O racismo está no caminho das mulheres negras e empreendedoras

O racismo está no caminho das mulheres negras e empreendedoras

“Me ajuda a ser negra?”, pediu uma das clientes que visitou o ateliê de Ana Paula Xongani, administradora da loja que leva seu sobrenome, em parceria com a mãe Cristina Xongani.

“Primeiro achei estranho, pois olhei para ela e vi que era negra”, lembra a estilista e afroempreendedora.

Mas não demorou muito para Ana Paula entender que aquela cliente e muitas outras mulheres negras procuram o ateliê para encontrar marcas e produtos que as representam e principalmente as ajudem a mostrar sua identidade, fugindo da produção em massa de lojas que vendem corpos e tendências baseados em padrões de beleza.

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De acordo com Ana Paula, esta história pode servir de exemplo para definir o afroempreendedorismo na prática. “Não é só porque os empreendedores de tal negócio são negros. Mas porque o clientes costumam ser também”, explica. Por isso ela acredita que o ativismo social deve caminhar junto com o negócio.

A mulher negra que empreende sem crédito:

A Xongani começou em 2010 atendendo por meio de loja virtual e com produção concentrada nos fundos da casa de Cristina. Hoje a marca conta com a estrutura do ateliê, escritório para as administradoras e até uma sala específica para gravações dos vídeos de Ana Paula para o Youtube, onde ela dá dicas de moda e beleza afro.

Xongani-AfroempreendedorismoCristina e Ana Paula Xongani / Reprodução Facebook: Xogani Moda Afro

Ajudando mais ainda a consolidar a marca, as atrizes Sheron Menezes e Taís Araújo já usaram peças Xongani na novela Babilônia e na série Mister Brau, respectivamente, ambas vinculadas em horário nobre na Rede Globo.

Mas mesmo com tanto trabalho e comprometimento, ainda é difícil para as donas da Xongani convencerem os bancos e outras instituições financeiras a fornecerem crédito para que a marca continue crescendo. Há seis anos elas caminham sozinhas.

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Inicialmente, o pedido de crédito era negado de imediato e, agora que a marca mostrou potencial de desenvolvimento, o investimento oferecido é para empreendedores iniciantes. “São oferecidas quantias muito baixas, com juros muito altos que, se eu acabar aceitando vai significar muito mais dívida para mim do que um investimento na empresa“, argumenta Ana Paula.

Segundo a estilista, não foi por falta de tentativas ao longo dos anos de empresa. “Já até trouxe gerentes ao ateliê para eles verem que é um negócio sério, mas não adianta. Continuo indo dormir frustrada por encerrar o dia cheia de ideias para a Xongani que só podem ficar no papel”, conta Ana Paula.

“Os afroempreendedores têm maior dificuldade de conseguir financiamento por causa de preconceito racial e social”, diz Maria Alice da Silva, administradora financeira no Instituto Adolpho Bauer (IAB) e uma das responsáveis pelo Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE), feito em parceria com o SEBRAE.

Os números de participações do Projeto mostram também uma diferenciação de gênero. Há mais mulheres negras em busca de capacitação e capital para iniciar o próprio negócio (57,9% no PBAE) do que de fato iniciando os trabalhos pelo país (29%). Os dados são de pesquisa quali-quantitativa encomendada pelo IAB para monitorar o empreendedores individuais afro-brasileiros participantes do projeto e comparar os resultados com o relatório mais recente do Instituto Brasileiro de Georgrafia e Estatística (IBGE).

Para Ana Paula, as mulheres são as que mais sofrem com racismo na hora de negociar o crédito. “Como há mais exemplos de homens negros bem sucedidos na sociedade, eles acabam sendo menos barrados. Enquanto a mulher negra está começando a lutar contra objetificação e estereótipos”, observa a empreendedora. “Quando você chega com seu cabelo natural e sua pele escura para falar sobre seu negócio com cultura africana, ainda é muito desacreditada”, acrescenta.

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Capacitação e incentivo:

De modo geral, os empreendedores negros também não contam com as mesmas oportunidades de capacitação ou incentivo familiar que o resto da população costuma ter, então o Projeto Brasil Afroempreendedor nasceu com o objetivo de reverter este cenário.

O ciclo que se encerra em fevereiro deste ano começou em 2013 e rodou 11 estados brasileiros com aulas de gestão e planejamento financeiro, controle de caixa e até treinamento para pedido de crédito. “É preciso, além de capacitar, trabalhar a auto estima dessa minoria que pode ter seus sonhos perdidos tão facilmente sem crédito e apoio”, explica Maria Alice.

A partir do Projeto, o Instituto investe agora na Rede Brasil Afroempreendedor (Reafro), inaugurada no último sábado (30), para jovens na faixa etária de 18 a 25 anos trocarem experiências, aprendizados e principalmente encontrarem motivação para a montagem do próprio negócio.

Foto: Reprodução Facebook Xogani Moda Afro.

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