Nós, mulheres da periferia: coletivo dá visibilidade para mulheres de bairros periféricos

Nós, mulheres da periferia: coletivo dá visibilidade para mulheres de bairros periféricos

“Se a periferia tivesse sexo, certamente seria feminino. Como coração de mãe, ela abraça os seus filhos sem distinção, sem ver se é belo ou feio, dentro ou fora dos padrões.” É assim que começa o artigo que deu origem ao coletivo Nós, Mulheres da Periferia, que produz conteúdo sobre mulheres da periferia para diminuir a invisibilidade e falta de representatividade.

Publicado no dia 7 de março de 2012 na seção “Tendências/Debates” do jornal Folha de S. Paulo, foi assinado por cinco jornalistas de bairros periféricos de São Paulo. A repercussão do texto foi tão grande que, além de ser replicado em outros grandes veículos, como a Rádio CBN, ainda repercutiu entre outras mulheres periféricas. “Outras moradoras da periferia de São Paulo finalmente tinham se sentido representadas, lembradas e retratadas. O artigo, por exemplo, foi lido e registrado em vídeo no Sarau do bairro Itaim Paulista, na zona leste da capital”, conta a jornalista Jéssica Moreira, uma das autoras do texto e criadoras do Nós, Mulheres da Periferia.

Visibilidade à mulher da periferia

Foi neste momento que quatro das cinco jornalistas começaram um processo de pesquisa para consolidar o coletivo – cujo principal objetivo é dar visibilidade aos direitos não atendidos das mulheres e problematizar preconceitos e estereótipos limitadores, que acabam se cruzando com questões de classe social, etnia e raça.

Dois anos depois, no dia 8 de março de 2014, publicaram outro artigo na mesma seção do jornal paulista, este jogando luz à questão do direito à moradia para as mulheres de baixa renda. Essa foi a primeira ação concreta enquanto coletivo Nós, Mulheres da Periferia.

Desde o começo, o grupo – hoje composto por seis jornalistas e uma designer – sofreu com as dificuldades inerentes a um coletivo de comunicação alternativa, principalmente com questões financeiras. “Foi preciso, muitas vezes, tirar do próprio bolso dinheiro para manter o site no ar ou, então, para tomar um ônibus ou trem para entrevista. Isso parece pouco, mas quando colocávamos no papel, sempre percebíamos que as atividades do coletivo geravam custos que ainda não tínhamos como bancar”, diz. Apesar disso, elas sempre encontravam uma maneira de cobrirem ao menos despesas básicas, como a manutenção do servidor do site.

A falta de tempo também é uma grande barreira que elas enfrentam diariamente, já que ainda precisam trabalhar em outros empregos. “Dentre nós, algumas são mães e outras ainda sustentam suas famílias. A maioria trabalha oito horas por dia e passa de duas a quatro horas no transporte público, sobrando apenas o horário da madrugada ou do almoço para escrever nossas matérias”, desabafa. Essa entrevista, inclusive, foi concedida à 1h20 da manhã.

Não é coincidência que os principais problemas que afetam o desenvolvimento das atividades do coletivo – a falta de dinheiro e mobilidade – também são uma barreira importante na vida das mulheres que vivem nas periferias Brasil afora.

“Por isso, um dos grandes objetivos do coletivo hoje é se organizar financeiramente, buscando modelos de negócio que nos permitam, um dia, trabalhar apenas com o coletivo”, aponta.

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Integrantes do coletivo trabalham na edição do documentário “Nós, Carolinas”

Grandes vitórias

Apesar dos percalços, a cabeça das meninas nunca parou de borbulhar ideias. Em 2015 e 2016, elas foram contempladas com subsídios do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), da Prefeitura de São Paulo. No primeiro ano, criaram o projeto “Desconstruindo Estereótipos”, que trazia oficinas sobre a representação das mulheres moradoras das periferias na grande mídia.

No final do mesmo ano, foi lançada no Centro Cultural da Juventude (CCJ), em São Paulo, a exposição multimídia “Quem Somos [Por Nós]”, que incluiu uma série de entrevistas com mulheres da periferia. A partir delas foi criado o mini-documentário “Nós, Carolinas”, lançado em 8 de março deste ano. O nome é uma homenagem a Dona Carolina, uma das entrevistadas, e faz menção honrosa à escritora Carolina Maria de Jesus, autora do livro “Quarto de Despejo – o Diário de uma Favelada”.

Ele já foi exibido cerca de 15 vezes na cidade de São Paulo, em escolas, Unidades Básicas de Saúde, organizações voltadas à questão de gênero, centros culturais e até mesmo bares nas periferias. Além disso, o curta-metragem também participou de uma mostra na Bahia e no Rio de Janeiro.

“Percebemos que a linguagem do audiovisual abre muitas portas e dialoga com um público ainda maior do que o jornalismo escrito. Chega onde nós nem imaginávamos e quebra também os estereótipos ligados à mulher da periferia, mostrando uma outra narrativa”, observa.

Nós, Mulheres da Periferia, para nós

De nada adiantaria produzir um conteúdo tão rico para a mulher da periferia se ele não chegasse, de fato, a quem precisa. Por isso, Jéssica classifica que uma de suas maiores realizações foi ter ampliado o escopo, atuando também no ambiente offline. “Nós fomos para as organizações, CEUs e movimentos sociais escutar mulheres que ainda não estão na internet, mas que têm muita sabedoria e histórias para contar. São também mulheres feministas, porém, não usam essa nomenclatura”, lista.

Essa reviravolta aconteceu na exposição “Quem Somos [Por Nós]”. O CCJ fica localizado na Cachoeirinha, bairro da periferia da Zona Norte de São Paulo. No mês em que ficou em cartaz, ela foi capaz de dialogar e alcançar outras mulheres da periferia que não possuem acesso à internet.

Para Jéssica, o site é um espaço de representatividade, onde as mulheres podem se ver nas suas próprias histórias ou nas de suas iguais. “Nosso grande objetivo é ampliar o espaço que as mulheres da periferia têm para erguerem suas vozes, mas de maneira autônoma. Que ninguém mais fale por elas senão elas mesmas”, frisa.

As dificuldades enfrentadas foram superadas graças à solidariedade entre elas. “É assim que fazemos, inspiradas, inclusive, em nossas ancestrais periféricas, que sempre ajudaram umas às outras em tantas tarefas”, completa.

Para a jornalista, o espírito de sororidade entre as mulheres da periferia dá a firmeza necessária para manter suas histórias e memórias vivas – só assim a sociedade notará o potencial contido nelas. Isso também tem impacto sobre o movimento feminista em si. “É preciso repensá-lo, incluindo toda a diversidade das mulheres em nossa sociedade, e isso quer dizer acolher e respeitar as ideias de todas”, finaliza.

Fotos: Danilo Vilela e Acervo Pessoal

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