Cobranças demais e pouco tempo atrapalham independência financeira

Cobranças demais e pouco tempo atrapalham independência financeira

“Ai, meu Deus! O que é que há? A nega lá em casa não quer trabalhar. Se a panela tá suja, ela não quer lavar. Quer comer engordurado e não quer cozinhar…”. Os versos são do samba “Vá morar com o diabo”, de Clementino Rodrigues, músico que ganhou fama entre as décadas de 30 e 40. Apesar do contexto ser antigo, a música não deixou de fazer sucesso ao longo dos anos, ganhando inclusive novas interpretações de Cássia Eller e Caetano Veloso, já no século XXI. Em mais de uma ocasião, o sambista declarou que não gosta da composição porque a letra maltrata as mulheres, mas não deixou de cantar a música.

O retrato engessado da mulher que é esperada para atendar somente às atividades domésticas já amarelou. E por mais que a velha percepção ainda permeie os argumentos e pensamentos velados de muitos, o perfil feminino mudou. Desde o empoderamento no mercado de trabalho, até as responsabilidades que assume na família e a autonomia para lidar com as próprias finanças, a mulher vem acumulando conquistas e dilemas ao longo do tempo.

Na visão da planejadora financeira Gisele de Andrade, as mulheres das novas gerações estão sendo mais preparadas para assumirem cargos de maior relevância, mas no contexto atual o público feminino vive sob diferentes tipos de pressão. “Ela é cobrada para ocupar o mesmo lugar que os homens no mercado de trabalho. Quando tem filhos, passa a viver por eles. Ela acaba sem tempo para cuidar de si e estudar os instrumentos para cuidar da educação financeira, e isso inclui a formação do patrimônio”, avalia. A especialista ressalta ainda a importância de reverter essa cultura para que a mulher não se sinta desaminada pelo cansaço na hora de cuidar das próprias finanças.

Como amenizar as cobranças

O excesso de responsabilidades também se traduz em números. Pesquisa por amostragem feita recentemente pelo instituto Sophia Mind, com base em entrevistas feitas com mais de mil mulheres em todo o país, apontou que 42% delas contribui para o pagamento das contas em casa. Além disso, mais de 60% é responsável por controlar o orçamento da família.

Para equilibrar essa balança, a professora Regina Madalozzo, especialista em economia de gêneros, pondera que uma das mudanças necessárias é o equilíbrio das responsabilidades domésticas entre homens e mulheres. “Eu espero uma divisão mais igualitária. Não são decisões difíceis de serem tomadas, mas elas exigem muita responsabilidade. Dentro de casa, vejo que ainda estamos caminhando muito lentamente neste sentido, o peso para mulheres e mães em geral ainda é muito grande”.

O planejador financeiro e sócio da Trevisan Consultoria, Roni de Oliveira Franco, enxerga de um modo positivo as mudanças que vem acontecendo. “Até o fim desta década nós teremos um envolvimento ainda maior das mulheres no mundo dos negócios e também decisões de família de forma compartilhada com o marido”. Ele faz a avaliação com base em questões recentes, como a presença de mulheres em cargos de liderança de empresas de tecnologia nos Estados Unidos. “A mulher hoje entra em segmentos de mercado que antes não tinha participação”, completa.

divisão de tarefas domésticas

Os desafios da formação

A professora Regina Madalozzo contextualiza ainda as diferenças da criação entre os gêneros e a forma como isso impacta na relação que as mulheres têm com o dinheiro. “Somos criadas para sermos cuidadosas, mais conservadoras, para estarmos sempre protegidas. As mulheres acabam sendo mais cautelosas na hora de tomar riscos, tanto para investir, quanto para empreender. Elas começam com investimentos e empreendimentos menores e vão construindo um crescimento controlado”, avalia.

Ela analisa ainda que a consequência deste comportamento tem os dois lados da moeda. Ao passo que a mulher se priva de oportunidades de ganhar muito dinheiro rapidamente, por evitar tomar grandes riscos, por outro acaba se protegendo de grandes prejuízos que podem acontecer ao assumir um risco elevado. A especialista acrescenta ainda que os efeitos disso aparecem também no mercado de trabalho. “Tem também a questão da educação que é dada para lidar com a competição. Alguns estudos mostram que as mulheres desempenham muito bem as funções que lhes são atribuídas no trabalho, mas muitas delas desanimam quando são colocadas em um ambiente de competição”.

Aliado a este contexto da educação diferente para cada gênero, ela apresenta um dado que mostra que ainda há desequilíbrio no mercado de trabalho entre os dois sexos. “Nos últimos dez anos o Brasil ainda manteve uma diferença salarial de aproximadamente 17% entre homens e mulheres, um percentual bem similar ao dos Estados Unidos”.

Valorização do patrimônio

A questão do comportamento mais conservador na hora da tomada de risco pode contar como uma vantagem na hora de organizar a vida financeira pessoal. A planejadora Gisele Andrade avalia que muitos dos percalços que passamos vem de uma cultura que valoriza mais o consumo do que o sacrifício que temos para conquistar o dinheiro.

“As pessoas têm complexo de ser pobre, querem aparentar ter dinheiro. Se você aceita pagar R$ 600 para um encanador consertar um furo, em um serviço que ele gasta meia hora, ele está ganhando um salário de executivo. É preciso pensar no custo das coisas pela hora trabalhada”, exemplifica.

Ela completa ressaltando a mesma ponderação e equilíbrio na hora de lidar com o crédito, com o dinheiro que é guardado para o futuro e com as despesas pessoais. Se a mulher fizer uma avaliação de autoconhecimento sobre as próprias finanças, sobre o que ganha, o que gasta e o que precisa ser ajustado, ela deixa de depender de terceiros para cuidar do dinheiro, mesmo quando passa por situações complicadas financeiramente. “Se estou organizada, os imprevistos me atingem de uma maneira menor, é um problema a menos que eu tenho”, finaliza.

Seja no mercado de trabalho, na autonomia financeira ou na posição que ocupa dentro da família, a realidade feminina é de uma constante luta por conquistas e equilíbrio. Com tantas mudanças ao longo do tempo, é preciso que a mulher se veja livre dos clichês para sentir-se mais segura quanto à forma de conduzir a vida profissional e financeira. Discutir o assunto nunca é demais e este espaço sempre estará aberto no Finanças Femininas, afinal, essa luta é de todas nós, meninas!

Desabafa!

Se você tem alguma dúvida sobre sua vida financeira ou uma boa história sobre dinheiro para contar pra gente, mande através do formulário abaixo.

Dúvidas enviadas através desse formulário não serão respondidas individualmente por e-mail.

O conteúdo da sua mensagem poderá ser utilizada em nossas matérias. Caso você prefira não ter o seu nome identificado, é só selecionar a opção "Mensagem Anônima".

personNome

personSobrenome

Mensagem anônimainfoSim

local_post_officeEmail:

commentMensagem: (obrigatório)

Este conteúdo foi útil para você?

Financas Femininas

Finanças Femininas

Sua independência financeira depende de você, com uma ajudinha nossa.

close