Empresa familiar: como fazer o negócio ter sucesso e evitar brigas

Empresa familiar: como fazer o negócio ter sucesso e evitar brigas

Abrir uma empresa familiar é a solução para diversos problemas que uma empreendedora pode enfrentar no começo da jornada, como falta de capital e ajuda com mão de obra. Os valores da família se transformam na cultura da empresa e o objetivo é que todos se tornem mais unidos e empenhados em fazer o negócio dar certo.

No entanto, essas vantagens podem facilmente virar problemas. “Como o ambiente é mais informal, geralmente, as decisões são tomadas mais rapidamente, pois muitas vezes apenas uma pessoa toma as decisões dentro da empresa”, diz Ligia Molina, professora de gestão de pessoas da IBE-FGV e coach de carreira.

Outro ponto fraco é a dificuldade em separar a vida profissional da pessoal. Quando os empreendedores falham nessa tarefa, todos padecem – desde a presidência até os funcionários.

Estranha no ninho

“Aquilo era apenas uma extensão da casa deles”, desabafa M.*, que ficou três meses – apenas o período de experiência – no departamento comercial de um hotel. Ela conta que a falta de procedimentos fazia com que as decisões fossem tomadas com base naquilo que queria a gerente comercial, uma das filhas do dono do negócio.

Entre os deslizes comuns, M.* lembra das cobranças sem fundamento e da personalidade explosiva da gerente. “Diversos funcionários eram registrados pela empresa, mas trabalhavam na residência dos donos. Eles tiravam as camareiras do serviço para limpar a casa deles, então, eu acabava ouvindo as reclamações dos hóspedes, porque a manutenção dos quartos ficava a desejar”, diz. Essas e outras medidas descabidas fizeram com que ela pedisse demissão.

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Já a jornalista T. teve duas experiências igualmente desconfortáveis: uma em São Paulo e outra em Londres, no Reino Unido. “Na primeira, onde eu era auxiliar administrativa em um comércio de brindes, um mandava e o outro desmandava. Além disso, o filho mais novo não fazia nada.”

Nem mesmo a experiência internacional foi capaz de desfazer a má impressão de T. a respeito de empresas familiares. “Os donos não me pagaram integralmente, brigavam diante dos funcionários e eram descontrolados tanto emocional quanto financeiramente”, conta.

Filha do dono

A publicitária A. trabalha com seus pais em um comércio varejista de doces e, ao contrário do exemplo de M., não pode reclamar da falta de trabalho: além de cuidar da parte financeira e administrativa, ainda atua no setor de compras, atendimento a clientes e organização do estoque.

“A empresa é do meu pai, mas ele nunca conseguiu, de, fato gerenciá-la. Alguns parentes trabalharam aqui e aproveitavam não levar o serviço a sério”, confessa. As contas do comércio e da família permaneceram misturadas por 20 anos, até que a própria A. interviesse, apesar da resistência de seu pai a mudanças.

Além de separar as questões profissionais das pessoais, A. toma cuidado para não deixar que as brigas familiares desanimem os outros dois colaboradores da empresa. “Eu fico muito chateada com meu pai pelo pouco caso que ele faz diante das coisas que eu ainda quero implantar para melhorar a empresa, mas os colaboradores não podem sentir isso. Senão, criaremos um desânimo generalizado e todo mundo acabará fazendo pouco caso, a exemplo do dono”, afirma.

Driblando os desafios de ter uma empresa familiar

Os relatos de funcionárias e até de familiares mostram que gerenciar uma empresa familiar é um grande desafio. Infelizmente, ainda há uma grande resistência dos empreendedores em profissionalizarem o negócio, assim como em padronizar processos. “Porém, é essa administração profissional que possibilitará o controle e diminuirá os efeitos de ações tomadas por impulsos emocionais”, diz Maria Terezinha Peres, consultora do Sebrae-SP.

Essa resistência leva empresários a colocarem seus filhos em posições de liderança – mesmo que não haja nenhuma capacitação. “Eles precisam saber o básico de todas as áreas e estar à par de todas as situações. Devem se aperfeiçoar em cursos e treinamentos e terem mentores para auxiliarem no processo. Não dá para assumir sem saber nada”, aponta Ligia.

Muitas vezes, pode-se concluir que o filho ou filha não tem talento para o cargo que lhe colocaram. “Nestes casos, pode-se colocar outra pessoa mais preparada pode gerenciar e garantir à empresa melhores resultados, enquanto o sucessor cuida apenas da gestão do patrimônio da empresa”, ensina Flavio Ricardo Rodrigues, professor da IBE-FGV.

Para evitar que as decisões sejam tomadas de maneira impulsiva, é aconselhável ter alguém que não faça parte do escopo familiar para ajudar neste sentido. Em empresas maiores, isso se constitui em um conselho administrativo.

Pessoal e profissional

De acordo com os especialistas, uma das maneiras mais eficazes de separar as duas esferas é ter processos e normas muito claras. “Isso apenas é possível quando se entende as capacidades individuais e se distribui as atividades da empresa entre os sócios, conforme essas competências, com o objetivo de alcançar o sucesso do negócio. Os objetivos da empresa devem prevalecer aos pessoais”, observa Maria Terezinha.

Desta forma, mesmo a demissão de um familiar pode ser justificada gerando o menor desconforto possível. “Se você tem processos bem estruturados, a própria família acaba entendendo. A demissão acontece com embasamento, por causa do desempenho do indivíduo, não com base no achismo”, defende Ligia.

A mesma estratégia ajudará a não fazer da empresa um cabide de emprego. “A proprietária nunca deve contratar um familiar sob o pretexto de o ajudar, pois ela poderá prejudicar o resultado e o ambiente da empresa”, lembra Rodrigues.

Claro que a vida não será um mar de flores, afinal, todos conhecem as delícias e amarguras da convivência familiar. Tanto em casa quanto na empresa, conflitos devem ser resolvidos com uma conversa franca – porém, cada assunto em seu devido lugar.

*Os nomes foram ocultados para preservar as fontes.

Fotos: Shutterstock

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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