Ela passou fome para poder pagar a faculdade

Ela passou fome para poder pagar a faculdade

*Thais Siqueira

Cada pessoa tem um desejo na vida.  Alguns têm o sonho de enriquecer, outros de casar, ter filhos, casa, carro etc. O meu sempre foi estudar. Quando pequena, já havia determinado dentro do meu coração que iria fazer alguma coisa da minha vida. Minha mãe estudou até a quarta série e mesmo eu tendo saído de casa aos 13 anos de idade, nunca me esqueci de algumas de suas palavras: “você tem que estudar”.

Aos 14 anos, passei a morar com minha irmã e durante toda minha adolescência procurei oportunidades de trabalho. No entanto, naquela época não existiam programas de incentivo empresarial para os jovens trabalharem, como hoje. Em todo lugar que eu chegava, batiam a porta na minha cara. Nesse período, vendi imãs de geladeira de bonecas artesanais nos faróis de avenidas na zona sul da cidade. Às vezes, eu conseguia produzir 30 bonecas de um dia para o outro. No dia seguinte, partia para o farol e as vendia  por R$1,00 cada. Outras vezes, vendia refrigerante e água.

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Trabalhei com orgulho para conseguir me manter financeiramente e comprar algumas coisas básicas que toda jovem precisa. Mas isso não foi  suficiente para pagar os cursos profissionalizantes que eu gostaria de ter feito.

Em 2007, finalmente consegui ingressar em uma universidade particular para cursar Jornalismo, graças a uma bolsa que consegui com o apoio da Associação Educar Para Vida. O benefício garantia bons descontos na mensalidade. O único problema era que eu morava no bairro do Grajaú – localizado na zona sul de São Paulo – e a bolsa era para estudar na Vila Maria, bairro da zona norte. Eu pegava três ônibus todos os dias para chegar ao meu destino.

Para suportar os meus gastos pessoais e com materiais acadêmicos, eu trabalhava em um supermercado de domingo a domingo, das 14h às 22h30. Chegava em casa à 01h da manhã, tomava banho e comia alguma coisa. Esse momento era sagrado, pois eu só podia dormir até às 4h, momento em que eu acordava para iniciar mais um dia de estudos e trabalho.  Era preciso pegar o ônibus às 04h30 para chegar à faculdade no horário certo – as aulas começavam às 07h50. Durante o trajeto, eu costumo dizer que as colunas de ferro dos ônibus me ajudavam, pois era nelas que eu me escorava para cochilar  em pé mesmo. Era a forma que eu tinha para repor um pouco das energias, já que o ônibus era lotado e não havia lugar pra sentar.

Com muita dificuldade sobrevivia e pagava minha mensalidade com um salário mínimo, que na época era  de aproximadamente R$545,00. No final das contas, contudo, eu recebia menos do que isso – na folha de pagamento constavam diversos descontos, como vale transporte, INSS e FGTS, entre outros.


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Divulgação/Arquivo Pessoal

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Minha mensalidade era de R$250,00, valor que me permitiu estudar com mais tranquilidade no primeiro semestre. No entanto, eu tinha em mente que o valor do segundo semestre não seria o mesmo. Permaneci um ano na faculdade, fazendo esse trajeto de segunda a sexta-feira e sobrevivendo com um salário mínimo.  Contei com apoio de amigos do trabalho que faziam a famosa “vaquinha” para me ajudar com os custos do vale transporte. No ano seguinte, infelizmente, não pude continuar a estudar devido às  minhas condições financeiras.

Quando me toquei desta triste realidade, fui para a faculdade pela última vez. Lembro-me bem que  chorava muito – a ponto de os professores se comoverem e me perguntarem o que estava acontecendo – mas, infelizmente, naquele momento ninguém poderia fazer mais nada por mim.

Ao sair da sala, observei pela janela do segundo andar um grupo de estudantes da minha turma. Todos pareciam felizes e, ao invés de estarem na sala de aula, estavam simplesmente jogando truco. É isso mesmo, se divertiam no barzinho com o baralho. Observava tudo aquilo bem atenta e meu coração doía muito.  Estava aos prantos, lamentando o fato de não poder mais estudar e vendo pessoas com condições de pagar a faculdade, mas desperdiçando aquela preciosa oportunidade com um simples jogo de baralho. Aquele momento foi o fim para mim.

Eu gosto de observar as pessoas e sempre percebi que muitas delas – principalmente aquelas que têm um bom poder aquisitivo – não dão tanto valor para algumas coisas simples da vida.  Esta vivência foi um exemplo claro disso, pelo menos para mim.

