Como o mercado financeiro me ajudou a sair do armário como feminista

Como o mercado financeiro me ajudou a sair do armário como feminista

Olá, meninas! Hoje trazemos o impressionante relato de Itali Pedroni Collini, que mostra como o mercado financeiro a incentivou a abraçar o feminismo e a importância disso. 

Muitas palavras e expressões carregam uma bagagem maior do que originalmente possuíam – principalmente no caso de alguns estereótipos. O feminismo é um desses exemplos, e hoje em dia se dizer feminista na maioria dos círculos sociais pode causar até certo asco. Com isso, até muitas mulheres evitam se identificar como feministas, mesmo quando questionam algo em relação à diferença social entre homens e mulheres.

Canso de ouvir, e eu mesma já agi assim, “não sou feminista, mas… [e completa a frase com algum questionamento que encaixa perfeitamente no feminismo]. Quer um exemplo? “Não sou feminista, mas achei esse comentário sobre mulheres terem que lavar a louça ofensivo”, ou “não sou feminista, mas vocês viram o que o Rafinha Bastos  falou sobre mulheres feias merecerem ser estupradas?”. Isto porque a palavra feminismo foi ligada à imagem de intolerância feminina, radicalização e falta de racionalidade. E quem gostaria de ter seu argumento descreditado por um estereótipo tão negativo? Nenhuma de nós.

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Minha trajetória em profissões masculinizadas começou cedo, aos 15 anos, quando fui aprovada no curso Técnico em Eletroeletrônica, no Colégio da UNICAMP. Com 10% de meninas na sala, cursei o ensino médio e técnico ambientada aos grupos masculinos. Meu primeiro emprego, um estágio técnico numa indústria automobilística, foi numa área de manutenção, com 5% de mulheres. Um ano depois, ao ser aprovada em economia na USP decidi verificar a proporção de gênero: eram 20% mulheres. Mas mesmo todas essas passagens não foram capazes de despertar o que o mercado financeiro fez: abrir a porta do meu armário feminista.

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Aos 22 anos, após demonstrar masculinidade o suficiente (graças a anos socializando com colegas homens), fui selecionada para estagiar numa mesa de operações, na qual se compram e vendem ações em Bolsa de Valores. Para quem nunca ouviu falar, esta profissão figura em 2º lugar entre as 10 profissões mais sexistas dos Estados Unidos, pela Revista Forbes (a profissão de caminhoneiro ficou em 10º lugar). Num ambiente dominado por homens há uma atmosfera mais receptiva para comportamentos explicitamente preconceituosos em relação às mulheres, e a qualquer outro grupo que não componha a norma do local, como gays e negros.

Aos poucos percebi que, apesar de o ambiente ser estressante e pesado para todos, existiam diferenças essenciais em como essas características do ambiente atingiam homens e mulheres, desde a diferença nos comentários (“o que ela fez com o corretor para conseguir esse negócio?”) até a barreira social quando se decidia que o happy hour não seria num bar, mas sim num club de strip, e que, portanto, colegas mulheres não eram bem-vindas.

Essa percepção me deixou em dúvida: seria eu a exceção ou seria um padrão da profissão? Decidi, como pesquisa de final de curso, entrevistar mulheres que trabalham ou trabalharam no mercado financeiro. Foram 14 mulheres, entre presidentes, diretoras, analistas, e 2 homens, corretores de ações. Quando experiências sexistas semelhantes passaram a aparecer com pessoas que não se conheciam, de diferentes idades, formações acadêmicas e posições no mercado de trabalho, ficou claro que era preciso falar sobre isso de uma maneira mais embasada. mercado-financeiro Continue a ler a matéria na próxima página! E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o embasamento viria de teorias feministas, ou de gênero, como são chamadas nas ciências sociais. Descobri que são muitas vertentes existentes, desde o feminismo liberal tradicional (estuda direitos como voto, equidade no mercado de trabalho), passando pelo feminismo radical (estuda reprodução como forma de submissão feminina), pelo feminismo pós estruturalista (estuda a linguagem e simbologias de gênero na formação das nossas personalidades) até o feminismo interseccional (estuda visibilidade das mulheres negras, transexuais, bi e lésbicas). E que mesmo sendo muitas vertentes, o que elas tem em comum é dar voz, empoderar e buscar melhores condições para as mulheres.

