Como lidar com nosso senso crítico e ter uma vida mais leve

Como lidar com nosso senso crítico e ter uma vida mais leve

Quando decidi sair do mundo corporativo para ser Coach, um dos meus maiores objetivos era ajudar as pessoas e ter qualidade de vida. Poder fazer minha unha, drenagem, musculação… Sair do trabalho enquanto o sol ainda brilhava! Que sonho! Era realmente o mundo ideal.

Passei anos trabalhando em multinacional repetindo a famosa frase “Ah se eu tivesse tempo…” como se fosse um mantra. Qualquer curso, viagem ou ginástica que eu deixasse de fazer, repetia o mantra. Falava que o mundo corporativo sugava minhas energias, minha vontade de viver e me impossibilitava de ter a saúde que tanto (dizia que) buscava. Tanta gente dependia do meu trabalho, eu precisava sempre estar com tudo pronto, não podia jamais ser o “funil” onde tudo brecava. Cansei de levar o notebook para casa, trabalhar até altas horas e até perdi o noivado do meu primo por não poder perder um prazo que um chefe louco impôs.

Em partes, eu tinha a crença que tudo se resolveria quando fosse dona do meu negócio. Ah, eu vou sambar na cara do tempo. Vou usá-lo a meu favor. E então me tornei Coach. Venci meus medos e assumi essa nova carreira. Mas o controle, a vontade de atender tudo e todos, veio comigo. A síndrome de mulher maravilha. Não tinha mais medo de ser funil, mas tinha a vontade de ajudar absolutamente todo mundo. Eu continuava repetindo: “As pessoas precisam de mim”.

Atendia pessoas até 23h. Ficava sem fazer a unha, sem ver meus pais e amigos. Sem ver a luz do dia. Os mesmos problemas, mas em outro cenário.

Percebem o looping? O trabalho precisa de mim, as pessoas precisam de mim… Eu confesso que amava ser importante, sentir-me importante. Era como se o meu valor dependesse de quanto as pessoas precisavam de mim.

Nunca lidei muito bem com o fato de ser humana e ter limitações. Lembro-me de assistir a Smallville, X-Men e ir dormir frustrada por ser apenas humana, não ter nenhum ‘diferencial’. Ter defeitos, ter limites, que frustrante! Então, constantemente passava do ponto. De sentar no sofá e chorar por estar cansada. Por deixar de dormir por ter um prazo louco para entregar. Agendar nove atendimentos em um dia e ter queda capilar por me alimentar mal. Eu era o exemplo de “cobrir um santo e descobrir o outro”.

Abraçava as imperfeições e pontos a desenvolver de todos, mas não os meus. Por saber exatamente forçar os meus limites, achava que sempre podia ir um pouco além. Sempre tinha a sensação de que poderia ter feito melhor, o que me deixava eternamente frustrada.

Sabe aquelas pessoas chatas, reclamonas, que chamamos popularmente de “cri-cri”? No coaching, descobri que os críticos existem no mundo real e também internamente. Chamados de Críticos Internos, cada um tem o seu. São nossos melhores amigos e também inimigos. Eles podem te levar ao topo, por sempre estimularem alguma vontade sua, mas também podem te fazer sentir um ‘nada’ quando não alcançamos metas malucas.

Como assim? Vou tentar explicar. Muitas vezes achamos que algo não é para nós, que não somos boas o suficiente ou que não daremos conta. Vivemos dualidades: querer muito uma vaga, ao passo que não achamos que somos boas o suficiente. Queremos virar a página e nos perdoar de algo, mas não achamos que somos merecedoras.

Esse looping nos deixa presas, como se fossem nossos anjinhos e diabinhos. E como resolver?

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01) Antes de mais nada, identificando o seu. Abaixo, alguns exemplos de críticos internos:

Perfeccionista

Te pressiona para fazer tudo de maneira perfeita. Tem uma régua lá no alto para desempenho, produtividade e comportamento. Quando não conseguimos atingir o máximo da nossa escala, ele te ataca dizendo que você “não é boa o suficiente”, o que torna o alcance das metas ainda mais difícil. Às vezes, a pressão se torna tão grande, que a pessoa prefere nem começar algo, com a certeza que não será boa o suficiente.
O perfeccionista atua com o próximo ao avaliá-los sempre apontando como poderiam melhorar, muitas vezes diminuindo ou menosprezando o potencial alheio.

Controlador Interno

Batalha com o lado impulsivo que existe em nós. E muitas vezes se envergonha por beber demais, comer demais, ataques de raiva ou outros comportamentos.

