Presente de grego: Entenda como a crise na Europa pode afetar o Brasil

Presente de grego: Entenda como a crise na Europa pode afetar o Brasil

A crise da Grécia já se arrasta há um bom tempo, mas desde a noite de domingo ganhou contornos ainda mais preocupantes e têm ganhado destaque nos noticiários do mundo inteiro. De um modo geral, a Grécia deixou de pagar uma dívida de 1,6 bilhão de euros com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A população do país, por sua vez, votou contra as medidas de austeridade impostas pelos credores para oferecer um novo acordo. Com o apoio popular, o primeiro-ministro do país, Alexis Tsipras, ganha mais força para batalhar por um acordo mais favorável. Na outra ponta, os países europeus temem que a concessão de mais verba por parte do FMI seja um mau exemplo para outros países devedores, ou seja, o impasse pode resultar na ruptura da Grécia com a União Europeia (Entenda mais sobre a crise grega aqui).

Resumida a situação geral do gregos, vem a pergunta que deve estar passando pela cabeça de muita gente: de que forma essa crise na Europa pode afetar o Brasil? A má notícia é que a bagunça que está acontecendo por lá pode respingar aqui, o que certamente é preocupante tendo em vista o momento vivido pela economia brasileira. No entanto, é válido ressaltar que a crise financeira pela qual a nossa economia passa está longe de encontrar-se no mesmo patamar de gravidade enfrentado hoje pela Grécia. Quem traz uma análise sobre o assunto é o professor de economia da IBE-FGV, Mucio Zacharias.

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Impactos imediatos

Na visão do especialista, o Brasil deve sofrer um impacto por tabela, caso não seja firmado nenhum acordo em breve. Na avaliação dele, o efeito mais visível seria uma nova instabilidade cambial. “Os governos da Espanha e da Alemanha devem trabalhar no sentido de socorrer os bancos de seus países que estão sem liquidez, acho que será a resposta que eles vão dar para garantir que os bancos não quebrem. Isso gera uma instabilidade cambial que pode respingar no Brasil”, avalia. Vale ressaltar que antes da crise, a Grécia recebeu muito investimento de países europeus, especialmente da Espanha. Para quem não sabe, a crise política e financeira da Europa tem sido um dos fatores importantes para a valorização do dólar americano nos últimos tempos. Ou seja, o agravamento do cenário europeu pode implicar em alta da moeda americana.

Por outro lado, o professor não acredita que a crise grega possa trazer reflexos para a balança comercial brasileira. A questão foi levantada porque o Brasil exporta commodities para o mercado europeu. “No contexto atual, os preços para os exportadores não estão muito bons e o Brasil tem dados passos curtos neste sentido. Além disso, a crise na Grécia não vem de hoje e a balança comercial já absorveu essa situação. Se fosse há uns cinco anos, teria um impacto avassalador, mas hoje essa crise está mais cadenciada”, comenta.

grecia

O Brasil será a nova Grécia? 

Na visão do especialista, por mais que nossa situação não seja favorável, o contexto brasileiro está longe de se igualar ao da Grécia. Neste sentido, ele faz alguns paralelos entre os diferentes contextos e as lições que o governo brasileiro precisa tirar diante do quadro dos gregos. “Os indicadores de orçamento por lá sempre estouram, aqui também estão sempre estourando, a diferença é que o Brasil, ao contrário da Grécia, tem muito mais reservas financeiras. A Grécia tinha criado alguma reserva só no turismo, mas gastou muito nos últimos anos sem fazer reserva. O Brasil tem reservas suficientes e condições de desenvolvimento muito superiores”, explica.

Apesar do nosso país estar distante do cenário dos gregos, o especialista faz a ressalva de que nos últimos três anos os gastos públicos subiram muito, os juros da dívida pública estão crescendo e não há quase retorno algum. “As obras estão paradas e isso é má notícia, não são as condições normais de um país em desenvolvimento”, acrescenta. Somado a isso, ele pontua ainda que a falta de um acordo na Grécia poderia piorar ainda mais o cenário de falta de credibilidade nos países em crise.

“O grau de investimento do Brasil está no limite. Não pode mais existir nenhum deslize, senão o país perde nota em investimento e isso piora muito as coisas. Se isso acontecer na Grécia, os olhos se voltam para a América Latina: Brasil, Argentina e Venezuela”, avalia. Na visão do especialista, o esforço maior a ser feito neste momento é impedir que a crise política brasileira se agrave, tendo em vista que as incertezas políticas abalam diretamente a confiança dos investidores. Neste sentido, ele lembra que no caso da Grécia, por mais que a situação seja mais grave, o governo daquele país tem o apoio da população e isso faz toda diferença na trajetória para a recuperação deste momento de crise. No Brasil, em contrapartida, o índice de rejeição ao governo é o maior desde que o país retornou ao regime democrático.

Para finalizar, o economista acredita que um acordo deve sair nos próximos dias e avalia que o FMI deve optar por ceder um pouco mais, a despeito da contrariedade de outros países da zona do euro. “As condições que foram impostas são impraticáveis. Se houver alguma conivência (do FMI) ou condição de imaginar que algum prejuízo possa ser absorvido, os ânimos se acalmam e há alguma estabilidade”, finaliza.

Crédito das fotos: Shutterstock

 

*Matéria atualizada às 17h35 de 07/07

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Karina Alves

Jornalista e editora de conteúdo do Finanças Femininas. Já trabalhou em jornais impressos, online, rádio e com produção. Tem fascínio pela junção entre economia e psicologia, procura explorar cada vez mais esse universo e busca usar esse aprendizado para ajudar as pessoas a levarem uma vida financeira mais saudável! Contato pelo karina@financasfemininas.com.br

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