A premissa de que somos seres humanos e buscamos igualdade de direitos e de oportunidades está presente em todas as vertentes feministas, ainda que estas divirjam entre os métodos para se chegar lá. Lembrando que buscar igualdade não significa ignorar diferenças biológicas, mas sim tentar desconstruir algumas diferenças socialmente construídas, como o mito de que as mulheres são piores com matemática, para abrir caminho às mulheres que antes não teriam coragem de se aventurar em áreas masculinas.

Analogamente, existem as profissões consideradas femininas, geralmente conectadas à ideia socialmente construída de que as mulheres são melhores para cuidar, como professoras de jardim de infância, e ter vaidade, como consultoras de moda e cabeleireiras, e há homens que poderiam atuar nelas e muitas vezes não o fazem por preconceito. O questionamento sobre o que é biológico e o que é socialmente imposto tanto para mulheres quanto para homens faz parte do movimento feminista e levantar esse debate de maneira embasada e séria pode mudar a vida de muitas mulheres – como mudou a minha vida. Não é a biologia que explica minha competitividade, minha ambição ou minha agressividade, características essas que me inseriram no mercado financeiro. E por saber que não é biológico, eu passei a questionar se para exercer a profissão o pré requisito deveria incluir ser homem, como alguns empregadores já falaram (e isso aparece em minha pesquisa também).
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Existe a possibilidade de alterar a cultura do ambiente de trabalho para que mais mulheres com boas capacidades em finanças e negócios possam se sentir à vontade nesse ambiente – e acreditar que com um sistema meritocrático podem chegar ao topo? Eu acredito que sim, que existe alternativa ao que acontece hoje, quando muitas são avaliadas como uma opção somente se não tiverem filhos, se forem masculinizadas, ou se trabalharem três vezes mais que o colega para provar seu valor. E por acreditar que é possível e que a cultura é mutável é que eu me afirmo feminista.

Ao final da minha graduação, minha pesquisa acabou sendo aceita em três congressos internacionais, nos quais pude compartilhar com mulheres de várias partes do mundo as experiências das mulheres brasileiras no mercado financeiro, e pude ouvir as delas, que não eram muito diferentes! Se hoje me afirmo como feminista sem medo do julgamento alheio é porque sei que posso contribuir com a discussão, e que posso quebrar esse estereótipo negativo feito para nos distanciar de um suposto grupo de ‘mal amadas’, ‘feias’ e ‘sapatões’, grupo este que, se realmente existisse como descrevem, comporia mais um motivo para nos aproximar delas e entender pelo que passam do que nos distanciar.

Mas muitas têm medo, porque ser aprovada por homens significa ser aprovada em sociedade. Por tudo isso defendo que se você tem algum questionamento que diz respeito às diferenças sociais impostas entre homens e mulheres, mesmo que você ainda não tenha percebido que se trata de sexismo, não tenha medo de ler sobre e talvez um dia se intitular feminista.

Quanto mais mulheres se identificarem com a ideia de que temos voz, autonomia e devemos ser respeitadas como mulheres capazes, mais as pessoas poderão se livrar de um estereótipo negativo, redefinindo seus conceitos e repensando suas ideias. Só temos a ganhar com feministas fora do armário 😉

Itali Pedroni Collini é formada em Economia pela Universidade de São Paulo, criou com colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco Mundial e teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita em 3 congressos acadêmicos internacionais: AAA, EAA e IAFFEAtualmente, Itali trabalha na Landmark Capital e colabora com o podcast Mamilos.  

Fotos: Shutterstock

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