Como parei de trabalhar fora para ficar mais tempo com meu filho

Como parei de trabalhar fora para ficar mais tempo com meu filho

Este texto foi originalmente publicado no blog Antes que eles cresçam

* Por Fabiana Corrêa

Quando eu trabalhava fora, na redação de uma revista de uma grande editora, e passava rapidinho pra deixar meu filho na escola antes de começar aquelas jornadas de 10 ou 12 horas (que se estendiam pra 16 ou até 18 nos fechamentos), tinha muita inveja (é, inveja mesmo) das mães que podiam ficar na porta da escolinha por mais um tempo, olhando seus pequenos brincar, batendo um papo com a professora para saber o que estava rolando e depois passavam na hora do almoço para buscá-los.

E nas reuniões de pais contavam como é que eles chegavam da escola, todos sujos de terra, ou com uma flor na mão ou coisa assim. Talvez elas também tivessem inveja de mim, que em vez de estar de chinelinhos e um rabo de cavalo, ia de salto alto, maquiada, com uma bolsa bonita, direto pro trabalho. Ia para alguma reunião chata, sem muito sentido, que me mandavam para cobrir um chefe que estava ocupado. Também tinha inveja de quando elas contavam que na hora de dormir os filhos tinham falado isso ou aquilo, enquanto eu, de novo, estava revisando algum texto pela terceira vez ou correndo pra escolher uma foto para ilustrar tal matéria. Mas eu pensava: não tenho outra escolha, se eu não estivesse aqui, trabalhando loucamente, não poderia pagar a escola, o supermercado, a viagem de férias. E eu seguia em frente.

Sei que o trabalho realiza, sustenta e dá sentido à vida. E eu sempre tive orgulho do meu. Mas, naquela época, enquanto meu filho tinha 4 ou 5 anos, não conseguia achar que tinha algo mais importante do que passar mais tempo com ele, acompanhar o dever de casa, deixar ele me fazer de gato e sapato nas brincadeiras, almoçar junto. Precisava e queria trabalhar, mas não naquele ritmo. Mas, como a gente bem sabe, as empresas brasileiras estão se lixando para a importância de se exercer a maternidade como se deve. E meu chefe facilmente me chamava para uma reunião às seis da tarde, mesmo sabendo que meu filho ia pra cama às sete. Eu ia sem pensar muito, afinal, o sustento da casa dependia de mim e meu filho idem. E eu seguia em frente.

Até que um dia uma psicóloga me falou uma coisa radical. Pode até ter sido uma provocação de sessões de terapia, daquelas que se faz para ver a reação, para ver se cola. Mas dessa vez colou. Ela disse: seu filho não é prioridade nem na sua vida, nem na do pai dele. Ele não é prioridade pra ninguém. E criança tem que ser prioridade na vida de ao menos um adulto. Como assim, se eu trabalhava para dar o melhor pra ele? Como assim, se eu passava dias enfurnada em um prédio pra garantir o futuro dele? Enfim, desse dia em diante, não consegui mais seguir em frente.

como parei de trabalhar fora para ficar mais tempo com meu filho

Comecei, então, a pensar no que faria para ter mais tempo com o Antonio. Tentei acordos no trabalho, de entrar mais tarde pra passar a manhã livre. Mas sempre tinha um projeto importante para fechar e vira e mexe acabava indo mais cedo. Ou estava tão cansada que acordava mais tarde. Depois combinei de ter um dia por mês livre, após os fechamentos que se prolongavam pela madrugada, mas meu pequeno estava tão estressado porque tinha ficado uma semana sem me ver que esses dias eram os piores, com choros, birras e muitas emoções à flor da pele.

Fui tentando, tentando, até que me senti tão cansada que tive uma crise de stress. Parei de trabalhar por um tempo e, quando voltei, já não havia mais lugar para mim. Na empresa. Porque o tempo que eu tinha passado com meu filho durante a licença mostrou que tinha um lugar imenso a ser preenchido lá em casa. Tive outros convites de trabalho, mas já não tinha energia pra isso. Como fazer, então, para continuar o papel que a vida me obrigou – ou suplicou – para que eu desempenhasse?

Percebi que dava pra viver com menos. Menos cobranças, menos stress, menos viagens de férias caras, menos sorvetes de R$ 10 a bola. Passávamos férias no sítio de algum amigo ou na casa da vovó, o que pro meu filho é o lugar melhor do mundo. Como jornalista (e acho mesmo essa profissão maravilhosa porque te coloca em contato com muita gente), acionei meus contatos, passei a fazer frilas e dar consultorias, no início. Logo de cara, ganhava metade do meu salário anterior. Mas já não tinha necessidade daqueles presentes que a gente se dá, dizendo “eu mereço, já que trabalho tanto”. Aqueles jantares caros, aquele sapato lindo, aquele vinho bacana pra você relaxar quando chega em casa, cansado, do trabalho.

O meu “eu mereço” passou a ser, naquele primeiro momento, passear na praça com o Antonio, dormir mais cedo pra acordar na boa quando o despertador tocasse às seis da manhã, fazer um almoço gostoso em família, poder trazer um cachorrinho pra casa e deixar meu filho mais alegre. Vi que dava pra viver com pouco mais da metade do que eu ganhava antes. E nunca tínhamos vivido tão bem.

Eu já não precisava mais de babá também. E por isso pude economizar uma boa grana. Passei a fazer parte do trabalho doméstico, com a ajuda do Antonio, que eu fui educando pra não bagunçar tanto. Minha mãe vinha pra me ajudar quando eu tinha reunião ou um trabalho grande pra entregar. Renegociei o valor da pensão com meu ex-marido, já que agora seria eu a babá.

De alguma maneira, eu confiava em algo acima e mais poderoso que eu. E essa ajuda veio em diversas formas, em todos os momentos que precisei. Não me preocupava mais em juntar dinheiro para comprar algo novo, mas em viver o presente. E o futuro foi tão bem que nem eu acreditava. Minha relação com o meu filho (e todas as minhas outras relações) mudou completamente. Se ele antes já não contava comigo para colocar pra dormir à noite, agora esperava ansiosamente a historinha e a oração na cama.

Precisava de mim para a lição de casa e me esperava na porta da escola. Meu filho passou a me ver mais forte e mais inteira. Era assim que eu me sentia e, no primeiro Dia das Mães desse novo momento, meu presente foi um desenho inesquecível. Uma mulher com os cabelos cacheados (eu!) enfrentando um dragão com uma espada. Sem titubear. “Eu te amo, mamãe”. Estava escrito lá. Nunca tinha recebido nada assim. E nem preciso dizer o quanto chorei ao perceber que meu filho viu, ao jeito dele, a minha força em fazer exatamente o que minha natureza me mandava fazer.

Sem a pressão da carreira, do carro novo ou da prestação da casa, que não são ordens da minha natureza, mas da natureza esquisita da sociedade em que vivemos, onde status e poder de consumo importam mais do que cuidar de uma criança e onde as mães não podem contar com quase nada para ajudá-las nessa tarefa tão essencial em nossos dias.

 

*Fabiana Corrêa é jornalista e construiu uma carreira de 20 anos escrevendo e editando revistas. Passou por várias redações e trabalha hoje como consultora de imagem, estilo e comunicação.

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Karina Alves

Jornalista e editora de conteúdo do Finanças Femininas. Já trabalhou em jornais impressos, online, rádio e com produção. Tem fascínio pela junção entre economia e psicologia, procura explorar cada vez mais esse universo e busca usar esse aprendizado para ajudar as pessoas a levarem uma vida financeira mais saudável! Contato pelo karina@financasfemininas.com.br

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