Financiamento coletivo: álbum de fotos para deficientes visuais

Financiamento coletivo: álbum de fotos para deficientes visuais

*Luciana Cattony

Para eternizar um momento tão especial como o nascimento de um filho, várias famílias recorrem à fotografia. E no caso de pais cegos, você já parou para pensar como funciona? O casal de deficientes visuais Jorge Fernando e Carlise Kronbauer, pais da pequena Natalia, que não é deficiente visual, nos ensina que enxergar vai muito além dos olhos.

Pensando na filha que enxerga perfeitamente, Jorge e Carlise decidiram investir em um álbum de fotos para a pequena. “Assim ela terá uma recordação dessa época”, afirma Carlise. O casal entrou em contato com Márcia Beal – uma fotógrafa de Porto Alegre especialista em ensaios de bebês – e depois de alguns emails e telefonemas, marcaram finalmente o ensaio.

O que a fotógrafa não imaginava era que se tratava de um casal cego; este fato não havia sido abordado no primeiro contato. Ao recebê-los em seu estúdio, veio a surpresa. Pai e mãe cegos tinham em seus braços a recém-nascida Natália. Uma situação completamente nova e, ao mesmo tempo, um grande desafio para Márcia: era a primeira vez que seu cliente era o bebezinho e não os seus pais; o que a sensibilizou profundamente.  “Meu Deus! Olha o tamanho da confiança que eles estão depositando em mim. Quanta responsabilidade! O casal não vai ver essa sessão”, pensou Márcia.

No início de seu trabalho, Márcia fez questão de detalhar tudo o que estava acontecendo para os pais: ela descreveu todas as peças que tinha separado para a criança, com as cores, detalhes e pediu para que a mãe tocasse e sentisse os materiais. Carlise sentiu todas as texturas: mantas, paninhos, saias e até cestinhos! Entre um clique e outro, a fotógrafa conta que respirava fundo pois era tudo muito emocionante e profundo: “Foi muito forte e cada vez que eu olhava para os pais, eu me emocionava. São seres iluminados!”, relata.

ensaio_deficientes_visuaisNatália com o ursinho/Crédito: Márcia Beal

Carlise afirma que o jeito especial da fotógrafa foi percebido de imediato. “Ao fazer a nossa foto com a Natália, ela tocou em meu rosto para ajeitar o meu cabelo tendo a preocupação de me deixar bem na foto”, recorda. A deficiente visual conta que quando participam de alguma fotografia, geralmente ninguém se preocupa em como eles sairão na foto, já que não podem ver. “Ninguém nem direciona para onde temos que olhar”, afirma.

Muito emocionada, Márcia relata que esse dia ficará para sempre em sua memória. “Lidar com os bebês é sempre muito emocionante, mas essa história em especial, foi muito forte. Após a sessão de fotos, fiquei no estúdio sozinha, estava muito tocada e percebi que tinha que fazer alguma coisa para retribuir esse encontro que, com certeza, tinha sido um presente para mim”, conclui.

Foi aí que Márcia entrou em contato com os colegas Marco Escada (artista plástico e fotógrafo) e Hayaks Winter (empreendedor e designer gráfico) para contar do ocorrido. A emoção tomou conta também dos amigos que imediatamente se mobilizaram e se desafiaram a pensar em algo para surpreender Carlise e Jorge. E assim nascia o álbum de fotos com uma essência transformadora: a empatia.

equipe_fotografia
Marco Escada (artista plástico e fotógrafo), Márcia Beal (fotógrafa especialista em gestantes e ensaios de bebê) e Hayaks Winter (designer e empreendedor)

Projetando a experiência

Foram nove meses de muito trabalho, experimentações, reuniões e muito aprendizado até o “Álbum Sensorial” ficar pronto. Marco conta que o desafio inicial era fazer com que o casal percebesse a foto pelo toque, ou seja: transformar uma imagem plana (2D) em algo possível de ser sentido pelo relevo, através das mãos. “Fizemos vários testes para o suporte: testamos papel, madeira, metal, argila, acrílico, MDF etc. A impressão 3D foi o que melhor atendeu às expectativas, além do material ser bem leve também”, afirma o artista plástico.

Leitura complementar

Planilha dos Sonhos

Planilha dos Sonhos

Ver mais

Por outro lado, a impressão 3D sozinha não apresenta todos os detalhes da cena como algumas texturas e cores. Foi aí que o designer Hayaks teve a ideia de entregar não somente a foto em relevo, mas também conceber todo um projeto (no caso, o álbum) que pudesse transmitir a experiência do ensaio da maneira mais completa possível ao casal. “Com o passar dos testes e os desafios que surgiram, incluímos na experiência pedacinhos da cena: mantinhas, o lacinho que Natália usava e outros elementos do contexto da foto para que Jorge e Carlise pudessem sentir as texturas e conseguissem reproduzir mais perfeitamente as imagens em suas mentes. Além disso, acrescentamos no álbum uma descrição em braile, cuja função foi “narrar” a fotografia em questão, incluindo cores e outras especificações que não foram percebidas na imagem em 3D e nos elementos dispostos”, complementa.

album_sensorialPágina interna do Álbum Sensorial: foto em 3D, imagem em 2D, detalhe da cena e descrição em braile

A equipe pensou em cada detalhe: “Colocamos também no álbum uma essência que reproduz o cheirinho do bebê. Foi um projeto pensado com carinho, como se fosse para gente”, comenta a fotógrafa.

