“Meu blog de moda me ensinou a controlar o consumo compulsivo”

“Meu blog de moda me ensinou a controlar o consumo compulsivo”

Publicitária, escritora e colunista. A carreira de Cris Guerra é tão diversificada quantos os altos e baixos que já teve na vida. Pioneira no mundo dos blogs de looks do dia com o Hoje vou assim, ela veio do mercado de publicidade e trouxe uma leitura da moda como algo muito além do convencional. Para ela, mais do que vestir e divulgar uma roupa trendy, a moda foi a janela encontrada por ela para comunicar-se melhor com as pessoas e superar diversas etapas complicadas da vida.

Em conversa com o Finanças Femininas, ela contou um pouco mais sobre a trajetória profissional, a transição da vida como assalariada para autônoma, o desafio de colocar o consumo compulsivo sob controle e como a moda e a internet a ajudaram a superar momentos críticos na vida, como a morte do marido no período em que estava grávida.

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FF: Conta para a gente como aconteceu a sua transição da publicidade para os blogs. 

Cris: Na verdade, trabalhei 20 anos com publicidade, trabalhava em agência, na parte de criação. Criei o blog Para Francisco e o Hoje vou assim, os dois ficaram famosos, mas continuei conciliando o trabalho de internet com a rotina da agência. Fiquei três anos conduzindo as duas coisas, mas em 2010 resolvi sair da agência, ficou complicado seguir fazendo as duas coisas porque a internet falou mais alto. Tive medo de tomar essa decisão porque aprendi a vida inteira com o meu pai que era preciso ter um salário. Na época, meu filho tinha três anos. O meu marido, pai dele, morreu quando eu ainda estava grávida, eu também já não tinha meu pai e minha mãe, não tinha dinheiro guardado, sempre tive dificuldade para guardar dinheiro. Mas eu precisava aproveitar aquele momento, então tomei a decisão de sair da agência em maio de 2010. Eu imaginava que todo mundo fosse me chamar de louca, mas isso não aconteceu. Minha chefe já previa, as pessoas já esperavam essa mudança. Aos olhos dela, talvez eu até estivesse demorando a tomar essa decisão.

FF: E como as coisas aconteceram a partir daí? 

Cris: No começo foi difícil encontrar os parceiros certos. Comecei junto com uma amiga, mas não deu certo. Depois trouxe para perto de mim uma pessoa para a parte comercial, mas ela era muito nova e também não deu certo. Mas os blogs tinham um caminho natural e as coisas foram acontecendo. Tive uma sociedade com um amigo por dois anos, mas também não deu certo. Abrimos uma loja virtual, mas ai as coisas foram diversificando demais e eu fiquei com medo. A partir daí para uma agência de talentos em São Paulo. Estava indo bem e tinha uma pessoa que cuidava muito bem da minha imagem, mas ela resolveu sair de lá. Conversamos e falei que queria continuar com o trabalho dela, trabalhamos juntas até hoje. Trouxe também mais uma pessoa para cuidar das minhas palestras. Atualmente, as palestras são uma boa parte do meu negócio. O blog tornou-se uma vitrine, mas não é o principal ofício. Ainda em 2010 fui chamada para fazer uma coluna na Band News, fiquei por lá por um tempo, passei pela rádio Oi e depois retornei para a Band News, mas também disponibilizo conteúdo para outras rádios. Agora estou lançando um programa no youtube, mas é uma aposta pessoal, sem patrocinador. Resolvi apostar nisso porque a audiência está migrando para lá.

FF: Em meio a tanta concorrência existente atualmente, o que você acredita que uma blogueira precisa ter para fazer sucesso?  

Cris: É difícil dizer porque isso é muito subjetivo…as blogueiras que fazem mais sucesso, são as que menos me identifico. Como fui pioneira, abri uma frente nova, mas acho que não tenho o mesmo público. O público do meu blog abrange gente dos 18 aos 60 anos. As blogueiras mais novas fazem muito sucesso e ganham um absurdo de dinheiro, mas é um trabalho muito diferente do meu. Tem quem faça uma moda mais glamourosa, retratando um mundo quase paradisíaco, há público para isso.  Não dá para dizer o que funciona e o que não funciona, porque cada uma vai ter um público, uma identificação. Eu digo o que eu acredito, quanto mais a gente investe em conteúdo de qualidade, mais sucesso e longevidade terá a carreira. Eu acredito em um trabalho focado na verdade, com conteúdo autoral e relevante. Cuidar bem do que você apresenta visualmente também é importante. Se você fala de moda, mas tem um blog que é esteticamente desagradável, você não passa credibilidade. Mas isso é muito subjetivo. O que os blogs trouxeram de mais novo foi essa verdade, a moda usada por pessoas reais, com produtos experimentados por pessoas reais, com pessoas comunicando com pessoas.

