Compras compulsivas: descontrole ao comprar pode ser problema de saúde

Compras compulsivas: descontrole ao comprar pode ser problema de saúde

Com seu gato, Veludo, sofrendo com uma pedra nos rins e o dinheiro já em falta, a professora e poeta mineira Ana Vilela foi ao banco para ver o que podia fazer. Bastaram alguns cliques para encontrar a solução. Na tela do caixa eletrônico aparecia chamativa a opção: peça um empréstimo agora. Não foi preciso passar a porta giratória. Não foi preciso conversar com o gerente. Naquela manhã de sábado de outubro de 2011, ela havia descoberto mais uma forma de financiar o seu consumo – que já desestruturava há tempos sua vida financeira.

Mesmo com dois empregos e um bom salário, vivia faltando dinheiro. Tudo por uma necessidade de comprar que ela não conseguia entender. Comprar aquilo que não precisava, que não podia pagar, que sequer iria usar. O número de CDs, bolsas, roupas e livros acumulados só crescia conforme aumentava o seu estresse: com o trabalho excessivo, com as dívidas somadas, com a incapacidade de parar de gastar – mesmo consciente de que era disso que precisava.

O descontrole tirava o sono, preocupava e constrangia. Foram dez anos enrolada em cartões estourados e empréstimos, lutando para não ficar no vermelho e tentando esconder as dificuldades da família, até que Ana percebeu que não se tratava de mero descontrole ou consumismo. Tampouco o problema era falta de educação financeira: ela vinha de uma família poupadora, que sabia administrar a sua renda. Em 2012, a professora descobriu as compras compulsivas, um transtorno do controle do impulso que afetava não só a sua, mas a vida de muita gente no mundo todo.

Um estudo norte-americano, liderado pelo pesquisador Lorrin Koran, estimou que cerca de 5% da população seja atingida pelo transtorno. Apesar de já bastante significativa, acredita-se que essa porcentagem possa ser muito maior, já que muitas pessoas convivem com a oniomania – como é chamado o transtorno – por décadas, sem identificá-la.

Pensando nisso, lançamos uma série que abordará as compras compulsivas em 3 capítulos. No primeiro, você vai entender o que é a oniomania e como ela é capaz de prejudicar a vida financeira, emocional, pessoal e profissional de seus portadores. Aqui você conhece a história de Ana, da auxiliar administrativa Patrícia* e da advogada e professora Maria Aparecida Oliveira – que perceberam que precisavam de ajuda e hoje lutam para vencer o transtorno.

Consumismo x compras compulsivas: o que é o transtorno

Diferente do consumista – que compra por desejar os produtos e gosta de mostrar suas aquisições – o comprador compulsivo usa o consumo com uma finalidade diferente. “A compra nesse caso é usada com um ‘remédio’ para as questões emocionais. Ela gera alívio e se torna a principal maneira de a pessoa lidar com sentimentos negativos”, explica Tatiana Filomensky, psicóloga do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da USP.

A preocupação em comprar é uma característica marcante dos compradores compulsivos. Não é simplesmente que a pessoa goste de comprar: há uma necessidade incontrolável de adquirir objetos. “O que mais excita o comprador compulsivo é o ato de comprar. Depois da compra, é comum que as sacolas nem sejam abertas”, afirma Fátima Vasconcellos, membro da diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

O desejo era tanto que Ana chegou a levar para casa sapatos menores do que o seu pé e roupas que não entravam em seu corpo. “Eu queria tanto aquilo, que eu precisava comprar, mesmo sabendo que nunca usaria depois.” Hoje, com 44 anos, ela vê que conviveu com a oniomania por mais de uma década antes de admitir que algo precisava mudar.

“O volume de compras vai aumentando gradativamente, então fica mais difícil perceber que há um problema. Você se pega comprando coisas que não precisa, escondendo as compras dos outros, se endividando… E aquilo cresce cada vez mais.”

