Mulheres no mercado de trabalho: a importância do apoio mútuo e sororidade

Mulheres no mercado de trabalho: a importância do apoio mútuo e sororidade

Desde pequenas, somos ensinadas a competir umas com as outras – e, infelizmente, essa realidade se estendeu às mulheres no mercado de trabalho. A situação piora se lembrarmos que somos desfavorecidas em diversos âmbitos. O desemprego, por exemplo, atinge mais as mulheres do que os homens: enquanto a taxa para eles é de 10,7%, 13,8% das brasileiras sofrem com a falta de emprego, de acordo com os dados mais recentes do IBGE. Também precisamos falar sobre a diferença de salários entre os gêneros. O relatório do último Fórum Econômico Mundial cita que, no quesito de paridade salarial, o Brasil amarga a 129ª posição entre os 144 países pesquisados.

Os dados impressionam e servem para reforçar a ideia de que se nós não nos ajudarmos, não conseguiremos ultrapassar tantas barreiras de gênero impostas no mercado de trabalho. Muitas mulheres já perceberam isso e vêm se movimentando para, mesmo que aos poucos, mudar essa realidade.

Neste sentido, já surgiram diversos grupos e páginas no Facebook com o objetivo de que mulheres indiquem umas às outras a postos de trabalho e prestação de serviços. Entre os exemplos estão o Compro de Quem Faz das Minas (voltado especialmente para trabalhos artesanais), Feministrampos e o Das Minas – estes dois últimos com vagas e pedidos de indicação para serviços pontuais.

Outro exemplo é a página Garotas no Poder, que surgiu da necessidade de Camila Mazzini, 33 anos, em contratar uma encanadora mulher. “Pensei em fazer uma rede para encontrar mão de obra feminina em profissões ditas masculinas”, relata ela, que é jornalista e produtora. Ela só não esperava que sua ideia fosse crescer tanto – o suficiente para mudar sua própria relação com o trabalho. “Estamos no mesmo barco e precisamos nos ajudar para subir. Juntas, somos mais fortes”, enfatiza.

Infelizmente, o pensamento da criadora da página já provocou acusações de que este tipo de movimento está tentando excluir a presença masculina, em uma espécie de “sexismo invertido”. “As pessoas precisam entender que grupos como o ‘Garotas no Poder’ buscam igualar a presença de mulheres no mercado de trabalho, não tirar os homens. Tem gente que acredita que feminismo é ruim porque acha que exclui mas, na verdade, nós apenas buscamos inclusão de todos e mais liberdade”, esclarece.

Rede invisível de mulheres

Pare um pouco e reflita. É provável que você mesma tenha sido ajudada por muitas mulheres para chegar onde está hoje – e que você também já tenha ajudado e servido de inspiração para muitas outras, mesmo que apenas dando conselhos.

“Minha vida profissional é pautada pela ajuda de mulheres incríveis. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que, se não fosse por elas, eu não teria alcançado diversos objetivos”, afirma a jornalista Marina Moreli, 27 anos. Ela contou com a paciência de uma profissional mais experiente não apenas para lhe ensinar a profissão, mas também para lhe levar ao seu sonho de trabalhar com moda.

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Essa verdadeira madrinha convidou Marina para trabalhar em diversos lugares, apesar da falta de experiência, confiando apenas em sua vontade de aprender. “Um mês depois de trabalharmos juntas em uma revista, ela foi contratada pela Vogue. Ela disse que logo menos conseguiria me levar para lá também. E foi o que aconteceu. Mais uma vez, a sororidade nos uniu”, relembra.

Foi na revista de moda que a jornalista percebeu como é importante dar as mãos para outras mulheres. Foi lá que, apenas cinco dias após a morte de seu pai, Marina cobriu a São Paulo Fashion Week e recebeu o conforto das colegas. “Foram essas mulheres que me deram a coragem de continuar a cobertura”, diz.

Para a jornalista, o caminho sem a solidariedade feminina é doloroso e difícil. “Acredito que a maior ajuda que podemos dar umas às outras é não nos olharmos como concorrentes, e sim como parceiras, sempre ali para o que der e vier”, defende.

Já a publicitária Carla Purcino, 39 anos, aprendeu com sua mãe a estender a mão e a combater a desigualdade de gêneros. “Após me reconhecer como feminista – e começar a entender mais sobre disparidades salariais e dificuldade de ascensão corporativa –, passei a privilegiar mulheres em contratações e indicações”, revela.

Carla teve a sorte de ser liderada por mulheres fortes, que lhe deram a mão e instruíram para que ela as superasse. O resultado? Mais do que apoio profissional, ela ganhou amizades verdadeiras. Hoje, ela tenta repassar isso para o maior número de profissionais femininas. “A caixa de mensagens do Facebook é testemunha de como há uma rede invisível, porém muito poderosa, de mulheres que apoiam mulheres onde quer que elas estejam”, afirma.

#ApoiaAsMinas

Sim, você também pode (e deve!) fazer parte deste movimento – e ele começa em seu próprio jeito de pensar. “Muitas vezes, somos perpetuadoras de desigualdades em vez de embaixadoras da mudança. Sem perceber, falamos que ‘trabalhar com mulher é difícil’, que ‘mulher só faz fofoca’, ou que aquela mulher assertiva no trabalho é uma megera”, lamenta Gleyce Oliveira, Gerente de Marketing da Petlove. Ela percebeu que, estando em um cargo de chefia, era seu papel incentivar suas colegas de trabalho a se conscientizarem a respeito.

A atitude de Gleyce ilustra o segundo passo: espalhar a sororidade para
seu círculo de amizades e colegas de trabalho. Aconselhe, dê opiniões e apoie as decisões das mulheres que estão em seu entorno. Fortaleça-as para que elas também possam se empoderar e fortalecer outras mulheres.

Neste caminho, é importante não se deixar levar pela competitividade arraigada. “Quando uma mulher alcança um cargo alto, ela não pode perder a visão de coletivo. Não é porque ela chegou lá que a desigualdade deixou de existir”, adverte Marineide de Oliveira Aranha Neto, mestre em Gestão de Pessoas e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.

“Não há como negar que existe um teto de vidro. Em geral, a mulher não chega a posições de diretoria. Se você ficar competindo com a outra, a situação apenas piora”, alerta Marineide, que relata já ter sofrido com a falta de cooperativismo feminino.

Pensar de maneira individualista faz com que muitas galguem cargos de liderança, mas reclamem de solidão e sintam falta de outras mulheres para compartilhar experiências e ideias. “Essa ainda é uma realidade contrastante que poderia ser diminuída caso houvesse essa ajuda mútua, que contempla desde a indicação para cargos até apoio na vida pessoal e profissional”, ensina Luciana Resende Passadori, coach e coordenadora do curso de Liderança do Instituto Passadori. Ela mesma participa de grupos onde mulheres, líderes ou não, ajudam as outras a brilhar e a acreditar em seus potenciais.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, propomos o seguinte desafio: que tal deixar de encarar outras mulheres como concorrentes mas, sim, vê-las como parceiras de caminhada? Juntas, vamos além!

Fotos: Shutterstock

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