Como percebi que era hora de fechar meu negócio

Como percebi que era hora de fechar meu negócio

Ao empreender, a última coisa que se pensa é na hora de fechar o negócio. Com o Arco foi diferente: desde o começo os sócios acordaram que era preciso saber quando parar. Mesmo assim, para a jornalista Diana Assennato, de 34 anos, não foi fácil tomar essa decisão.

O Arco foi criado por Diana e mais três sócios, em 2012. A ferramenta permitia a compra por meio do Instragam, interligando a plataforma à conta de PayPal do usuário. De cara, a startup cresceu rápido, conquistou curiosos e, já em 2013, ganhou o prêmio de Melhor Startup pela Revista INFO.

Em maio de 2015, entretanto, a empresa anunciou que as atividades estavam chegando ao fim. “Em linhas gerais, vamos fechar porque o dinheiro acabou. Como muitas startups, precisávamos de um investimento que nunca veio para escalar o negócio”, declarou Diana em seu Medium.

A história não é isolada. Segundo os dados mais recentes do Sebrae, as microempresas representam 33% do total dos negócios do País e 45% delas fecham em seus primeiros dois anos de vida. O Arco, entretanto, ultrapassou essa marca: foram quase três anos de trajetória até os sócios decidirem fechar as portas. A empresa acabou, mas os aprendizados sobre como conduzir os negócios, encarar a carreira e saber quando parar ficaram para o futuro.

A LARGADA

Como muitos negócios, o Arco nasceu de uma reunião de amigos. Diana trabalhava como produtora, quando decidiu explorar novos ares e fazer um mestrado em mídias digitais na Universidade de Londres. “Esse foi o ponto de virada. Comecei a estudar tecnologia e o futuro do e-commerce. Vi que muitas coisas que já estavam sendo feitas no mundo tinham tudo a ver com o Brasil.”

De volta ao País, em 2012, Diana já havia descoberto que sua área era a tecnologia. Depois de alguns meses de conversa com os futuros sócios, estava dada a largada para o Arco. “Pesquisamos e conversamos com muita gente. Cada um fez um pequeno aporte e juntamos o necessário para começar.”

Criar um negócio do zero já é difícil, com um produto de inovação em mãos, o desafio é duplo. As dificuldades, segundo a idealizadora, estiveram presentes desde o dia 1: faltava dinheiro, pessoas e experiência. “Desde o começo sabíamos que estávamos correndo um risco e que se fosse necessário deveríamos saber a hora de parar.”

A CORRIDA

Com a cara no mercado, encararam a curiosidade de profissionais e consumidores pelo novo produto e viram o negócio crescer com gás no início. A visibilidade foi aumentando e melhorando os negócios. A startup chamou a atenção de muita gente: entre mídia e investidores.

“Foi um crescimento muito rápido no começo e bem mais lento depois de um ano. O prêmio da INFO atraiu muita visibilidade e logo veio um investidor conversar com a gente. Sabíamos que precisávamos do dinheiro, mas fomos ambiciosos demais: pedimos um valor alto por uma porcentagem muito pequena. Erramos por achar que estávamos com o ouro na mão.”

A experiência fez Diana perceber que era preciso colocar o pé no chão novamente: se debruçou sobre os estudos da área, participou de eventos de networking, conversou e pediu orientação para muita gente. A profissional era a única sócia dedicada exclusivamente à empresa e afirma: ser mulher não tornou essa tarefa mais fácil. “Quando se trabalha com um produto de tecnologia, é ainda mais desafiador, não te dão muito crédito por ser mulher. Tento acreditar que é preciso saber usar a diferença a seu favor.”

Pouco tempo depois da primeira negociação, um novo interessado se aproximou: quando a parceria estava quase fechada, entretanto, o investidor retirou a proposta da mesa. Com a necessidade de fazer o negócio girar, outros produtos foram criados, como o Arco Stats, que fornecia estatísticas de Instagram para ajudar vendedores a otimizar o uso da plataforma, e o Arco Social, adaptação da ferramenta para ONGs. Nenhum deles, entretanto, realmente emplacou.