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A necessidade de comprar caminha lado a lado à incapacidade de controlar os próprios impulsos. Mesmo saindo de casa preparada para não gastar ou comprar apenas um presente, a pessoa não consegue se segurar e acaba abandonando o planejamento ao se deparar com as vitrines.

A situação era tão comum na vida de Patrícia que, até hoje – depois de mais de um ano de tratamento – as amigas ainda perguntam se ela “não tem alguma roupinha sobrando para vender”. O acúmulo de roupas, sapatos e bolsas levava a auxiliar administrativa, hoje com 29 anos, a fazer “limpas” periódicas no armário – nas quais ela doava ou repassava os itens por um preço camarada. A receita da venda paralela ia para reforçar o pagamento das dívidas, que se acumulavam.

Desde que começou a trabalhar, aos 18 anos, Patrícia gastava mais do que podia e se enrolava com as contas. “E as pessoas comentavam: meu namorado, família, colegas de trabalho me achavam descontrolada. Às vezes eu fazia compras em três, quatro lojas e colocava tudo em uma única sacola, para ninguém ver o quanto eu havia gastado. Eu me sentia envergonhada com a situação.” Também foram quase dez anos até que ela procurasse ajuda.

O círculo vicioso das compras compulsivas

Quem sofre com as compras compulsivas desenvolve, então, um apego emocional com as novas aquisições: elas trazem segurança e a sensação de bem-estar momentâneos. O grande problema é que os sentimentos positivos duram pouco e, logo depois, são substituídos por culpa e vergonha de ter sucumbido aos impulsos. Mais uma vez.

“Teve um dia em que eu comprei uma cama bem cara para o meu gato, mesmo sabendo que ele não gosta e não usa. Andei alguns metros, cheguei na esquina da loja e percebi o quanto aquilo era desnecessário. Voltei, inventei para a vendedora que havia recebido uma ligação da minha irmã dizendo que ela tinha acabado de comprar outra cama para ele e acabei devolvendo o produto”, conta Ana.

A sensação do pós-compra é descrita pela professora como uma “ressaca”. O prazer se torna passageiro e pequeno se comparado ao sofrimento que se sucede. “No começo é legal, você se sente feliz. Mas depois se toca: por que eu comprei isso? O sentimento é parecido com uma ressaca mesmo, você pensa ‘eu nunca mais vou fazer isso de novo’. Mas faz.”

Essa situação gera um círculo vicioso: emoções negativas levam às compras descontroladas, que levam à sensação de alívio momentânea. Novos momentos de desprazer – que podem, inclusive, ser gerados pela própria culpa pelos gastos – levam a novos episódios de descontrole.

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Fonte: “O comprar comprar compulsivo e suas relações com o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno afetivo bipolar”, de Tatiana Z. Filomensky

As causas do transtorno não foram comprovadas, mas existem fatores associados a um maior risco de descontrole com as compras. Eles estão relacionados à origem do indivíduo (familiar e genética), ao seu estado subjetivo (afetividade e cognição) e ao ambiente (que envolve a sociedade e cultura). Um estudo conduzido pela pesquisadora Astrid Mueller mostrou que cerca de 90% dos portadores da oniomania são diagnosticados como portadores de outros transtornos psiquiátricos – veja mais sobre isso no segundo capítulo da série.

Mulheres e compras compulsivas

O transtorno de compras compulsivas é normalmente associado às mulheres. Estudos clínicos – aqueles feitos com pessoas em tratamento – apontam que cerca de 80% dos portadores sejam mulheres. Uma pesquisa feita anonimamente por Koran, entretanto, acabou revelando uma proporção próxima de 1:1.

Segundo Tatiana, esse resultado sugere que, talvez, a prevalência do transtorno seja proporcional entre os gêneros, mas as mulheres tenham mais facilidade em procurar ajuda.

Uma vida de dívidas

Independente de gênero, história, classe social ou nível de instrução, os compradores compulsivos têm muita dificuldade para ponderar as consequências dos seus atos – e realmente concretizar a ideia de não realizar mais uma compra desnecessária. Uma das consequências cruéis do transtorno, então, é o turbilhão sobre a vida financeira.

