitar a vida das mães e levar leveza e alegria para a rotina delas. Siga o Real Maternidade no Facebook e Instagram.

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