Realizador

Te leva a trabalhar arduamente para chegar ao sucesso. Te motiva quando alguém questiona seu potencial, capacidade e dificilmente fica feliz ou em paz por muito tempo. Sua satisfação está diretamente ligada às suas realizações e é constantemente movida a objetivos.

Geralmente entra em conflito com a parte que adia qualquer decisão e pode considerar questões emocionais como “obstáculo” para seu sucesso. Gosta de ser considerado bem sucedido.

Sabotador

Sabota sua autoestima de maneira que você não assume riscos muito elevados. Te faz crer que seu valor não é suficiente e que nunca realizará seus sonhos. Esse crítico te impede de ter poder e visibilidade para que você não corra risco de ser atacada ou rejeitada.

Destruidor

Ataca seu valor fundamental, diz que você é uma vergonha, questiona o valor da sua existência. Impede qualquer possibilidade de criar, ser espontânea ou seguir seus desejos.

Vítima

Ataca através de algo que você fez ou deixou de fazer. Se prejudicou alguém no passado, esse crítico faz com que isso te persiga o resto da vida. Também te bota para baixo quando você vai contra algum valor importante. Faz com que você se sinta mal e não consiga se perdoar. Traz sentimentos de solidão, abandono, melancolia.
Quando envolve o relacionamento com o próximo, constantemente pensa frases como “Ninguém me entende” ou constantemente fica emburrada/chateada.

Prestativo

Busca aceitação dos outros e faz com que você se molde de acordo com as expectativas familiares ou sociais, encaixando-se em padrões desejados pelos que a cercam. Alguns exemplos: a boa filha, a inteligente, a boa moça, a legal etc. Faz com que a aceitação e o pertencimento falem mais alto do que a busca e realização dos nossos sonhos. Quando em estágio avançado, o crítico prestativo pode te levar a problemas financeiros e emocionais por não saber o limite de até onde se deve ceder para agradar o próximo. Esse crítico faz com que você se sinta inadequada quando foge desses moldes.

02) Auto-observação e paciência

Quando identificamos o crítico, começamos a notá-lo em nosso comportamento. A auto-observação nos auxilia a identificar e prever certos comportamentos. Ser paciente é a regra número UM. O que te move há anos, dificilmente será mudado em um mês, porém pode ser enfraquecido pouco a pouco.
Tenha em mente frases como “Essa não sou eu, é apenas o meu ‘cri-cri’ e estou mudando-o”. é possível, SIM, enfraquecer os críticos, de maneira que eles sejam ativados apenas em caso de emergência extrema.

03) Definir e formatar um novo padrão

A capacidade do sistema nervoso de mudar é chamada de neuroplasticidade. Podemos criar novos padrões e linhas de pensamento, com a prática e repetição.

Eu escrevi uma espécie de comprometimento, que deixo no meu bloco de notas do celular e leio diariamente. São comprometimentos que faço comigo mesma para uma vida mais positiva, leve e que trabalhe em favor dos meus objetivos.

Quando repetimos o novo padrão fora do momento de crise, ele se torna mais “absorvível” quando estamos no auge do sabotador interno.

Trabalhar 100% a nosso favor é uma construção diária. Passamos anos nos criticando e sempre cobrando nosso melhor, com pouco estímulo e sem uma cultura de acolhimento próprio. Somos ensinadas a acolher o próximo e ter empatia, mas pouco se fala sobre o que chamo de “auto-acolhimento”. Nos compreender, ser gentis com erros que cometemos e desafios que vivemos, sendo nossas próprias amigas e motivadoras.

Quando trabalhamos a nosso favor e aceitamos quem somos, uma coisa mágica acontece. Começamos a ter orgulho de quem somos e valorizamos nossas conquistas. Ao abraçamos nossa personalidade, nos livramos da busca pela aceitação do próximo e levamos uma vida mais leve, aumentando nossa satisfação e felicidade.

Topam tentar?

*Formada em Administração de Empresas, Thais Roque passou oito anos pulando de emprego em emprego em diferentes multinacionais. Se graduou em Coaching e Gerenciamento de Negócios pela New York University (NYU), estudou Pensamento Crítico, Tomadas de Decisão de Alto Impacto, Comportamento Organizacional, entre outros temas. Fez MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV) em Gestão Estratégica e Econômica de Recursos Humanos. Hoje comanda a Mrs Coach3 e é palestrante motivacional, oferecendo suporte para quem quer reformular a carreira e organizar a vida. Mais informações em http://www.mrscoach.com.br.

Fotos: Shutterstock

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Thais Roque

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