“Eu descobri que estudar traz felicidade”

“Eu descobri que estudar traz felicidade”

Imagine ter que integrar o conselho da empresa que o seu pai construiu com apenas 31 anos, após a morte dele. Difícil, não é? Agora adicione aí uma abertura de capital e ser vendida para a Amil, tudo isso em 15 anos. Essa é a história de Simone Schapira Wajman, 47 anos, filha de um dos fundadores da Medial Saúde, casada e mãe de dois filhos. Formada em nutrição, com pós graduação em administração hospitalar, Simone entrou no conselho de administração da Medial logo após a morte de seu pai. Após a venda de parte da Medial para a Amil em 2009, Simone foi estudar e trabalhar com a sua grande paixão, a nutrição.

Os estudos sempre acompanharam Simone, que se preparou muito para lidar cada um de seus desafios: se tornar conselheira, abrir o capital da empresa e o que ela poderia fazer após vender a Medial. “Eu descobri que estudar traz felicidade”, diz. Hoje, Simone está por trás do lançamento do site Agenda Saudável, que conta com um banco de dados com mais de 200 receitas saudáveis e práticas e cresce todos os dias. O Finanças Femininas entrevistou Simone para entender como ela equilibrou tudo isso e ainda consegue cuidar das finanças de toda a sua família. Sim, até as do marido! Confira abaixo os melhores trechos:

O início de carreira

Logo depois de formada, fui trabalhar com o meu pai. Era uma empresa importante, mas ainda não estava perto do tamanho que ela assumiu depois. Queria me realizar profissional e financeiramente e resolvi empreender: abri uma farmacia de manipulação, que foi super bem. No entanto, meu pai ficou muito doente, com um câncer na medula óssea chamado mieloma múltiplo. Ele tinha 48 anos. Quando ele faleceu, decidi junto com minha mãe e meu irmão que eu iria para o conselho da Medial.

Eu tinha uma ligação muito importante com a Medial e era o negócio mais importante da família. Não ia abrir mão da empresa que o meu pai fundou por uma coisa menor, com a qual jáestava realizada. Foi difícil e sofrido, mas foi natural.

Então fui estudar, porque não estava preparada para ser uma conselheira de uma empresa que estava em franco crescimento. Fiz vários cursos curtos, pois não tinha tempo. Isso me ajudou muito, pois pude entrar em contato com pessoas bacanas. Digo que tinha duas escolas: uma dentro da própria empresa, que eram os meus sócios, e outra que eram os meus cursos. O conselho da empresa na época também estava em formação, então isso também foi um aprendizado. Quando começamos a profissionalizar o conselho da empresa, foi outra escola.

A entrada na Bolsa de Valores

A abertura de capital da empresa foi uma super novidade, eu não sabia o que era uma abertura de capital nem o significado da sigla IPO (Initial Public Offering, a oferta pública inicial de ações de uma empresa na Bolsa de Valores), mas entendia o que representava ir para o mercado de ações. Então fui estudar mais uma vez: fui na CVM e fiz todos os cursos rápidos que eles ofereciam. Fui aprender sozinha e sempre li muito. Além disso, conversei com muitas pessoas também, senti que tinha gente muito boa que queria me ajudar, desde advogados até economistas e grande empresários que já tinham passado por este processo. Foi um aprendizado incrível e também muito rápido. Tudo foi muito natural e muito fácil. Mas existe também uma dor de crescimento.

O equilíbrio entre a vida profissional e familiar

Tive um apoio muito legal da minha família. Meu filho tinha 10 anos e a minha filha tinha 7 quando fui para o conselho da Medial. Foi muito sofrido, pois eu sempre buscava eles na escola e de repente passei a não ter mais aquela coisa de porta de escola. Mas havia outras coisas: se dava tempo, eu ia buscá-los na aula, fazia surpresa na aula de inglês. Além disso, a gente viajava muito juntos, principalmente pelo Brasil. Essas viagens nos permitiram ter uma união muito grande.

Meu marido, que é médico, também foi super legal e sempre me apoiou. Uma coisa muito importante é que nós dois sempre almoçamos em casa com as crianças. Então na hora do almoço, os quatro com certeza se encontravam. Era rápido, mas era muito intenso. Eu despachava depois cada um para o seu lugar e conseguia dar uma olhada neles no meio do dia.

Além disso, separei um momento da semana que eu não trabalhava, na sexta-feira à tarde. Era nesse dia que eu levava as crianças ao pediatra ou para fazer o que elas precisavam. Eu tive essa liberdade pois sextas eram um dia mais tranquilo, as reuniões de conselho na empresa eram sempre de quinta-feira. Até hoje, raramente marco algo profissional na sexta à tarde. É claro, marco se a agenda estiver muito apertada, mas se der, eu evito. Isso sempre foi bem respeitado.

A venda da Medial

Nós vendemos a Medial em 48 horas. Depois de dois anos da abertura de capital, chegou a crise financeira de 2008. Eu me lembro de a ação cair de R$ 31 para R$ 14 e depois para R$ 5. Quando abrimos a empresa, a ação era negociada a R$ 21. Foi uma surpresa. Logo depois da abertura de capital, várias empresas nos procuravam, principalmente as estrangeiras, para fazer uma associação ou uma compra total. Sempre recebemos todos, mas não era isso o que queríamos, apesar de a empresa não estar performando muito bem, com um Ebitda (lucro calculado antes dos impostos e juros) muito baixo e uma alta rotatividade de CEOs (diretor geral). Em 10 anos, tivemos 8 CEOs diferentes, o que traz um enorme desgaste para a empresa.

