Compra compulsiva: o que ela tem a ver com depressão e ansiedade?

Compra compulsiva: o que ela tem a ver com depressão e ansiedade?

Essa matéria é a segunda parte do Especial Compras Compulsivas. Se você perdeu a primeira, clique aqui e acesse!

Ficar triste ou ansiosa e fazer compras para se sentir melhor. Sacolas cheias para aliviar o estresse, esquecer as frustrações e fazer uma terapia de compras. Você se identificou com essas atitudes? O ato de comprar está muito conectado a outras emoções em nossa sociedade, inclusive as negativas – especialmente quando queremos nos livrar delas. Se para uma pessoa sã já é comum descontar nas compras, imagine para quem sofre com algum transtorno, como depressão ou ansiedade.

De acordo com um estudo da pesquisadora Astrid Mueller, do University Hospital of Erlangen, na Alemanha, feito com 171 portadores de oniomania (nome científico para o transtorno de compras compulsivas), 90% desses pacientes também sofriam de outros transtornos psiquiátricos, ou sofreram ao longo da vida. Os mais comuns são depressão (74%) e ansiedade (54%), mas há também uma parcela que enfrenta ou enfrentou transtorno bipolar (TAB), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e Síndrome de Borderline. O termo técnico para uma situação onde um indivíduo possui dois ou mais transtornos é comorbidade.

Depressiva que compra x compradora compulsiva com depressão

É comum que pessoas com depressão, nos momentos de crise, procurem refúgio nas sacolas. Foi o caso da funcionária pública Cláudia*. Passar três anos trabalhando longe da família e em um ambiente hostil fez com que ela desenvolvesse depressão profunda e ansiedade. “Eu comprava compulsivamente roupas, calçados, cosméticos, maquiagens e bijuterias. Na minha cabeça eu merecia comprar tudo o que visse e gostasse, porque só valeria a pena trabalhar em péssimas condições se eu pudesse ter o prazer de gastar até os limites do cartão e do cheque especial acabarem”, desabafa.

Quando não tinha dinheiro para comprar produtos caros, ela supria sua necessidade em lojas de R$ 1,99 – e qualquer situação que lhe trazia tristeza era motivo para mais compras. “Um dia, eu tive muito desgosto no trabalho. Então, fui numa loja de cosméticos e comprei um monte de hidratantes, perfume e óleos corporais. O hidratante venceu, dei o perfume e só usei os óleos. Nessa brincadeira, gastei mais ou menos R$ 200 em um minuto”, conta.

Cláudia comprava compulsivamente coisas que sequer usaria depois, somente para melhorar seu estado de humor, não pela sensação de excitação que a compra causava.

Já a advogada e professora Maria Aparecida Oliveira – começamos a contar sua história na primeira parte da reportagem especial –, diagnosticada com depressão em 2002, comprava independentemente de seu estado de espírito. “Às vezes eu via a relação das compras com minha tristeza, mas isso não acontecia sempre”, analisa.

“A pessoa com depressão que compra compulsivamente não faz isso pela sensação de excitação, mas pela necessidade de aliviar seus sintomas e somente nas crises depressivas. Já na que possui depressão e oniomania, a compra compulsiva acontece independentemente da fase depressiva”, explica a psiquiatra Analice Gigliotti, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e chefe do setor de dependência química e outros transtornos do impulso da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro.

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Fonte: “Estimated prevalence of compulsive buying in Germany and its associations with sociodemographic characteristics and depressive symptoms”, de Mueller A, Mitchell JE, Crosby RD. Gefeller O, Faber RJ, Martin A, Bleich S, Glaesmer H, Exner C, de Zwaan M.

Por que isso é tão comum?

