Por que elas decidem não ser mães

Por que elas decidem não ser mães

Muitos são os motivos que levam mulheres a decidirem não ser mães. Em um universo feminino cada vez mais amplo – social, profissional e sexualmente -, são diversos os fatores que podem falar mais alto do que o desejo de ter filhos. A priorização de outros sonhos, a falta de identificação com o projeto da maternidade, o divórcio, questões familiares e medos são apenas alguns dos pontos colocados pelas psicólogas Dorli Kamkhagi, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-FMUSP), e Claudia Stella, professora do Mackenzie.

Aos 52 anos, a profissional de marketing, Cláudia Palladino, é uma das mulheres que tomaram esta decisão. “Sou de uma geração na qual as mulheres já haviam entrado no mercado de trabalho, mas casamento e filhos simplesmente faziam parte da vida. Quando me casei, aos 23 anos, não tinha um problema com o fato de ter filhos, mas era um projeto distante. Não queria pensar no assunto naquele momento.”

A ideia da maternidade como mais um papel a ser cumprido acompanha a maior parte das mulheres ao longo da vida. Embora a inserção no mercado de trabalho já seja de longa data e tenhamos conquistado o direito de morar sozinhas e levar uma vida de solteira por muito mais tempo, a decisão de não ter filhos ainda suscita muitos olhares tortos.

“Existe toda uma pressão social, familiar e até mesmo midiática que faz da maternidade um lugar quase idealizado. Quando a mulher não cumpre o que a sociedade espera dela, por mais que esteja amadurecida em sua decisão, é como se houvesse uma falha, ou melhor, um ‘falta’. É como se não obedecesse os valores da cultura em que está inserida”, explica Dorli.

Até perto dos 30 anos, Cláudia se sentiu mais cobrada pelo adiamento da maternidade. “Não pela minha família, que sempre me respeitou, mas por diversas pessoas que vinham me fazer perguntas como ‘e aí, quando chega a criança?’. Vejo que até hoje as mulheres mais novas enfrentam esses questionamentos, quando quase ninguém faz essas perguntas aos homens.”

Quando percebeu que seu casamento estava se enfraquecendo, a consciência de que aquela não era a hora ideal para pensar em filhos falou mais alto. “Casamento é como um jogo: queremos entrar para ganhar, mas sempre corremos o risco de empatar ou perder. Quando chegou a hora de pensar realmente no assunto, meu relacionamento já não andava muito bem e eu não queria colocar uma criança em uma estrutura familiar que estava se rompendo.”

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Sonhos que vão além da maternidade

Com os papéis sociais menos engessados, os sonhos de muitas mulheres não passam mais pela ideia de ter filhos – segundo o Censo 2010, 14% delas não pensam em engravidar no País. Essas mudanças sociais cada vez mais põem em xeque a visão da maternidade como um fator puramente biológico.

“Hoje sabemos que a maternidade é muito mais um constructo social e cultural do que biológico. Porém, a pressão social utiliza desse argumento, incluindo falas como ‘uma mulher sem filhos é uma mulher pela metade’. Aqui é importante ressaltar que não existe ser humano completo, o que buscamos é a plenitude nas relações que temos, com família, amigos e amores”, defende a psicóloga do Mackenzie.

Embora a ideia de ter filhos nunca tivesse sido abandonada por Cláudia, esse sonho ficou secundário dentre todos os outros que nutria. Em seu segundo casamento, ganhou uma enteada com quem mantém ótimas relações e matou parte da vontade de conhecer a maternidade. Em 2009, depois de anos atuando na área de comunicação corporativa, decidiu que era hora de dar um novo passo na carreira. Após terminar o mestrado, passou dois anos trabalhando no mundo acadêmico e, em 2011, abriu a própria empresa, especializada na prestação de serviços de comunicação.

Como lidar com a decisão de não ter filhos

“Questionei a minha decisão em diversos momentos. Perto dos 40 anos, pensei em ter um filho sozinha, mas depois outras coisas chamaram mais a minha atenção”, conta Cláudia. Nesse período, a profissional, estava no auge de sua vida profissional, tocando a recém-inaugurada empresa e embarcando em um novo relacionamento, com quem permanece até hoje.

“Não tive filhos, na verdade, porque não encontrei a circunstância que me permitisse lidar com isso. Olhando para trás, vejo que fiz bem ao tomar essa decisão. Nós não somos apenas um corpo, somos também mente e alma – e dá para ser feliz de diversas formas, nos papéis de filha, profissional, esposa, irmã…”, defende Cláudia.

Dorli explica que as dúvidas acompanham muitas mulheres que optam por não ter filhos, mas que elas estão cada vez mais confiantes e confortáveis com a decisão. “Há, muitas vezes, um conflito enorme entre o desejo de não ser mãe, o ‘dever social’ e o lado biológico do corpo, que tem uma idade para procriar. Por outro lado, hoje, as mulheres se sentem mais livres para investir seu tempo, afeto e dinheiro naquilo que desejam e isso lhes dá uma posição mais confortável nestas decisões. Mesmo que o preço seja caro.”

A psicóloga do Mackenzie aconselha um processo de autoconhecimento para resistir às pressões e encontrar o bem-estar com as próprias decisões. “Uma mulher consciente de suas vontades, limitações e potencialidades pode lidar melhor com as pressões sociais. Assim, devemos optar por aquilo que acreditamos ser o correto em nosso contexto e conviver com pensamentos e opiniões diferentes, entendendo que a maternidade vai fazer parte da vida de muitas mulheres e de muitas outras não.”

E os relacionamentos…

Nos relacionamentos de Cláudia, a decisão de não ter filhos sempre foi consensual. E essa é uma escolha cada vez mais comum entre os casais brasileiros. Segundo dados do IBGE, a proporção de casais sem filhos subiu de 15,2% para 20% entre 2005 e 2015.

Ainda assim, esta escolha pode ter impactos marcantes nos relacionamentos. “Hoje, os casais podem ter outros planos, além da maternidade, e viver uma relação muito prazerosa. Essa decisão, entretanto, pode impactar a relação se o parceiro desejar filhos. Neste sentido, o casal deve rever seus pactos ou talvez a própria relação”, defende a psicóloga do Mackenzie. Para Dorli, é essencial que as decisões sejam discutidas a dois e busquem contemplar os desejos de ambos.

 

Fotos: Shutterstock

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