Mãe solteira, não! Mães solo contam como superam dificuldades

Mãe solteira, não! Mães solo contam como superam dificuldades

Apesar de muitas pessoas ainda usarem o termo “mãe solteira” para falar sobre mulheres que criam seus filhos sozinhas, ele não traduz a complexidade do que é ser uma mãe solo ou mãe autônoma – estes, sim, termos mais adequados. A antiga expressão é considerada pejorativa porque carrega uma série de estigmas e preconceitos que essas mulheres sofrem por terem filhos fora de um relacionamento considerado ideal pela sociedade.

“Ser mãe não implica seu estado civil. A expressão traz um preconceito muito grande com mães que não têm qualquer relação com o pai de seus filhos, ou com mães que se separaram, ou mães que optaram serem mães sem necessariamente ter qualquer relação”, resume Luciana Macedo Ribeiro, doula, atriz, consultora de organização e mãe solo.

Ser mãe solo é trabalhar em dobro

A quantidade de ocupações que Luciana desempenha revela a realidade de quem precisa se virar para sustentar os dois filhos, Sarah e Pietro, de 5 e 3 anos, respectivamente. Depois de seis anos de casamento, há um ano a doula decidiu se separar e viveu o baque de criar sozinha duas crianças, suprindo desde suas necessidades afetivas até as financeiras.

“Percebi que, apesar de ser extremamente cansativo, eu daria conta. Mas quando as coisas realmente se concretizam, dá medo de não ter mais ninguém para passar a bola, de chegar a um nível insano de exaustão, de acontecer algo comigo e eles ficarem sozinhos, sem poder pedir ajuda. Dá medo da solidão dobrada, porque, convenhamos ser mãe por si só já é muito solitário”, desabafa.

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Luciana e os pequenos Sarah e Pietro

Luciana ainda está tentando se recolocar no mercado de trabalho – depois de anos trabalhando pouco para cuidar dos pequenos – e sente de perto a pressão de não poder deixar nada faltar em casa. Dar conta da criação e do sustento é um jogo de malabarismo para diversas mães solo, e com ela não seria diferente.

“Já fui algumas vezes trabalhar com um dos dois, já tive que cancelar clientes, já liguei de madrugada para amiga vir ficar com eles para eu ir atender um parto, ou para alguém ir buscá-los na escola porque eu não chegaria a tempo”, relata.

Sua rotina é tão apertada que, muitas vezes, precisa escrever na própria agenda: “tempo para mim” – só assim consegue se dedicar às suas necessidades. “E, muitas vezes, nesse tempo, eu ainda me sinto culpada por estar ociosa”, confessa. O ex-marido vê os filhos a cada 15 dias.

“Cadê o pai dela?”

O julgamento da sociedade é uma das maiores barreiras que uma mãe solo pode enfrentar. Não foi diferente com a publicitária Amanda Martins Dias, de 27 anos, mãe da pequena Ísis, de 2 anos [na foto de abertura]. Ela descobriu a gestação quando já não estava mais com o pai da menina, que não ofereceu nenhum apoio.

De cara, Amanda teve medo de como sua família encararia a notícia. No entanto, foi de fora que veio o juízo mais amargo. “Perguntas como ‘cadê o pai dela?’ ou ‘tão nova e já é mãe solteira?!’ são comuns e as pessoas não imaginam o quanto isso se torna incômodo”, conta.

Para a publicitária, dói ver como, em boa parte das vezes, o julgamento parte de outras mulheres. “Só nós sabemos as dificuldades de desempenhar dois papéis cruciais para o desenvolvimento da personalidade da criança e a última coisa que quero como mãe é que minha filha se sinta rejeitada ou pense que falta algo na vida dela. Por isso, quando me perguntam ‘cadê o pai dela?’ a resposta é: ‘sou eu’”, rebate.

Infelizmente, enquanto houver preconceito na sociedade, também haverá julgamento. “Por isso, não posso parar o juízo do outro, mas posso decidir o que fazer com ele. Só nós sabemos o que passamos. Então, temos que olhar para nós mesmas e para nossas crianças, tomar as melhores decisões naquele momento, com os recursos e capacidade que temos, e tentar ficar em paz. Você não sabe se vai dar certo, mas sabe que foi feito com amor, então, fique firme nas decisões”, aconselha Claudia Stella, professora de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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Geovana e a pequena Eduarda

Rede de apoio

Elas são especialmente importante para mães solo de baixa renda, que sofrem com a falta de amparo do Estado – principalmente na questão da falta de vagas em creches públicas, que ainda oferecem horário de funcionamento restrito. Assim, essa mulher é praticamente impossibilitada de arrumar emprego se não contar com o apoio da família e amigos.

“Historicamente, a sociedade brasileira é muito ancorada na família. Contar com os pais, madrinhas, tias e outras pessoas pode ajudar a aliviar um pouco a carga”, diz Claudia.

E não estamos falando apenas de famílias consanguíneas. Claudia conta que Sylvia Leser de Mello, professora da Universidade de São Paulo (USP), criou o conceito de aglomerados familiares, que nada mais são do que famílias montadas por afinidades ou necessidades, especialmente comuns em comunidades menos favorecidas. “Por exemplo, se fôssemos vizinhas, poderíamos nos unir e cada dia uma cuida do filho da outra”, explica.

É essa rede que tem mantido a estudante de pedagogia Geovana Conceição de Paiva, de 24 anos, mãe da Eduarda, de 2 anos. “Quando preciso ir para a aula, por exemplo, ou resolver algo que não dê para levá-la, acabo precisando da ajuda de terceiros”, conta.

Este apoio também tem sido fundamental para Luciana, que também vem encontrado um ombro amigo em outras mães solo. “Eu não teria chegado onde estou e nem onde posso chegar a lugar algum sem minha família e amigas. Tudo se torna possível. A gente sai do estado de sobrevivência para ter vivências”, diz.

Assim, as mães autônomas podem aliviar um dos maiores desafios da condição: o acúmulo de papéis. “Ela é a provedora do lar, não tem com quem dividir algumas atividades. É mãe, pai, tia, avó, tudo junto. Por isso, ter pessoas queridas por perto é fundamental para aliviar a sobrecarga”, analisa Claudia.

Padecer no paraíso

Se essa frase é repetida aos quatro ventos pelas mães em geral, ela se torna ainda mais verdadeira quando se é mãe solo. “No começo me sentia sem chão, achei que não daria conta. Mas, em seguida, tirei forças de cada sorriso banguelo que minha filha dava”, brinca Geovana.

Desempenhar tantos papéis exige muita força e amor – aos filhos e também amor próprio. “A força e a coragem vêm de dentro. Ame aquela que aparece no espelho com o cabelo todo para o alto de manhã e a torne capaz de trabalhar por si própria. A culpa não é sua se o genitor dos seus filhos é um babaca. Amor tem que vir de si para transbordar para o outro – a maior motivação já saiu do seu ventre”, finaliza Amanda.

Fotos: Acervo Pessoal

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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