O FIM

O fim foi lento, como um pé que continua apertando o freio até cessar o movimento. A empresa foi aos poucos reduzindo as atividades, até realmente fechar as portas.

“Todas as reuniões traziam dificuldades, mas quando começamos a ter que parar de pagar as pessoas envolvidas vimos que não ia ter mais solução. Para mim foi difícil. Me frustrei bastante, mas não fiquei chateada, acho que são coisas diferentes. Para mim foi uma experiência de muito sucesso pessoal”, relata Diana.

Reconhecer a hora de parar é crucial para evitar o desgaste e agravamento da situação financeira. Por mais difícil que seja tomar essa decisão, para Alcidney Sentallin, professor de gestão financeira da IBE-FGV, é preciso ter em mente que bons negócios são movidos pela cabeça – e não pelo coração. “A pessoa deve ter a percepção de até quando vale a pena aumentar os investimentos e quando é o momento de fechar o negócio. Perenizar algo que está se mostrando inviável só vai aprofundar a situação de endividamento.”

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Dizer que uma empresa “quebrou” é dizer que ela se tornou insustentável: quando, mês a mês, as contas não fecham e o prejuízo não lhe permite pagar os custos e remunerar o capital é preciso ficar alerta. Alguns indicadores podem ajudar nesse diagnóstico: o acompanhamento do fluxo de caixa – que deve apresentar expansão crescente, quando saudável – a busca pelo seu produto ou serviço, a quantidade de vendas e clientes, o índice de inadimplência e o resultado obtido no período. “Esses parâmetros funcionam como uma bússola que irá orientar a navegação”, explica o professor.

Olhando para trás, Diana vê a falta de investimento, o excesso de otimismo, a falta de visão sobre a complexidade dos processos e a inexperiência como alguns pontos que influenciaram o fim do negócio. Visões parecidas são compartilhadas por outros empresários que fecharam suas empresas: 52% acreditam que o negócio teria sobrevivido se houvesse menos cobrança de encargos e impostos, 28% sentiram falta de mais clientes, 21% gostariam de ter tido acesso a crédito mais facilitado e 18% acham que precisavam ter investido mais em planejamento, segundo dados do Sebrae.

O QUE FICOU PARA DEPOIS

O Arco pode ter acabado, mas as experiências continuaram a seguir Diana. Com o fim da startup, a profissional criou a Cobalto, uma empresa de narrativas digitais para pequenas e microempresas. “Durante um bom tempo no Arco eu me dediquei a ensinar micro e pequenos empreendedores a se comunicarem com o público. A Cobalto, portanto, surgiu naturalmente.”

Após dois anos de consultoria, em 2016 passou a trabalhar em um agência de conteúdo para marcas globais. Depois de tanto tempo afastada do universo corporativo, Diana afirma que leva consigo a bagagem de empreendedora.

“Minha experiência, qualificação e pretensão salarial aumentaram. Colocar uma ideia no papel me fez perder um pouco do medo e criar coragem de assumir riscos. Também me fez rever algumas coisas, perceber que é preciso valorizar a minha saúde, pois fiquei muito estressada naquele período, e aprender que é possível viver com muito menos do que achamos que precisamos.”

EXPERIÊNCIA PESSOAL: dicas de Diana para o seu negócio seguir andando

– Planejar os passos e criar metas;
– tomar conta das finanças da sua empresa (não delegar sem entender o processo);
– não ter medo de falar o que pensa (principalmente as mulheres);
– manter sempre o diálogo entre os sócios;
– dividir o trabalho igualmente entre o sócios;
– saber que vai dar mais trabalho do que você imagina: esteja preparada!

 

Fotos: Acervo Pessoal

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Mariana Ribeiro

Jornalista com sotaque e alma do interior. Longe das finanças, passa o tempo atrás de música brasileira, rolês baratos e ônibus vazios. Acredita que o mundo seria outro se as pessoas tentassem se ver.
Fale comigo! :) mariana@financasfemininas.com.br

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