O índice de comorbidade – quando dois transtornos estão relacionados – é tão alto que até hoje alguns estudiosos defendem que a compra compulsiva é um sintoma de males como Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou Transtorno Afetivo Bipolar (TAB). Porém, em sua tese de doutorado, Tatiana Filomensky, psicóloga do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da USP, defende que a oniomania ocorre independentemente. “Se fosse um sintoma, aconteceria com todos que sofrem desses transtornos. Mas é perfeitamente possível uma pessoa ter TOC ou TAB ao mesmo tempo da compra compulsiva”, opina Tatiana.

No caso de depressão e ansiedade, que são as comorbidades mais comuns da oniomania, pode ser que a pessoa tenha tido um ou mais diagnósticos ao longo da vida, não necessariamente ao mesmo tempo em que a oniomania se manifesta. Também é comum que ela ande junto a transtornos alimentares, principalmente o comer compulsivo. “Nos últimos anos, tive cinco pacientes que fizeram cirurgia bariátrica. É como se eles substituíssem a necessidade de comer pela de comprar”, revela a especialista do IPq.

Um dos motivos é o ciclo que pode levar um transtorno ao outro, embora não se possa garantir qual vem primeiro – tampouco pode-se afirmar que ansiedade e depressão, necessariamente, geram a oniomania.

É possível, por exemplo, que, a partir de um quadro de compra compulsiva, uma pessoa desenvolva depressão ou ansiedade. “Ela começa a se preocupar se vai conseguir controlar seu impulso, então, o nível de frustração por tentar e não conseguir pode acabar gerando esses transtornos. Por isso que essas comorbidades são tão comuns”, diz Tatiana.

compras-compulsivas-oniomania

De acordo com Analice, algumas vezes, pessoas mais impulsivas, depressivas ou ansiosas têm maior vulnerabilidade a se envolverem com transtornos como vício em jogos, substâncias químicas, comida e internet. “Ao se envolverem com eles, acabam pervertendo o sistema de recompensa do cérebro. Com isso, elas acabam sentindo menos prazer na vida cotidiana e precisam de atividades que dão uma grande carga de prazer, como fazer compras.”

Também é preciso considerar fatores externos, como eventos traumáticos. No caso da relações-públicas Amanda*, foi um relacionamento abusivo que a fez desenvolver ansiedade. Tempos depois, ela passou a sofrer com episódios de compra compulsiva. “Muitas vezes compro coisas desnecessárias, que nem uso. Tem sido assim nos últimos seis anos”, relata ela, que também teve problemas de bulimia na adolescência.

“Quando você está em um relacionamento abusivo, acaba canalizando de outra forma, desviando a solução do problema para algo que, em tese, ajudaria”, explica Tatiana.

As consequências da combinação

Em seu trabalho no Ambulatório de Transtornos do Impulso do IPq-HC, Tatiana considera que os sintomas depressivos ou ansiosos possam ser indicativos da gravidade da compra compulsiva – quanto piores os sintomas, pior o quadro de oniomania. “Essa pessoa pode ter perdido tudo, estar muito endividada e ter sido privada do relacionamento familiar, pois pode estar devendo até para eles. Chamamos isso de juros morais, pois, emocionalmente, custam tanto para o paciente que sequer conseguimos mensurar”, explica.

No caso de Maria Aparecida, o termômetro foi muito preciso – quanto mais se afundava nas compras, mais fortemente a depressão se manifestava. “Você vai ficando angustiada. A dívida traz uma sensação de dor física. Se eu estou devendo, alguma coisa no meu corpo dói, seja meu estômago, cabeça, costas ou pé”, relata.

Por isso que, quando há comorbidade, o tratamento da oniomania anda de mãos dadas com os dos demais transtornos. Mas isso é um assunto para o próximo episódio da série de reportagens sobre compras compulsivas.

Último capítulo

Parte 3: apesar de todos os percalços, todas as mulheres que entrevistamos para essa série encontraram um caminho. No último capítulo, “A última dívida: elas venceram as compras compulsivas“, você conhece essas histórias de superação e as opções de tratamento disponíveis para quem precisa de ajuda.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade.

Fotos: Shutterstock

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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