Quatro anos depois e morando sozinha, estava  trabalhando como vendedora em um shopping, novamente de domingo a domingo. Porém, meu salário era um pouco melhor, de R$1.200,00 por mês. Com este valor, voltei a estudar e tinha que pagar a faculdade, aluguel, conta de água, luz, entre outras coisas. Aguentei firme durante um ano, depois, a situação foi piorando.

Com o aumento das contas, comecei a atrasar as mensalidades da faculdade e tudo virou uma grande bola de neve. Eu me vi, novamente, na mesma situação de quatro anos atrás. Revoltada com tudo aquilo, decidi que não iria parar de correr atrás do meu sonho, custasse o que custasse.

Na faculdade, comecei a viver de acordos: ficava um semestre sem pagar as mensalidades e renegociava no semestre seguinte. A situação ficou tão crítica que comecei a passar fome para pagar a faculdade. Pagava todas as contas, o aluguel e não sobrava dinheiro para mais nada. Foram momentos duros de muita luta e suor, mas que precisei enfrentar.

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Com o passar do tempo, emagreci. Muitas vezes, comia bolacha de água e sal com leite e um achocolatado. Quando faltavam  esses mantimentos, eu improvisava. Onde  morava de aluguel, tinha um pé de laranja. Por diversas vezes, quando chegava da faculdade com muita fome, eu ficava com um cabo de vassoura tentando tirar a laranja do pé. Quando eu conseguia, chupava laranjas com sal, porque na maioria das vezes elas estavam completamente azedas e sem gosto.

Por muitas noites, chorei e chorei, mas tinha a certeza no meu coração de que tudo aquilo seria passageiro. Emagreci tanto que na faculdade as pessoas chegavam a mim e me perguntavam o que eu havia feito para emagrecer, querendo a suposta “receita da dieta”. Minha resposta? Simples, sempre falava a real: “Estou passando fome”.

As pessoas olhavam pra mim e caiam na gargalhada dizendo:

– Para, sua boba. Ai, Thais, você é muito engraçada!

Eu devolvia com um sorriso no rosto. Somente dois amigos da faculdade sabiam da minha verdadeira situação e várias vezes pagavam um pastel para mim, que virava o meu jantar. Infelizmente, vivemos em uma sociedade na qual a maior parte das pessoas jamais vai realmente acreditar que alguém que esteja na faculdade passe por este tipo de situação. Eu não as culpo, pelo contrário: até as compreendo.

Porém, existem diversas pessoas que sofreram e estão sofrendo neste exato momento.  Outras que ainda vão sofrer para conquistar seus sonhos, independente de quais eles sejam.

O que me salvou? A persistência e a fé, a certeza de que Deus, de alguma forma, iria me ajudar. Quando tudo parecia completamente perdido e eu sinceramente não sabia mais para onde correr, Deus me iluminou e agiu em minha vida por meio de uma bolsa de estudos. Através do incentivo do governo para jovens sem condições de pagar a faculdade, pude dar continuidade a essa etapa tão importante na minha vida.

Depois disso, as coisas foram só melhorando. Consegui voltar a comer, ganhei alguns quilinhos até que, finalmente, deixei de trabalhar no shopping. Pedi as contas e fui trabalhar na Rede DoLadoDeCá, a convite da minha amada e eterna amiga Tatiana Ivanovici. Infelizmente, ela não está mais entre nós, mas  em seu tempo de vida  cumpriu  diversas missões.  Uma delas foi me recrutar para trabalhar, oferecendo treinamento, conhecimento profissional e de vida. Serei eternamente grata a tudo  que ela fez por mim, juntamente com Carlos Canu, atualmente diretor da Rede DoLadoDeCá e meu grande amigo.

Hoje já formada, desenvolvo um trabalho social de Edu-comunicação voltado pra jovens de comunidades, chamado “Você Repórter da Periferia”. Os participantes aprendem sobre o jornalismo comunitário e cultural, além de participarem de fóruns de debate sobre questões socioculturais relacionadas ao seu cotidiano. Hoje, me sinto realizada, estou formada e casada com Ronaldo Matos, também jornalista e que me apoia em tudo que faço.

Quando paro para pensar em tudo que passei, me vem à cabeça o que eu sempre digo a todos meus alunos do projeto: “Nunca desistam dos seus sonhos. Mesmo que ninguém acredite em vocês, os primeiros que  precisam acreditar em vocês são vocês mesmos”.

*Thais Siqueira é jornalista e ativista sociocultural. Além disso, é produtora de conteúdo no Portal DoLadoDeCá e ministra aulas de educomunicação para jovens, por meio do projeto Você Repórter da Periferia. 

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