Na economia, na política e nos relacionamentos, tudo é uma questão de expectativas

Na economia, na política e nos relacionamentos, tudo é uma questão de expectativas

*Naiara Bertão

Olá, pessoal. Tudo bem?

Vocês já passaram por uma desilusão amorosa? Sabem como é a sensação de desapontamento, não? Quando isso acontece a gente só tem vontade e sair correndo e nunca mais voltar. Até mudar de cidade ou país.

Lidar com expectativas não é fácil, ainda mais se pensarmos que elas estão em todos os lugares. Naquele doce de padaria que parecia delicioso e é médio; ao experimentar uma roupa e não servir; não conseguir juntar o dinheiro para viajar no réveillon; e também receber um feedback ruim no trabalho.

Mas se você acha que está difícil lidar com elas, imagine os operadoras de bolsa e câmbio. Eles lidam com expectativas a cada minuto, segundo. Precisam tentar adivinhar qual o movimento de seus colegas de trabalho, como em um jogo de xadrez. E é muito comum se frustrarem – perderem.

O stress e desapontamento são tão grandes nesse meio que um estudo de oito pesquisadores, publicado na revista Exame, mostrou que os brokers (operadores) costumam se arriscar ainda mais em momentos de crise. E isso gera as tais oscilações malucas, como a que vimos na semana passada no câmbio. Quando se fala em câmbio, disse um professor do MBA na FIPE, é mais difícil prever o dólar do que o clima. Pelo menos a tendência é a mesma: os dois estão “quentes”.

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O dólar funciona como uma vitrine que mostra ao mundo como o país está. Já deu para ver que o dólar batendo recordes de alta exibe uma situação ruim, que piorou quando a agência de análise de crédito S&P tirou do Brasil o melhor selo de bom pagador (investment grade). Agora a expectativa (olha ela de novo) é que outras agências (Moody’s e Fitch) também tirem seus selos do Brasil. A má gestão das contas públicas é que as frustrou. Elas deram um voto de confiança anos atrás e o Brasil abusou da liberdade.

Para resgatar a confiança que ainda resta no mercado, o governo já mandou ao Congresso novas medidas de corte de gastos e a reacendeu a chama da alta dos impostos para arrecadar mais dinheiro. Como tudo na vida (e na física), uma ação gera uma reação. A Fiesp, federação das indústrias paulistas, e outras 100 associações reagiram: lançaram a campanha ‘Não vou pagar esse pato’. Para chamar a atenção contra os impostos e gerar outra reação – dos brasileiros – dois patos amarelos gigantes dão cor ao cinza da Avenida Paulista.

Se, por um lado, queremos mostrar publicamente que não estamos felizes quando nossas expectativas são frustradas; por outro, também tentamos persuadir o outro para fazer o que queremos. Dilma Rousseff e equipe estão nessa fase. Em troca de apoio para aprovar os cortes e aumento de tributos, o time prometeu ao PMDB cinco ministérios, entre eles o da Saúde, um poder de fogo bem maior do que ele tem hoje. Também pede a rejeição de medidas que aumentem os gastos.

Na economia, na política e nos relacionamentos todos estão participando do mesmo jogo de expectativas. Não sei porque isso me lembra tanto as novelas do horário nobre. Qualquer semelhança deve ser mera coincidência.

 

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalha para o Guia Bolso e passou por diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

 

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