O pacotão de Dilma e as férias de julho

O pacotão de Dilma e as férias de julho

*Naiara Bertão

Bom dia, pessoal.

Para começar bem essa segundona, vamos pensar em férias! Julho chegando, alguns vão ter um descansinho, outros não. E qual o seu lugar favorito para visitar? Prefere praia ou campo? Cidade grande ou interior? Friozinho ou calor de 40º? Fazer trilhas até cachoeiras ou ficar o dia todo em confortáveis cadeiras de resorts? Viajar de avião ou ficar curtindo a casa e a cidade? Eu não visitei muitos países nesse mundo, mas posso dizer com clareza que eu amo o Brasil. Dificilmente moraria fora por mais de dois anos. É difícil encontrar outro país com tantas belezas e pessoas agradáveis juntas. Mas não é tão fácil achar bons exemplos onde o dinheiro público foi bem aplicado. Vejam os esquemas de corrupção que emergem a todo momento como feridas expostas de maus hábitos que permearam por anos. É triste. Pelo menos para mim é muito triste.

Eu cresci acreditando que o Brasil seria, quando eu tivesse meus quase 30, o país do Presente e não do Futuro, como tanto falávamos. Temos tudo: terra para plantar, pessoas inteligentes para desenvolver tecnologias de ponta, dinheiro de impostos (e põe dinheiro nisso) e muita força de vontade (brasileiro é muito batalhador sim, e ambicioso também). A Coreia do Sul, por exemplo, não tem nada disso e fez muito mais do que fizemos nos últimos anos.

No ano passado, quando a Copa estava chegando, nunca se discutiu tanto o pobre legado de bilhões de reais gastos em infraestrutura para poucos – ou ninguém. E as discussões pararam por ali. Hoje, em plena crise fiscal em que o governo está pobre, sem dinheiro em caixa, é lançada mais uma tentativa de resolver o nosso maior déficit: o da infraestrutura. O novo pacote promete conceder à iniciativa privada R$ 198,4 bilhões de reais em obras em terminais portuários (R$ 37,4 bilhões), ferrovias (R$ 66,1 bi), rodovias (R$ 86,4 bi) e aeroportos (R$ 8,5 bi).

Essa, porém, não é a primeira vez que a própria presidente Dilma Rousseff tenta erguer as obras. Em 2012 ela lançou um ‘pacotão’ de R$ 210 bilhões em investimentos do setor privado via concessões. Desse montante, apenas 20% foi licitado. Em tempos de vacas magras, também será difícil, agora, o governo ajudar muito no financiamento desses projetos, já que o dinheiro está escasso. Por isso, Dilma está, ao que parece, mais disposta a ceder: aumentar a participação das empresas privadas nos projetos e flexibilizar as regras sobre o retorno dos investimentos. Afinal, tem que valer a pena investir em um país com alta burocracia, carga tributária e forte peso do Estado na economia.

Apesar de ser uma tentativa de mudar o discurso negativo em cima do governo, que enfrenta escândalos de corrupção, baixo desempenho econômico e problemas nas contas públicas, a iniciativa é muito válida. Se ela vai vingar mesmo, só saberemos daqui a alguns anos.

Nando-Machado-ShutterstockFoto: Nando Machado/Shutterstock

Um estudo da Fundação Dom Cabral mostra que, se o Brasil tivesse uma logística e infraestrutura dignas de país desenvolvido, como os Estados Unidos, os empresários do país deixariam de gastar cerca de US$ 85 bilhões por ano. Nos EUA, o custo logístico é 8% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto no Brasil é 12%. Isso só é ruim para nós, tanto como país quanto pessoa física. Com custos maiores, os produtos brasileiros têm um custo mais caro e perdem competitividade no exterior. Em paralelo, o que fica no mercado local também precisa ser vendido por um preço que já inclui esse custo mais alto de termos estradas ruins e poucas ferrovias e hidrovias (mais baratas). Ou seja, acaba entrando na conta de inflação, que, por sinal, bateu recorde na semana passada: 8,47% no acumulado de 12 meses até maio – o pior resultado para esta base de comparação desde dezembro de 2003.

Há alguns meses eu entrevistei um renomado economista internacional, o americano Martin Wolf, que me disse com clareza e sinceridade que o Brasil só deixará de ser o país do Futuro para ser o do Presente se investir em duas coisas: aumento das taxas de poupança e investimentos. Se, por um lado, a poupança registrou em maio a menor captação para o mês desde 1995, por outro, resta-nos depositar as esperanças nesses investimentos de infraestrutura. Afinal, não só as empresas ganham, mas todos os brasileiros que terão mais opções de transporte para conhecer as belezas desse Brasilzão nas férias de julho de 2025 (sou do time dos otimistas).

Agenda da semana:

16/06 (terça): Pesquisa Mensal de Comércio – IBGE
18/06 (quinta): Pesquisa Mensal de Serviços – IBGE
19/06 (sexta): IPCA-15, considerado prévia da inflação – IBGE
19/06 (sexta): Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário – IBGE

Crédito das fotos: Shutterstock

Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

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