Como reduzir o sexismo no mercado corporativo

Como reduzir o sexismo no mercado corporativo

Quem acompanha a mídia, fóruns de discussão na internet, as redes sociais, enfim, o que acontece no mundo, já percebeu que as discussões sobre sexismoequidade de gêneros e empoderamento feminino vieram para ficar (ainda bem!). Há quem reaja com críticas e querendo se agarrar ao raso argumento de que “o mundo está ficando muito chato”. Isso não é verdade.

O mundo está caminhando, ainda que vagarosamente, para um rumo melhor, mais igualitário e com mais espaço para rever velhos padrões sexistas. Os passos para melhoria da nossa realidade são vagarosos porque rever os erros enraizados culturalmente não é um processo que acontece do dia para a noite.

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A necessidade de trazer essas discussões à tona com mais frequência aparecem a cada relato sobre os bastidores da vida corporativa, especialmente em alguns segmentos ainda majoritariamente ocupados por homens, como é o caso do setor de tecnologia e do mercado de investimentos de risco.

Citamos esses dois exemplos com base no relato da investidora em tecnologia, consultora e escritora Ellen K. Pao, que trabalha no Vale do Silício e acumula uma experiência de mais de 20 anos em empresas de ponta. Em um rico relato à newsletter da atriz e roteirista Lenna Dunham, a executiva descreveu todos os obstáculos sexistas que precisou superar para ocupar o espaço que ocupa hoje.

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Seus pais cresceram na China e, com muito esforço, conseguiram a mudança para os Estados Unidos, onde também deram duro para se graduarem em boas escolas, conseguirem empregos importantes e repetirem o ciclo com os filhos. Em toda sua criação, Ellen foi instruída a acreditar na meritocracia e em seus fundamentos. Formou-se em direito pela Universidade de Harvard, saiu de lá com a mente cheia de sonhos e prospecções. Tanto ela quanto as amigas de faculdade eram recrutadas para grandes escritórios de advocacia, todas com salários promissores. Até ai, tudo parecia estar funcionando bem e todos os ensinamentos sobre meritocracia pareciam estar corretos.

Quando o lado sexista do mercado começou a aparecer, pouco a pouco, ela via-se buscando formas de contornar a situação. Quando uma colega de trabalho foi demitida do escritório de advocacia por usar calças, a equipe se uniu para que calças fossem usadas por mulheres com mais frequência. Todas os escritórios de advocacia pareciam se organizar em eventos dominados por homens, em que a presença feminina dificilmente acontecia. Jantares, encontros para assistir jogos, saídas para casas noturnas de strippers, entre outros. Até então, não havia muito barulho a respeito disso, porque a maioria simplesmente aceitava as situações como algo impossível de mudar no mundo da advocacia.

Algumas outras situações eram mais difíceis de serem digeridas. Ela contou sobre a época em que uma colega com mais tempo de empresa a alertou sobre o comportamento de alguns sócios, inclusive de um sênior da empresa que tinha o hábito de ficar na porta do escritório dela todos os dias às 13h, encarando-a tomar sorvete, até que ela começou a fechar a porta da sala e, ironicamente, ganhou uma reputação de ser uma pessoa isolada.

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Durante muito tempo, Ellen carregava consigo de aquelas situações eram somente algumas anomalias do sistema. A longo prazo, no entanto, a hostilidade sexista a levava a se questionar de um modo que não deveria. “Será que sou eu? Eu estou realmente sendo tão ambiciosa mesmo sendo tão quieta? Estou sendo agressiva e desagradável? Eu não estou me promovendo o suficiente? Não estou me esforçando o suficiente? Eu pertenço a esse lugar?”, eram alguns questionamentos.

Eventualmente trocou o escritório de advocacia pelo mercado de tecnologia, depois para investimentos em capital de risco e, mais recentemente, como CEO do Reddit. Em suma, lidou com os mesmos problemas ao longo de 17 anos. A maioria das empresas de capital de risco pelas quais passou tinham, no máximo, uma mulher na equipe de investimento, que permanecia na parte de baixo da hierarquia.

ellen K PaoReprodução LinkedIn

A própria Ellen avalia que esses relatos são desanimadores, mas ela acredita que progressos estão acontecendo. Na avaliação dela, a grande diferença entre o mercado de 20 anos atrás e agora é que as mulheres estão se posicionando diante de situações sexistas, de mau comportamento por parte dos colegas homens, compartilhando suas experiências publicamente e criando espaço para ampliar essas discussões em rever a forma como o mercado é estruturado.

O desequilíbrio do mercado está comprovado em diversos estudos. Em um deles, ela faz uma ressalva que mostra como as justificativas meritocráticas são falhas. Enquanto defensores do sistema dizem que não existiam mulheres o suficiente com interesse em cursos ligados a áreas predominantemente masculinas, um professor descobriu que 20% das graduações em engenharia nos Estados Unidos são de mulheres. Ainda assim, menos de 11% da força de trabalho em engenharia é composta por mulheres.

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Ela cita ainda estudos que mostram que enquanto mulheres compõem mais de 40% das bases de campos como ciência, tecnologia e engenharia, mais da metade deixam suas áreas de atuação com o tempo. A primeira razão a ser citada é o assédio sexual: 63% das mulheres nesses segmentos já passaram por alguma situação de assédio. As que permanecem, enfrentam outros obstáculos, como as diferenças salariais.

O ponto sustentado por ela é que a meritocracia, da forma como é pregada, não existe. É bom saber que mudanças estão acontecendo no sentido de mudar este cenário, como os esforços para mostrar o quão desequilibrado é o mercado e o que precisa ser mudado.

Enquanto a transformação acontece, as dicas de Ellen para que as mulheres permaneçam no mercado são resistência e não se calarem. Por muito tempo, ela enfrentou fortes críticas por adotar políticas como remover do Reddit fotos de nudez não autorizadas, inclusive de revenge porn. Por muitas vezes, foi chamada de “a pessoa mais odiada da internet”. Apegue-se somente à críticas que sejam construtivas e deixe que os comentários de ataque simplesmente entrem em um ouvido e saiam pelo outro.

Mudanças acontecem através da luta. Os relatos de Ellen K. Pao, bem como de mulheres do mundo inteiro, ajudam a engrossar o coro que contesta o mercado como funciona hoje. São atitudes que encorajam mulheres que já foram vítimas de discriminação e assédio a compartilharem o que viveram, em prol da construção de um cenário mais igualitário.

Fotos: Linked In e Shutterstock

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Karina Alves

Jornalista e editora de conteúdo do Finanças Femininas. Já trabalhou em jornais impressos, online, rádio e com produção. Tem fascínio pela junção entre economia e psicologia, procura explorar cada vez mais esse universo e busca usar esse aprendizado para ajudar as pessoas a levarem uma vida financeira mais saudável! Contato pelo karina@financasfemininas.com.br

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