O apagão de confiança

O apagão de confiança

Olá, meninas! Quem está apreensiva em perder o emprego diante deste cenário de crise tem razão em preocupar-se. A jornalista Naiara Bertão mostra os motivos para tanto na coluna Em $uma de hoje. 

Bom dia, meninas, tudo bem?

Acredito que grande parte de vocês trabalha e depende do salário para arcar com as MUITAS contas que chegam mês a mês, além dos imprevistos que parecem ter sido enviados por Murphy diretamente para a sua cabeça, certo? E agora me respondam, desde o ano passado, vocês estão mais receosas com seus empregos (ou chegaram a ser demitidas)? Esse medo (ou fato) já fez você mudar seus hábitos de consumo, como adiar planos de trocar de carro, deixar de comprar roupas ou ainda postergar a pós-graduação que você tanto queria começar a fazer nesse primeiro semestre?

Pois bem, se você respondeu que não para todas as perguntas, sinta-se parte de uma minoria. Os brasileiros estão muito preocupados com a economia: a confiança do consumidor recuou em fevereiro para o menor nível desde o início da pesquisa, em setembro de 2005, segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas). Essa preocupação generalizada, que está levando a uma mobilização incrível contra o quadro atual do país, acontece, geralmente, quando há algo que ameaça o seu bolso – no caso de hoje, especialmente o risco de perder o emprego.

Dois dados que saíram na semana passada mostram que os brasileiros não estão receosos a toa. O primeiro deles é o Indicador Coincidente de Desemprego (ICD), também da FGV, tem o objetivo de captar a situação presente do mercado de trabalho. Em fevereiro, ele sinalizou piora no quadro de emprego no Brasil.

O segundo foi a Pnad Contínua, um indicador do IBGE que vai substituir a PME (Pesquisa Mensal de Emprego), hoje o medidor oficial do desemprego no país, mas que só abrange seis regiões metropolitanas. A Pnad mostrou que a taxa de desocupação fechou o trimestre até janeiro (novembro, dezembro e janeiro) em 6,8% – a PME mostrou 5,3% para o mesmo mês. O trimestre anterior, de agosto a outubro, tinha marcado taxa (Pnad) de 6,6%, ou seja, já está subindo. A Fecomércio e a Fiesp também já divulgaram milhares de demissões no comércio e a indústria de São Paulo neste início de ano.

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Se a perspectiva já não está muito boa para o lado das receitas (salário), do lado das despesas (gastos), a inflação está acelerando e comendo cada vez mais o poder de compra da população. E para tentar controlar esse dragão de preços, o que o governo faz? Mexe na política monetária, ou seja, eleva os juros (taxa Selic) para que o consumo diminua e as empresas entendam que precisam baixar os preços, ou subi-los menos, para que os clientes voltem. Hoje a Selic já está em 12,75% e, na semana passada, a ata do Copom (o Comitê que decide se vai subir ou diminuir os juros) mostrou que pode vir mais elevação pela frente.

Juntando o risco de perder o emprego, a inflação alta, as dívidas ficando caras por causa dos juros, o poder de compra caindo, não há como ficar muito otimista. Todo esse cenário combinado com cada vez revelações do megaesquema de corrupção na Petrobras, geram uma descrença em relação ao futuro do Brasil, o que, por sua vez, leva as pessoas a reclamarem, a protestarem, a exigir uma perspectiva de mudança para melhor.

Infelizmente, todo esse quadro econômico está intimamente ligado a duas questões fundamentais que, independente de quem estivesse no poder, precisariam ser tratadas: a retomada da credibilidade na Petrobras e a retomada da confiança no governo. As agências de classificação de risco já estão de olho no que está sendo feito e prometido com relação ao equilíbrio das contas públicas (fiscal). A Standard & Poor’s (S&P), por exemplo, uma dessas agências, alertou o Brasil que ele precisa cumprir este ano suas metas de superávit primário (economia para pagar juros da dívida externa). Se não o fizer, não conseguirá recuperar a confiança dos investidores.

Além das repercussões sobre a CPI da Petrobras, que está pegando fogo em Brasília, os desdobramentos do clima tenso entre população e governo, ainda teremos mais números para prestar atenção nesta semana:  Pesquisa Mensal de Serviços referente a janeiro (terça); IPCA-15, considerado prévia da inflação de março (sexta-feira); e a Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (sexta), que é uma extensão da PME, referente também à janeiro.

Também teremos a visita de representantes da agência de classificação de risco Fitch ao Brasil. A despeito das movimentações do fim de semana, à Fitch o governo se esforçará para mostrar que o Brasil ainda é a terra das oportunidades, onde apagões de confiança são momentâneos e sempre a luz volta logo, ainda que nos 45 do segundo tempo.

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Naiara Beltrão

Naiara Beltrão

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