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FF: Como foi deixar de ser assalariada para ser autônoma?

Cris: Meu pai dizia a vida toda que a gente tem que ter salário. Na época que eu resolvi ser autônoma, eu escutei uma história muito interessante: um sábio se sentiu mal em uma estrada e foi uma acolhido por uma família humilde que vivia por ali. Na casa deles, a renda vinha totalmente de uma vaca, através do leite e do queijo dela. Quando o sábio sarou e resolveu ir embora, ele sentiu que precisava fazer algo em gratidão pelo acolhimento que teve daquela família. Então decidiu jogar a vaca de um penhasco. Tempos depois, quando retornou à estrada, a casinha já não existia mais e deu lugar a uma mansão. A família agradeceu ao sábio porque, depois que a vaca morreu, eles precisaram se esforçar para buscar outras oportunidades. Eu sentia que o salário era a vaca. A gente tem aquilo ali garantido, mas aquilo pode ser pouco. Eu tinha muita criatividade, mas não queria usá-la só para o meu cliente, eu queria fazer para mim mesma. É como se o salário fosse uma rolha para sua capacidade de criação, quando você tira essa rolha, percebe que tem muito mais para expandir.

FF: E como você aprendeu a administrar sua vida financeira com essas mudanças? 

Cris: Ainda não aprendi, lido muito mal com dinheiro e tenho vontade de entender melhor. A gente vai aprendendo com a vivência, você sabe que precisa guardar para os meses mais fracos, enfim, eu aprendi com o tempo o respeito que é preciso ter com o dinheiro. Ele não pode ser a base de tudo, mas também não pode ser desprezado. Já fui consumidora compulsiva e consegui colocar isso sob controle. O consumo compulsivo é como o alcoolismo, não cura, mas você tem que aprender a lidar. Ainda mais que é algo socialmente aceito e tem um shopping a cada esquina, você tem que se manter completamente vigilante. Meu blog de moda me ajudou muito a manter o consumo compulsivo sob controle. Passei a querer usar a mesma roupa de jeitos diferentes do que comprar roupas novas. Hoje em dia compro pouco e passei a valorizar mais o dinheiro, penso duas vezes antes de gastar porque preciso dele.

Não tenho cartão de crédito e nem cheque, foi uma decisão radical porque o mundo não é para a pessoa que faz isso. Eu passo aperto para fazer reserva em hotel, para usar aplicativo. O mundo não é de quem tem dinheiro, é de quem tem crédito. Só que o meu cartão de crédito tem limite, mas eu não. O consumo compulsivo tem que ser falado mais amplamente, principalmente por quem fala de moda. O legal da moda é você ter uma relação saudável com ela. Eu já tive uma relação doentia, mas aprendi muito com isso. E o blog foi um instrumento para isso. A moda é sempre caracterizada como frívola, mas eu acho que a roupa tem uma influência muito grande na vidas pessoas. A mídia, em geral, trata de tendências, guarde isso, largue aquilo, mas a moda é muito mais do que isso. Todo dia de manhã você se veste para trabalhar, para fazer suas coisas. Isso fala muito sobre o que você é, se vestir de manhã é um ritual, é um momento para comemorar a vida.

Eu lidei com a morte do meu marido e ao mesmo tempo com a chegada do meu filho, duas emoções completamente opostas. A moda foi importante para me ajudar a criar, para que eu pudesse manter a positividade. Ainda antes disso, quando ainda era criança, eu me achava feia e as roupas me ajudaram a me construir, a construir minha auto estima. Moda não é questão de incentivar consumo e eu tinha este retorno com o próprio blog. As leitoras me contavam que os maridos estavam olhando para elas de um jeito diferente, que elas se sentiam mais bonitas. A partir daí comecei a entender que meu assunto é muito mais autoestima do que moda em si.

 

Crédito da foto: Arquivo Hoje Vou Assim

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