Crise econômica: a bagunça ainda pode piorar

Crise econômica: a bagunça ainda pode piorar

*Naiara Bertão

Olá, pessoal! I’m back!

Sabe aqueles filmes americanos em que adolescentes fazem uma bagunça tremenda na casa quando os pais viajam e os deixam sozinhos? Então, não sou mãe do Brasil (ainda bem!), mas na volta das minhas férias eu só encontrei vasos quebrados.

Logo na porta de entrada da casa vejo o primeiro: a inflação já bate 9% ao ano (maior desde 2003) e os juros sobem para 14,25% a.a. (maior desde 2006). O brasileiro sente o bolso diminuir rapidamente no primeiro semestre e para de consumir. Com menos pessoas nas lojas, o faturamento do varejo cai, a indústria produz menos e muitas empresas demitem funcionários.

No hall de entrada está outro: a taxa de desemprego medida pela Pnad Contínua do IBGE sobe para 8,1% no trimestre encerrado em maio. O Brasil fechou 111,2 mil vagas formais de emprego em junho, de acordo com o Ministério do Trabalho (Pesquisa Caged), o pior resultado para junho desde, pelo menos, 1992.

Na sala de estar não poderia ficar de fora o desempenho da própria economia. O IBC-Br, do Banco Central, uma espécie de sinalizador do PIB, já registrou queda de 2,78% nos cinco primeiros meses do ano. Apesar de a medida ser diferente do PIB oficial, os economistas já apostam em contração de 1,8% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015, como mostrou o último relatório Focus. E vale lembrar que ainda estamos na metade do ano.

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Na cozinha, o vaso que sustentava a política fiscal não só quebrou como espalhou os cacos por toda a casa. O ajuste fiscal, com corte de despesas e aumento de receitas públicas, está em frangalhos. Com o Congresso brigando internamente quase todos os dias, aprovando medidas nada econômicas para os cofres públicos, e com os escândalos da Operação Lava Jato incendiando as discussões na cena política, a chance de fecharmos o ano dentro da meta inicial de superávit primário já entrou para a lista de desejos impossíveis da presidente Dilma Roussef. Até revisaram a meta de 1,1% para 0,15% do PIB, mas se conseguirmos fechar no 0-a-0 já estaremos no lucro.

No quarto, porém, está o maior vaso da casa. Ele ainda não ruiu, mas já começou a rachar: a agência de classificação de risco Standard &Poor’s (S&P) revisou a perspectiva da nota de crédito do Brasil para negativa. Na prática isso foi um alerta para o governo arrumar logo a confusão no Congresso e melhorar seu endividamento. Se a S&P ou outras agências (Moody’s ou Fitch) rebaixarem a nota de crédito mesmo (não apenas a perspectiva) e deixarmos de ter o selo do investment grade, aí sim ele vai quebrar e vai ferir quem estiver à vista. Sem a confiança (e o dinheiro) de investidores estrangeiros, o dólar pode subir ainda mais, a dívida ficar mais cara, a inflação acelerar e nos tornarmos mais dependentes de dinheiro de investidores de curto prazo, que não estão interessados em nossa economia, mas sim em como ganhar dinheiro.

Aguardaremos as próximas cenas dos filmes e vamos esperar que pelo menos o quarto permaneça intacto.

 

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

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Naiara Beltrão

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