Os prós e os contras dos diferentes tipos de mesada

Os prós e os contras dos diferentes tipos de mesada

*Liao Chieh

Enquanto lia uma matéria que dizia que os pais podem introduzir uma semanada (versão semanal da mesada) para crianças a partir de 6 anos, minha ficha caiu: a minha filha “frágil e dependente” não é mais um bebê. Ela vai completar 6 anos em poucos dias e já vai ter o direito de receber dinheiro. Ainda em choque e pensando: “Nossa, ela já largou a mamadeira há quatro anos”, fui pesquisar mais sobre o assunto.

Minha primeira constatação é que há farto material de qualidade disponível na internet, tanto textos quanto vídeos. Não pretendo ficar repetindo conceitos que você consegue achar facilmente ao digitar mesada em seu smartphone. Entre artigos, matérias, blogs e conversas com outros pais, dois tópicos me saltaram aos olhos: bônus x desconto e aplicação de juros. O motivo de ter chamado a minha atenção é o fato de você encontrar bons argumentos para os extremos opostos desses dois tópicos.

Bônus x Desconto

  • Incentivar meus filhos a realizarem tarefas rotineiras para ganharem a Mesada. Quem defende o SIM: o livro Smart Money Smart Kids foca logo na primeira lição a importância de as crianças fazerem a conexão entre trabalho e dinheiro, pois só recebe quem merece. Quem defende o NÃO: Mesada não é salário, então não se vincula tarefas domésticas e notas escolares a uma remuneração pré-acordada, pois bom comportamento e estudo são obrigações, e não moeda de troca. ENTRETANTO, ambos os lados concordam que os jovens podem buscar uma renda extra em atividades como levar o cachorro do vizinho para passear, arranjar um trabalho temporário nas férias ou desenvolver um aplicativo e publicá-lo na Apple Store, pois incentivam o espírito empreendedor.
  • Vincular a mesada a uma lista de desobediências, com desconto para cada marcação negativa. SIM: aplica-se a Terceira Lei de Newton, também chamada de Princípio da Ação e Reação, na educação financeira da garotada, mostrando que os atos deles geram consequências, nem sempre positivas. NÃO: Substitui-se o reforço positivo pela punição, e faz com que a criança suprima suas emoções ou sentimentos em troca de dinheiro, podendo prejudicar o seu desenvolvimento emocional.
  • Acordar um valor inferior ao necessário, e a cada comportamento adequado a criança ganha um acréscimo. SIM: uma mescla dos dois itens acima, mas enfatizando o reforço positivo. NÃO: ainda faltaria agregar os comportamentos inadequados e definir as punições pecuniárias, para mostrar à criança desde cedo A Vida Como Ela É.

Aplicação de Juros

  • Conceder empréstimo ou adiantamento. SIM: dar crédito à criança e cobrar juros ensina o valor do dinheiro no tempo e os malefícios causados pelos juros a serem pagos. Ao receber um valor menor no mês seguinte (com “desconto em folha”), a criança aprende logo cedo e sente na pele as dificuldades dos milhões de adultos endividados. NÃO: nunca adiantar nenhum valor, pois a criança precisa entender a importância da paciência, e saber esperar para comprar o que deseja. Dar crédito logo na infância pode mal acostumar este futuro jovem adulto que terá à disposição cartões de crédito e limites no cheque especial.
  • Incentivar a criança a poupar uma parte. SIM: mostra na prática aos seus filhos que eles podem realizar desejos grandes, que envolvem quantias maiores que a mesada. SIM: ensina a maravilha que é deixar os juros compostos trabalharem a seu favor. Se a criança é muito nova, coloque juros altos como 5% ou 10% por semana, para que ela veja claramente a acumulação gerada. Para crianças já com alguma base de conhecimento matemático, use juros de mercado ou produtos financeiros de verdade (Conta corrente, Poupança, Fundo de investimento, etc.) para que ela se acostume. NÃO: neste item não achei nenhum especialista financeiro contra o hábito de poupar. Ainda bem!
  • Pedir emprestado à criança. SIM: mais radical que o item anterior, o pai pede emprestado um pequeno valor no meio do mês a juros altos (os mesmos 5% ou 10% por semana), para mostrar aos filhos as vantagens de ser um investidor, e não um tomador de crédito. E quem defende o NÃO: radical demais! Não quero que o meu filho seja um banqueiro, ou pense como um.

mesada-filhos

E para qual lado deve seguir o trem da educação financeira? É difícil saber, então vamos tentar nos inspirar em um caso empírico e real.

Vocês podem estar pensando que como eu sou especialista em educação financeira, palestrante de finanças pessoais e tenho as minhas próprias finanças bem organizadas, fruto dos meus estudos e trabalho, bastaríamos replicar o modus operandi dos meus pais, já que funcionou, certo? Ledo engano!

Os meus pais começaram pobres, sem instrução financeira alguma, e quando abriram um comércio nos anos 80, guardavam o dinheiro das vendas e os cheques pré-datados em uma velha pasta executiva. A regra da minha mesada era extremamente simples, pois minha mãe apenas disse uma vez: “Vem cá, sempre que necessitar de dinheiro, a senha da pasta é 2-2-2. Pegue o que precisar”. Quer regra mais fácil de entender e aplicar que essa?

Tenho certeza absoluta que ela seria duramente criticada pelos especialistas dos artigos, livros e blogs que eu li, pois em uma frase ela conseguiu quebrar todos os princípios de governança, controle, conflito de interesses, imposição de limites nas crianças e alfabetização financeira. Entretanto, essa libertinagem monetária que poderia ter quebrado o comércio deles e a minha cabeça gerou justamente o efeito oposto em mim. Entendi na época que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, como diria o tio do Homem-Aranha, Benjamin Parker.

Fica muito claro que não existe uma regra universal para educar financeiramente os seus filhos através da mesada. As técnicas, as dicas de especialistas, o tipo de mesada escolhido e as condições precisam ser personalizadas, levando em conta as características dos seus filhos, tais como a maturidade e o senso de responsabilidade, o contexto em que eles vivem, o nível de conhecimento matemático, entre outros pontos.

Em muitos casos, a consciência financeira dos pais é ainda mais importante. Quais exemplos você está dando para os seus filhos em termos de consumo consciente? Quanto você investe todo mês para proporcionar tranquilidade financeira à sua família no futuro? Você tem uma reserva financeira para situações de emergência? Tenha certeza que essas respostas, boas ou más, influenciarão os hábitos financeiros dos seus filhos, muito além da mesada.

Quanto à minha filha, vou seguir meus conhecimentos financeiros, minha razão e minha intuição. Daqui a alguns anos poderei compartilhar o que fiz. Por enquanto, vou pagar os recreadores da festinha de aniversário de 6 anos!

Autor: Liao Yu Chieh, CFP é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF). E-mail: liao@4evergreen.com.br

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do Finanças Femininas ou do IBCPF. O site e o IBCPF não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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Fotos: Shutterstock

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