Desafios

Garantir que os fornecedores entendessem e abraçassem o projeto foi um grande desafio. Explicar a ideia do álbum para a deficiente visual que foi responsável pelo braile também foi um aprendizado: “O projeto não estava pronto e tínhamos que transmitir a ideia para uma pessoa cega, sem ter nada de concreto em mãos. Foi um aprendizado incrível que contou com inúmeras idas e vindas”, relata Hayaks. Ao final, todos concordaram que o resultado foi surpreendente.

Além de privilegiar a estética das páginas para conferir um padrão na experiência de sentir o álbum pelo casal, o grupo enfatizou sobretudo a função dele: o acabamento das caixas utilizou parafusos e um material bastante resistente, tudo isso para garantir maior durabilidade e facilitar o manuseio. “A preocupação com um formato que pudesse ser facilmente transportado também foi nossa meta”, relata Marco.
album_sensorial_2Detalhe do acabamento do álbum: material resistente e parafusos para facilitar a conservação e manuseio.

Testando o protótipo

Para garantir que o objetivo do projeto fosse alcançado, a equipe levou o protótipo para ser testado por um deficiente visual, que imediatamente aprovou a solução. A preocupação em testar o protótipo representa respeito, zelo e muito profissionalismo por parte da equipe. Afinal, de nada valeria todo esforço se não houvesse identificação por parte do público alvo, não é mesmo?

album_sensorial_3Página interna do álbum: os pais com a pequena Natália. Família linda e feliz posando para a foto 2D e 3D

Resultado

A entrega do projeto foi um momento mágico para todos os envolvidos. Jorge e Carlise contam que foram surpreendidos e que, pela primeira vez, conseguiram visualizar uma foto sem a narração de ninguém. “A sensação foi maravilhosa; a escrita em braile foi um diferencial que complementou e garantiu o entendimento de todo o contexto. Achei genial a maneira com que a equipe se mobilizou e se desafiou para deixar as coisas mais acessíveis. Eles se movimentaram e movimentaram muita gente. Quanta sensibilidade!”, comenta Carlise.

album_sensorial_4

“Foi um momento de muitas lágrimas e alegria”, comemora o time. Reunir pessoas com expertises diferentes para fazer o outro se sentir especial é admirável. Um aprendizado de que a empatia é um poderoso convite que nos desafia diariamente e nos faz realizar coisas incríveis.

album_sensorial_5

Quando questionada sobre o futuro que espera para sua filha, Carlise, que também tem um blog para contar o dia a dia da família,  é categórica: “desejo que ela não sofra certas exclusões e preconceitos que os filhos de pais cegos atualmente sofrem, não quero que ela seja desmerecida por ter pais cegos”.

Ações como o “Álbum Sensorial” demostram que estamos no começo dessa nova era desejada por Carlise e tantos outros. Agradecemos Márcia, Carlise, Jorge, Natália, Marco e Hayaks por contarem sua história – e também a a você leitora, que investiu seu precioso tempo contagiada pela empatia e amor deste projeto. Tudo isso comprova que o mundo melhor está bem aí: debaixo de nossos olhos, ou melhor, visível aos nossos corações.

Ajude a fazer com que o “Álbum Sensorial” alcance mais gente: bebês deficientes visuais, jovens ou adultos que gostariam de visualizar a sua foto por essa experiência de amor. O time acaba de lançar o projeto numa plataforma de financiamento coletivo. A doação de qualquer quantia é válida! A empatia transforma: clique aqui para ajudar.

Saiba mais sobre o Álbum Sensorial e todos os envolvidos:

– Página Oficial do Album Sensorial – Facebook
– Álbum Sensorial para todos – Plataforma de Financiamento Coletivo

Equipe de Projeto:

– Márcia Beal
– Marco Escada
– Hayaks Winter

Carlise, Jorge e Natália:

– Blog da Carlise: Mãe DV (Deficiente Visual)

Empresas apoiadoras:

– Impressão 3D do Projeto: 3DPRI
– Produtora de Vídeo: Brun Video Produtora
– Produção: Atelie Michelle Bandeira

*Luciana Cattony é publicitária e fundadora do site Real Maternidade.  Luciana tem como objetivo facilitar a vida das mães e levar leveza e alegria para a rotina delas. Siga o Real Maternidade no Facebook e Instagram.

Gostou do nosso conteúdo? Clique aqui e assine a nossa newsletter! 

 

Este conteúdo foi útil para você?

Luciana Cattony

Luciana Cattony

Real Maternidade

close