Dia da Consciência Negra: mulheres ainda sofrem racismo no mercado de trabalho

Dia da Consciência Negra: mulheres ainda sofrem racismo no mercado de trabalho

“A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade”. A frase é da atriz Viola Davis, dita quando se consagrou como a primeira negra a ganhar o Emmy de melhor atriz na categoria dramática pela série How To Get Away With Muder. O fato de isso ter acontecido apenas em 2015 – sendo que a premiação existe desde 1949 – já deveria acender uma luz vermelha nas nossas cabeças. O Dia da Consciência Negra existe para fomentar a reflexão, e não como um privilégio, como ainda insistem em dizer.

Um estudo divulgado na última quinta-feira (17) pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apontou que o desemprego em São Paulo cresce mais entre os negros, principalmente mulheres e jovens. As dificuldades que essa população enfrenta para galgar um posto, especialmente de liderança, só podem ser descritas com precisão por quem já viveu o racismo na pele. Por isso, o Finanças Femininas ouviu três mulheres negras que abriram suas histórias para mostrar que, sim, ainda há preconceito no mercado de trabalho e ele deve ser combatido.

Viviane: provação constante

Desde pequena, a gestora de continuidade de negócios Viviane Oliveira Elias Moreira aprendeu que o negro precisa ser cinco vezes competente que o branco para conseguir permanecer no emprego. Foi este ensinamento que fez com que ela conseguisse seu primeiro posto de trabalho aos 14 anos. “A minha entrada no mercado de trabalho foi toda estruturada para mostrar que o fato de ser negra não inviabilizaria a minha competência”, conta. Porém, ela relembra que só conseguiu a vaga graças à indicação de uma amiga que convenceu sua chefe a pelo menos deixá-la a participar da dinâmica de grupo.

Segundo sua pesquisa, ela é a única negra com os certificados necessários para trabalhar com Gestão de Continuada de Negócios e que atua diretamente na área. O caminho até chegar neste ponto, porém, foi marcado por demonstrações explícitas de racismo e machismo, tendo sua capacidade e índole constantemente questionada. O mais marcante – e que a moldou para ser a profissional que é hoje em dia – foi quando foi acusada de roubar um celular de um gerente de projeto. “Meu chefe havia escondido a acusação de mim, então, foram três meses sendo humilhada sem nem saber o motivo. Quando descobri, foi o pior dia da minha vida”, desabafa. “Até hoje isso me abala, mas me fortalece e me mostra que devo lutar não só por mim, profissional negra, mas para que as novas gerações tenham a possibilidade de crescer sem passar por esse tipo de situação.”

Viviane acredita que a diversidade é um caminho sem volta e representa uma real vantagem para as empresas que a abraçam. “Mulheres negras são a base da pirâmide de nossa sociedade e por isso desenvolvemos mais as nossas capacidades de resiliência, comprometimento e engajamento”, afirma. Sem titubear, a gestora questiona: “quantas diretoras negras conhecemos? Quantas presidentes ou CEOs negras conhecemos? São exemplos que provam que sim, a jornada corporativa para a equidade ainda é longa”, finaliza.

Josilay: empoderamento pela educação

Se o ambiente de trabalho de TI já é hostil para todas as mulheres, imagine quando soma-se o racismo. Lidar com o preconceito duplo vem sendo a missão de Josilay Santiago, gestora sênior de projetos e especialista em TI, desde seu primeiro emprego. Apesar da pobreza, estudar sempre foi prioridade em sua família – ela, quatro irmãos e uma prima, que foi criada com eles. “Foi graças a essa visão e persistência de meus pais que conseguimos romper o ciclo de pobreza que poderia prender nossa família”, conta.

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Conseguir se colocar no mercado de trabalho não foi tarefa fácil. “Fui recusada em algumas vagas apenas pelo critério de ‘boa aparência’, que negros e negras não preencheriam, na cabeça dos chefes”, confessa. Depois de um longo período de procura em jornais e agências, o primeiro emprego apenas veio após a indicação de uma amiga. Ingressar na área de TI também foi um desafio regado a horas de estudo como autodidata e em cursos. “Sempre soube que meu preparo deveria ser várias vezes maior para que eu tenha condições mínimas de igualdade para ser contratada ou promovida”, justifica.

No ambiente corporativo, Josilay assume postura fechada e defensiva para evitar piadas preconceituosas e sexistas – que, quando são feitas, não ficam sem resposta. Porém, nem todo o empenho foi suficiente para livrá-la dos diversos episódios de racismo que sofreu ao longo de sua carreira. “Ao assumir um projeto, enquanto o diretor me apresentava, um dos analistas comentou para outro que não responderia para ‘esta negrinha’ e, realmente, pediu demissão assim que conseguiu outro emprego”, exemplifica. Sem citar a constante implicância com seu cabelo crespo.

Para Josilay, a negra pode usar duas armas contra todo esse preconceito: educação e conscientização. “A solução passa pelo empoderamento de negros e negras a partir da educação e capacitação profissional, para sermos autoras de nossa própria história”, finaliza.

Celina: racismo estrutural

“Pai, nunca sofri racismo”. “É porque a gente se coloca em nosso lugar, filha”. O diálogo de Celina* com seu pai quando ainda era criança ilustra muito bem a questão do racismo estrutural – onde pode parecer que não há nada de errado, mas há toda uma construção arraigada na sociedade que limita a população negra. Ela, que hoje é economista, já trabalhou em diversos bancos e empresas e, até certo ponto de sua carreira, atuou apenas como assistente e auxiliar. “Era o que eu conhecia, então, não aspirava além. Quando se é mulher e negra, nós mesmas impomos limites e sequer tentamos”, conta.

Com mãe e avó empregadas domésticas, Celina – assim como boa parte da população pobre e negra – não tinha muitas referências. “Nós, afrodescendentes, sempre temos essa limitação por causa do que nos rodeia. É como se o nosso horizonte se estendesse apenas até certo ponto”, lamenta. Para que se tenha ideia, a economista pensou que jamais trabalharia em sua área, apesar da formação acadêmica. “Minha avó me perguntava quando eu atuaria como economista, mas eu dizia a ela que mirava as estrelas para acertar a lua. Eu só tinha que ser a melhor profissional que poderia ser para conseguir um emprego melhor, sem aspirações.”

Apesar de já ter morado fora do País, foi quando alçou cargos mais altos e passou a trabalhar com executivos que teve o maior choque de realidade em relação à sua condição racial. “Foi quando eu percebi que há uma separação muito marcada entre quem fica estagnado e quem vai além por ter tido mais oportunidades. A desigualdade se torna mais evidente quando vemos pelo corte racial”, desabafa.

Assim como acontece com milhões de negros dia após dia, toda a história de Celina foi permeada pelas consequências de quase 400 anos de escravidão – que nem mais de um século foi capaz de reverter. “Alguns negros têm histórias de racismo mais explícitas, enquanto outros não. Contudo, é importante entendermos que mesmo quando parece que não há nada de errado, a condição do afrodescendente já é determinada pela história”, conclui.

*Celina teve seu nome ocultado para preservar sua identidade.

Fotos: Shutterstock

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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