Nós chamamos o Claudio Galeazzi (administrador de empresas especializado em reestruturação de companhias, atual sócio do BTG Pactual) para fazer uma intervenção. Foi nesse momento que o Edson de Godoy Bueno (presidente da Amil) nos procurou e fez uma proposta. Ele queria uma fusão, mas nós não nos sentíamos seguros. Então ele disse a participação que ele queria ter e quanto queria pagar e era uma proposta quase que irrecusável. Isso iria acontecer em algum momento, mas era uma hora legal.

Foi uma sensação de dever cumprido, mas senti muitas saudades do meu pai e ficava pensando se era isso que ele iria fazer. O que me tranquilizou foi a lembrança de ele dizer que se viesse alguém oferecendo tantos milhões pela companhia, ele venderia. Ele estava doente e falava isso nos dois anos antes de falecer, então eu sabia que isso iria acontecer. Uma das minhas primeiras reuniões quando entrei para o conselho foi justamente receber um interessado pela empresa, e eu só pensava: “Eu acabei de entrar, como assim?”. Mas no fundo, isso já estava rolando, só demorou 15 anos para acontecer de fato.

O dia seguinte

Um ano antes da venda da Medial, tinha me inscrito em um curso em Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, em janeiro. Quando aconteceu a venda, no fim de 2009, na hora fui para Boston. Voltei depois de 70 dias e foi super legal. Tive tempo de reestruturar a minha cabeça, estava muito tranquila e não tinha nenhuma pressa. Voltei com a certeza da vontade de voltar para a nutrição. Nunca tinha tido a oportunidade de trabalhar com a minha paixão e agora tenho essa chance. Eu estava bem, já tinha me realizado duas vezes profissionalmente, mas não sabia o que fazer exatamente.

O novo projeto com nutrição

Eu sempre fiz acompanhamento nutricional com a Agenda Saudável, para não ganhar peso com aquelas reuniões de conselho que começavam às 7h da manhã e vão até 8h da noite, à base de sanduíches. Não era para emagrecer, mas para ter um equilíbrio. Em quase todas as reuniões, via a dinâmica e dava ideias para a Tânia Rodrigues, a nutricionista que me acompanhava. Ela conversou com a sócia dela, a Heloisa Guarita, e um dia ela me mandou um email, dizendo: “Simone, a Tânia sempre fala de você, chegou a hora de nos conhecermos”.

A gente se deu bem logo no primeiro momento. Passamos um ano tendo reuniões semanais para trocar ideias e figurinhas. Tinha uma certeza de que tínhamos que ir para a área de web. Resolvemos montar um site mobile e aproveitar o Agenda Saudável, um banco de dados que elas já possuíam de receitas saudáveis, colocando esse banco de receitas no ar.

Eu acredito fortemente que a minha geração vai viver até os 90, 100 anos. A gente tinha na Medial todo um cálculo para fazer o preço dos seguros, então eu sabia mesmo disso. Já que vamos viver até essa idade, precisamos viver de forma saudável. Para isso, é preciso de alimentação e esporte.

A organização financeira

Empreender é muito legal, mas em nenhum momento esqueci da área financeira, desde que cheguei de Boston. Eu sempre fui conservadora e coloquei meus recursos nas mãos de gestores em quem eu tinha extrema confiança, porque não sou do mercado e não sei operar. Então resolvi escolher os melhores gestores e as melhores casas para investir.

Esses recursos são o resultado da minha vida e são muito fáceis de perder, então sou super cuidadosa. Quando cheguei de Boston e comecei a estudar outras alternativas, tomei o cuidado de não deixar todo o dinheiro em uma única corretora. Dividi meus recursos em duas casas grandes, de extrema confiança, e em uma eu sou mais conservadora, enquanto na outra eu sou mais agressiva. Tenho que confiar muito na pessoa, não consigo ter um relacionamento financeiro com quem não confio. Vou testando, às vezes demoro um ano para achar, mas quando confio, é de cabeça.

Eu também contratei uma economista do mercado financeiro para me ajudar durante seis meses e pude aprender muito com ela em termos de organização financeira. O fato de eu poder trazer pessoas boas para perto me ensinou muito. Hoje toco isso sozinha, mas estou muito tranquila.

É muito ruim estar sozinha e ter de tomar as decisões financeiras, então me preparei para isso. Participo de todos os eventos do mercado financeiro que sou convidada. Então fui aprendendo a investir meus recursos, desde que entrei na Medial. Escolhi uma corretora para investir que era nossa cliente, então eu sabia que eles eram verdadeiros e transparentes. Além disso, sempre li muito. Não tenho preguiça de ler e aprender.

O mercado financeiro é um aprendizado o tempo todo e esse mercado de juros baixos é um novo momento. Eu era mais conservadora nas minhas aplicações, agora já não dá mais para ser tão conservadora assim. Estou focando na economia real também, ao investir em ações.

Eu vejo os recursos da família inteira. Não consigo separar, cuido do dinheiro de todo mundo, inclusive do meu marido. O gestor dos meus recursos sempre me diz que eu sou fora da curva!

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carolinaruhman

Fundadora e CEO do site, coautora do livro “Finanças femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva, 2015). É também palestrante sobre finanças para mulheres e empreendedorismo feminino e palestrou no TEDxSP

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