O Brasil perder nota de crédito pode ser mais assustador do que você imagina

O Brasil perder nota de crédito pode ser mais assustador do que você imagina

*Naiara Bertão

Bom dia, pessoal!

Vocês gostam de filmes de animação? Recentemente eu assisti o segundo do Monstros S/A, que os ‘adolescentes’ vão à universidade e querem se destacar como os mais assustadores monstros do mundo. O objetivo final é serem contratados para assustar criancinhas e gerar muito medo. Medo é uma palavra que o governo brasileiro, se não tem, deveria. Nesta semana uma matéria do jornal Valor Econômico mostrou que a agência de classificação de risco Moody’s pode rebaixar a nota de crédito do Brasil logo, logo. A Moody’s é como um monstrinho pequeno, que parece inofensivo, mas quando abre a boca faz um estrago no sono gostoso das crianças, no caso da equipe de Economia do governo Dilma Rousseff.

Como eu já expliquei em um dos posts, essas agências nada mais fazem do que avaliar como está a saúde financeira das empresas e governos e emitir uma nota de risco de calote, chamada de rating. Lá em setembro de 2009 a Moody’s havia concedido ao Brasil a nota máxima de confiança: o grau de investimento ou investment grade. Esse selo mostrava aos investidores do mundo todo que o país era um lugar bom para se investir, sem riscos muito preocupantes de quebrar. A euforia levou um tropeção com a crise financeira nos Estados Unidos, mas nada que a fez cair. Só em 2013 o quadro mudou e o Brasil teve seu primeiro arranhão: a própria Moody’s rebaixar a perspectiva do grau de investimento de “positivo” para “estável”. Um ano depois, ela passou para “negativa”.

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Pode não ter mudado a nota toda, ou tirado esse selo de qualidade do país, mas mostrou ao mundo que algo tinha mudado. As demais agências seguiram mais ou menos pelo mesmo caminho: deram o selo e depois desconfiaram quando as contas públicas começaram a se deteriorar muito. Mesmo em 2008, quando a Standard&Poor’s, outra agência de classificação de risco grande, deu o primeiro grau de investimento ao Brasil, ela já alertou que a dívida pública era muito alta.

A situação piorou nos últimos dois anos de governo Dilma, o país deixou de economizar dinheiro para pagar os juros da dívida (superávit primário) e o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, assumiu um dos maiores problemas econômicos dos últimos anos: fazer um tratamento de choque para arrumar pelo menos parte da bagunça que havia sido feita por anos, em que se gastou acima do que se podia, incharam a máquina pública, concederam muitos benefícios sociais custosos, injetaram dinheiro em bancos públicos sem se preocupar com o retorno do investimento (o rendimento daquele dinheiro) e ainda estimularam todos a gastarem – afinal, o mercado de trabalho estava bombando. Resultado: hoje o país não tem dinheiro para nada e a inflação já passou de 8,4% em 12 meses (resultado da elevação exagerada do crédito disponível e do descontrole do consumo).

Na semana passada, a presidente teve de se colocar no papel de monstro (figurativamente, tá, gente?) e dar um susto em muita gente, especialmente de seu partido. Ela sancionou a Medida Provisória 665 que diminui o acesso a direitos trabalhistas, uma canetada pesada e que mancha, de certa forma, a história de um Partido dos Trabalhadores e de sua campanha eleitoral no ano passado. Vale comentar que agora, o trabalhador que for demitido sem justa causa tem de ter trabalhado pelo menos um ano na empresa para ter direito ao seguro. O governo queria que fosse um ano e meio. Só isso vai gerar uma economia de R$ 6,4 bilhões em 2015.

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Mesmo assim, o governo está bem longe da meta do superávit primário (R$ 66 bilhões ou 1,2% do PIB em 2015). Até abril, o superávit primário acumulado do setor público foi de R$ 32,4 bilhões. E o pior: encontrar onde é possível cortar mais os gastos está sendo bem difícil. Em maio foi apresentado um plano de corte de R$ 70 bilhões apenas do Orçamento. Achar meios de aumentar a arrecadação em um ano de crise é ainda mais desafiador. Qualquer aumento de imposto vai jogar ainda mais a inflação para cima.

A meta de superávit até está sendo colocada em xeque e é bem possível que seja reduzida. Mas, o problema, na minha opinião, não será apenas de convencer o Congresso sobre a nova meta, mas sim, as agências de classificação de risco de que há solução rápida para isso. O nível de susto que a ‘monstrinha’ Moody’s irá provocar daqui a pouco dependerá muito da lábia dos brasileiros. Vamos ver se o xaveco vai dar certo.

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

Crédito das fotos: Shutterstock

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