O que aconteceria se as políticas públicas fossem planejadas por mulheres?

O que aconteceria se as políticas públicas fossem planejadas por mulheres?

Já parou para pensar como seria a sua vida se as políticas públicas fossem planejadas por mulheres? Você teria menos medo de andar sozinha nas ruas? Teria mais acesso a uma saúde pública de qualidade? Infelizmente, a representatividade feminina no poder público é tão pequena que tudo fica na hipótese: ocupamos o 115º lugar no ranking de mulheres na política, dentre 138 países analisados pelo Projeto Mulheres Inspiradoras (PMI).

Apenas 10% de nossos representantes são mulheres. Para que se tenha ideia, até hoje não atingimos a média mundial de 1990 (12,7%) de representantes femininas no Parlamento – ou seja, são 30 anos de atraso, que fazem com que o Brasil tenha uma média próxima a dos países do Oriente Médio e do norte da África (8,9%) e dos países árabes (9,5%). Apenas 15% dos cargos ministeriais eram ocupados por mulheres em 2016, de acordo com o Relatório Global de Desigualdade de Gênero elaborado pelo Fórum Econômico Mundial.

Hoje, existe a Lei 12.034/2009, que determina que partidos e coligações preencham o número de vagas com, no mínimo, 30% e, no máximo, 70% de cada gênero. Porém, apesar de cumprirem a lei no papel, é raro encontrar partidos que dão às mulheres o mesmo apoio, espaço e oportunidades oferecidos aos candidatos homens.

Com isso, nos últimos dez anos, a posição do Brasil no ranking global de equidade de gêneros variou quase que de maneira aleatória. Em 2016 – data do último relatório –, o País ocupava o 79º lugar no ranking global de equidade de gêneros. Em 2015, 85º e, em 2014, 71º. Em 2013, a posição era 62ª.

“Muito pouco foi feito na última década sobre isso e a nossa posição no ranking é randômica. Alteramos a nossa posição em função da melhoria ou piora dos outros países”, diz Carmen Migueles, professora da FGV/EBAPE (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da FGV).

politicas-publicas-mulheres

Carmen não se refere apenas à quantidade, mas também à qualidade das medidas tomadas. A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), ligada ao Ministério da Justiça e Cidadania, elaborou o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), que tem como objetivo contribuir para a consolidação das políticas públicas de gênero. Segundo o documento, ele é orientado por princípios como autonomia das mulheres, respeito ao Estado laico e participação ativa das mulheres em todas as fases das políticas públicas (leia o documento completo aqui).

Contudo, o último plano abrange os anos de 2013 a 2015, sendo que não houve a criação de outro documento desde então – e, por causa do cenário político instável, não se pode dizer quando isso acontecerá. “Faltam planos de ação consistentes e coerentes, com metas de médio e longo prazos, visão estratégica e planos táticos e operacionais consistentes”, lamenta Carmen.

Mulheres fazendo políticas públicas para mulheres

De acordo com a professora, seriam necessárias ações coordenadas e adequadas, focando nas recomendações da ONU. “A política pública que teria o maior impacto na vida das mulheres é a que permitiria equilibrar vida pessoal e a profissional, com suporte à maternidade. Por exemplo, creches públicas, com tempo para as mães chegarem do trabalho”, exemplifica.

Para entender a importância de políticas do tipo, basta pensar em uma mulher que mora na periferia e passa quatro horas diárias no transporte público para ir e voltar do trabalho. Além da viagem, ela precisa deixar os filhos na creche – caso consiga uma vaga – e, na volta, ainda cuidar dos afazeres de casa. Para essa mulher, ter políticas públicas pensadas em suas necessidades faria toda a diferença.

“Existem muitos homens em cargos que cuidam de planejamento urbano, e isso afeta o desenho das cidades”, conta Carine Roos, idealizadora do evento Cities for Everyone, que discutiu o planejamento das cidades na visão das mulheres, e da UP[W]IT (Unlocking the Power of Women for Innovation and Transformation).

O evento consistiu em reunir mulheres para pensarem em soluções para facilitar a vida de todas as mulheres com o auxílio da tecnologia. “Percebemos que as políticas públicas são mais inclusivas quando colocamos mulheres em cena para planejá-las. Nós tendemos a ter uma visão mais 360º. Por isso a diversidade é tão importante”, conta Carine.

Iniciativas do tipo levam o ponto de vista feminino àqueles que estão no poder, uma vez que a representatividade ainda é baixa. Não é por um acaso que, depois do evento, as organizadoras reuniram todas as ideias em um site. “A ideia é que elas estejam acessíveis, como uma base de informações para uma sociedade mais inclusiva, servindo de referência e inspiração para que os governos criem ou reformulem políticas já criadas nesta área”, diz.

A UP[W]IT também realizou um hackaton – maratona de programação para discutir novas ideias e desenvolver projetos – voltado para desenvolver soluções para os principais desafios na área da saúde para mulheres cis e transgênero – política pública que Carine também vê grande negligência por parte do poder.

Por fim, vale lembrar que ter políticas públicas planejadas por e para mulheres é um caminho que ainda parece longo para o Brasil, mas que é possível, desde que todas estejam unidas neste propósito – cobrar direitos e lutar para eleger candidatas comprometidas com a causa é um bom começo.

Fotos: Shutterstock

Gostou do nosso conteúdo? Clique aqui e assine a nossa newsletter! 

Desabafa!

Se você tem alguma dúvida sobre sua vida financeira ou uma boa história sobre dinheiro para contar pra gente, mande através do formulário abaixo.

Dúvidas enviadas através desse formulário não serão respondidas individualmente por e-mail.

O conteúdo da sua mensagem poderá ser utilizada em nossas matérias. Caso você prefira não ter o seu nome identificado, é só selecionar a opção "Mensagem Anônima".

personNome

personSobrenome

Mensagem anônimainfoSim

local_post_officeEmail:

commentMensagem: (obrigatório)

Este conteúdo foi útil para você?

Financas Femininas

Finanças Femininas

Sua independência financeira depende de você, com uma ajudinha nossa.

close