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Quem sente necessidade de comprar está sempre em busca de fontes extras de “renda”. Nesse contexto, o crédito cai como uma luva. Maria Aparecida pediu seu primeiro empréstimo em 1996 para uma reforma na casa e lidou com o crédito por 20 anos, sem nunca colocar as contas no papel. Hoje com diagnóstico de depressão e transtorno de compras compulsivas, a advogada e professora viu a situação sair do limite.

“Meus problemas financeiros foram se agravando muito com o tempo. Eu não esperava um empréstimo terminar e pegava mais dinheiro. Isso acabou se tornando uma bola de neve muito grande e ficou tudo muito difícil. Cheguei a não ter dinheiro para pagar a conta de luz, comprar comida… Teve mês que sobrou apenas R$ 50 para o supermercado do mês.” O total das suas dívidas ultrapassou os R$ 300 mil.

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Cartões estourados, uso do cheque especial todo o mês e negativações contínuas são pontos comuns nas histórias de quem convive com as compras compulsivas. Patricia vivia entrando e saindo do cadastro de inadimplentes. Ana, apesar de nunca ter ficado com o nome sujo, começava o mês já com o salário todo comprometido e via seus cartões serem rejeitados e cheques voltarem com frequência.

E não só o âmbito financeiro, mas a vida pessoal e profissional dos portadores costumam ser afetadas pelo transtorno, explica a psiquiatra da ABP. “A pessoa se preocupa e sofre por estar endividada. Mas, mesmo diante deste sofrimento, do consumo de tempo, da interferência significativa no funcionamento social, ocupacional e problemas financeiros, ela ainda tem impulsos incontroláveis que vão levá-la a comprar.”

Não é de hoje, mas crédito potencializa

Embora só tenha sido descrito cientificamente no século passado, há indícios de diversos compradores compulsivos ao longo história. Comportamentos descontrolados em relação às compras são identificados, por exemplo, em figuras como Maria Antonieta, Mary Todd Lincoln, esposa do ex-presidente americano Abraham Lincoln, Jacqueline Kennedy Onassis e Princesa Diana.

O fato é que diversas características da sociedade que vivemos intensificam o desenvolvimento do transtorno. “Apesar de as compras compulsivas não estarem necessariamente relacionadas ao momento atual, não podemos negar que o viés cultural tem um forte impacto”, explica Tatiana.

Hipervalorização do consumo, bombardeio de propagandas, desenvolvimento do e-commerce e crédito acessível são armadilhas fáceis para compradores compulsivos. “A influência do crédito é marcante: você consegue antecipar o prazer, ou seja, a compra, e retarda a parte difícil, o pagamento”, coloca a especialista do IPq.

TESTE: você pode ser uma compradora compulsiva?

Sendo o comportamento de compra tão difundido (e até valorizado) socialmente, muitas vezes fica difícil para o portador identificar que está com um problema – e precisa de ajuda. O teste abaixo irá ajudá-la a identificar se está sofrendo com as compras compulsivas – 5 ou mais respostas positivas são indicativas do transtorno. Para um diagnóstico e orientações precisas, é indicado o auxílio de um profissional.

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Você pode ser uma compradora compulsiva?
Resultado: %%personality%%

* nome trocado para preservar a identidade da fonte.

Capítulos seguintes

Parte 2: cerca de 90% dos compradores compulsivos têm também algum outro diagnóstico psiquiátrico. No segundo episódio da série, “Compra compulsiva: o que ela tem a ver com depressão e ansiedade?“, falamos sobre a relação entre os transtornos e contamos as histórias de quem luta por seu bem-estar: emocional e financeiro.

Parte 3: todas as pessoas que você conheceu neste texto passaram ou passam por tratamento e estão aprendendo a conviver com o transtorno. No último capítulo, “A última dívida: elas venceram as compras compulsivas“, você conhece essas histórias de superação e as opções de tratamento disponíveis para quem precisa de ajuda.

Fotos e artes: Shutterstock e Raquel Leitzke Küster

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