Os principais efeitos da queda do Brasil para grau especulativo

Os principais efeitos da queda do Brasil para grau especulativo

O Brasil perdeu grau de investimento na avaliação da agência de rating Standard and Poor’s. A decisão já era esperada, mas acreditava-se que não aconteceria tão rápido. Em linhas gerais, a nova queda na classificação de risco tira do país o selo de “bom pagador” e coloca-o na categoria especulativa, ou seja, o patamar em que a agência considera grande o risco de calote do país quanto ao pagamento de dívidas.

No fim de julho deste ano, a agência já havia dado uma perspectiva de nota negativa para o país, o que serviu de indicativo para um corte posteriormente. Em seu posicionamento sobre o rebaixamento da nota, a agência deixou claro que o orçamento deficitário elaborado pelo governo para 2016 teve grande peso na decisão. A S&P avalia que os desafios políticos do Brasil continuam a crescer e que a perspectiva ainda é negativa, ou seja, há risco da nota do país cair ainda mais.

Na economia global, existem três principais agências que conferem avaliações para o risco de investimento em cada país: Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch. Essas duas últimas ainda conferem grau de investimento ao país. A perspectiva negativa da S&P é o que mais preocupa, pois pode levar as demais agências a seguirem o mesmo caminho, segundo avaliação da Bloomberg.

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Na visão do professor de economia da IBE-FGV, Mucio Zacharias, o governo confundiu transparência com negligência. “É como você ter uma dívida hoje com o banco, pegar as suas contas e levar ao gerente pedindo a ele ajuda para fechar tudo no azul, porque você não sabe o que fazer. Não cabe a ele essa função. Foi o mesmo que o governo fez, entregou as contas para o Congresso sem saber o que fazer, a agência olha para essa situação e percebe que o país não tem credibilidade”, comenta.

O especialista avalia que a situação afeta várias frentes. “Isso significa a perda de credibilidade do empresariado, perda de credibilidade da pessoa física – que não entende o que está acontecendo – também dos investidores externos”.

Investimentos

De um modo geral, um dos efeitos mais impactantes no rebaixamento da nota para grau especulativo é o prejuízo para a qualidade dos investimentos feitos no país. Quando um país recebe um selo de bom pagador, isso transmite credibilidade ao mercado e indica que o território oferece boas condições e segurança aos investidores. Por outro lado, quando este selo é tirado, isso indica que o risco de investir naquele país é maior. A confiança é abalada, os investidores passam a ter receio de calote e podem ficar receosos em investir no país a longo prazo.

Em contrapartida, um efeito colateral do rebaixamento, é o aumento da taxa básica de juros do país, visando tornar o investimento em dívidas públicas mais interessante. O resultado disso é a atração de investidores também especulativos, interessados em manter o dinheiro aplicado somente enquanto os retornos são altos. “A qualquer soluço de mudança de cenário, esses investidores retiram o dinheiro, ou seja, mera especulação”, completa o professor.

standard-poors-Michael-Rosebrock-ShutterstockMichael Rosebrock/Shutterstock

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A elevação dos juros também tem um forte impacto na economia brasileira. Segundo o professor, o custo de cada 1% de elevação na Selic é de R$ 10 a R$ 15 bilhões. A título de comparação, um programa governamental gigantesco como o Bolsa Família tem custo de R$ 20 a R$ 25 bilhões, ou seja, 2% de elevação na Selic já são suficientes para bancar o Bolsa Família, de acordo com o especialista.

Para se ter uma ideia, fundos de investimento e pensão bilionários precisam que pelo menos duas agências confiram grau de investimento a determinado país para que eles apliquem seus recursos. Neste caso, se o Brasil cair para grau especulativo na avaliação de mais uma agência, esses fundos tendem a tirar seus recursos do país.

Dólar, inflação, custos das empresas e demissões

A decisão da S&P fez o dólar disparar nesta quinta-feira. Pela manhã, o dólar comercial chegou a R$ 3,90, mas perdeu força no começo da tarde. Por volta de 13h20, estava cotado em R$ 3,85. Na opinião do professor, o dólar deve facilmente ultrapassar os R$ 4 e o rebaixamento vai piorar a instabilidade cambial.

O efeito imediato disso é o aumento da inflação, que já está em patamares elevados. Para as empresas multinacionais, que dependem muito de recursos externos, os custos ficam mais caros. As nacionais, por sua vez, aumentam suas despesas com os juros mais altos, a inflação e o aumento de impostos. “Para conter esse arrocho, é possível que as empresas entrem em uma onda de demissões”, finaliza.

Fotos: Shutterstock

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