Os cofres do governo vão suportar o reajuste do salário aos aposentados?

Os cofres do governo vão suportar o reajuste do salário aos aposentados?

*Naiara Bertão

Bom dia, pessoal. Não sei o quanto vocês acompanham o noticiário, mas enquanto a tragédia com o cantor Cristiano Araújo e sua namorada era amplamente divulgada na mídia, a cena política-econômica nacional também estava bem movimentada. Não chegou a ser trending topics do Twitter, mas o Legislativo andou trabalhando e na quarta-feira à noite a Câmara dos Deputados aprovou uma emenda à Medida Provisória 672 que estende o reajuste do salário mínimo a todos os aposentados e pensionistas. Hoje o reajuste vale apenas para quem recebe um salário mínimo.

O governo era contra porque isso, na prática, significa bilhões de reais a mais em despesas a cada ano. E não foi só o governo que achou ruim. O presidente da própria Câmara chamou a aprovação de um “erro” que precisa ser desfeito. “É bom que a gente chame a consciência de que tudo tem limite. E ontem (quarta passada) se chegou ao limite do que não deve ser feito”, disse. Sabemos que o governo está desde o início do ano na luta para fechar as contas públicas no azul. Está em discussão, inclusive, a diminuição da meta do superávit primário (a economia para pagamento dos juros da dívida pública) para algo mais atingível (de 1,2% a 0,8% do PIB). E o momento não está bom também para o lado das receitas: a arrecadação de impostos e tributos caiu 4% em maio em relação ao mesmo mês de 2014, para R$ 91,5 bilhões.

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Há quem argumente que a extensão do reajuste não impactaria as contas do governo imediatamente, mas a situação no país não deve melhorar tão logo. Esse vai ser um ano perdido em termos econômicos. O Relatório Trimestral de Inflação, um documento divulgado pelo Banco Central que expõe expectativas do órgão para a economia está bem mais pessimista. Primeiro porque projeta que a inflação só vai convergir para o centro da meta (4,5%) em 2017. Isso mesmo, 2016 também será um ano caro! Em sua pesquisa junto ao mercado, a projeção média para a inflação subiu de 7,9% para 9,1% em três meses. Só os preços administrados, aqueles controlados pelo governo (energia e combustível, por exemplo) devem subir 13,7% em 2015. Considerando apenas o reajuste da conta de luz a alta é de 43,3% em média.

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Para o PIB (soma das riquizas produzidas no país), a expectativa dos analistas ouvidos para o relatório Focus já chega à queda de 1,45% em 2015 e crescimento de apenas 0,7% em 2016. E estamos apenas na metade do ano.

Um professor com quem conversei comentou que o aumento de preços visto desde o ano passado se deve muito aos serviços e não tanto à indústria. Ou seja, o pãozinho francês e o sabão em pó podem até estar um pouco mais caros, mas esse aumento foi beeeem menor do que o desembolso no cabeleireiro e com o salário da faxineira.

Enquanto os preços aumentam, o salário do trabalhador está diminuindo. A última Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE mostrou que o salário médio das pessoas caiu 5%. Em maio de 2014 ele era de R$ 2.229,28. Um ano depois, estava em R$ 2.117,10. Isso sem contar o desemprego: a taxa de desocupação subiu de 6,4% para 6,7% em maio, a maior desde agosto de 2010. Vale comentar que essa pesquisa é menos abrangente que a Pnad Contínua, cuja taxa de desemprego bateu 7,1% no primeiro trimestre do ano.

Resumindo, vivemos no Brasil uma semana de lamentações, desentedimentos e decepções. É triste não apenas ver pessoas tão jovens perderem a vida e interromperem seu futuro, mas também ver um cenário preocupante para os jovens que ficam.

Um recadinho rápido: vou tirar uns dias de descanso (todos merecem, né?), período em que não vou publicar a coluna. Mas não se preocupem, logo, logo estarei de volta com as notícias do mercado, beijão!

Crédito das fotos: Shutterstock

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

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Naiara Beltrão

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