Pressionado a reduzir gastos, governo recorre à ‘Uber’ público

Pressionado a reduzir gastos, governo recorre à ‘Uber’ público

*Naiara Bertão

Bom dia, pessoal.

Em tempos de vacas magras, até o governo está cedendo a ideias ‘Uberianas’ para conseguir economizar. Criou um aplicativo para transportar servidores federais via frota terceirizada – hoje cada órgão público tem seus veículos próprios. O ‘Uber’ do governo – como alguns tem chamado a iniciativa – é mais uma tentativa de conter os gastos públicos. A expectativa é economizar cerca de 20% do valor total gasto atualmente com frota, reduzindo-o de R$ 200 para R$ 120 milhões por ano.

A economia parece pequena se comparada à meta arrojada de cortar R$ 70 bilhões em gastos públicos em 2015. Mas, se colocada ao lado de outros esforços, como alterações na contratação de serviços  de segurança, limpeza, manutenção predial, energia elétrica, cartas e encomendas, o valor final economizado vai aumentando.

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Diante do rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência Standard &Poor’s (S&P), a presidente Dilma Rousseff já deu um ultimato no Palácio do Planalto: mais agilidade e urgência no corte de gastos. A reunião da última quinta-feira, após o Brasil perder o Grau de Investimento (selo de bom pagador) foi longa. Além de fechar a torneira, a presidente quer mais coesão da equipe econômica e base aliada, um dos pontos destacados pela S&P no comunicado. A chacoalhada veio após rumores de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, podia deixar o governo diante do ‘boicote’ que estava sofrendo dos demais.

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Levy foi a cara do governo na primeira entrevista a jornalistas após o rebaixamento. De aparência calma e confiante, falou aos jornalistas da bancada do Jornal da Globo, na própria quarta-feira à noite, sobre soluções para voltar a ter o Grau de Investimento. O ministro repetiu várias vezes o possível aumento de impostos para ajudar no equilíbrio fiscal. Essa hipótese, até pouco tempo, era pouco cogitada pela equipe de Dilma e alguns até negavam a discussão sobre ela.

A conta não fecha – O esforço dos Estados e municípios tem sido mais efetivo do que o próprio governo central. O Planalto está com saldo negativo de R$ 8,7 bilhões no acumulado de janeiro a julho. A meta de economia do ano já foi reduzida para praticamente 0% do PIB e o orçamento de 2016 deve ficar, mais uma vez, no vermelho.

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As despesas anuais da máquina pública somam nada menos que R$ 1,2 trilhão e é inegável que há muito que se trabalhar em termos de eficiência dos gastos. Além do ‘Uber’ público, 21 usinas térmicas foram desligadas, o que levará a uma economia de R$ 5,5 bilhões. O governo também conseguiu mudar o calendário de desembolsos de abono salarial e as despesas caíram para menos da metade (economia de R$ 4,2 bilhões em 2015).

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Por outro lado, outras medidas anunciadas causaram desconforto e murmurinhos políticos. Primeiro haviam suspendido o adiantamento do pagamento de 13º salário para aposentados e pensionistas. A repercussão foi muito ruim e a equipe de Dilma voltou atrás e liberou o benefício. Agora, vieram à tona as discussões sobre aumento de impostos, como CIDE, taxação de fortunas, volta da CPMF e a elevação das alíquotas de Imposto de Renda. Até para digerirmos o impacto disso tudo no orçamento familiar vai sair mais caro – o imposto de importação de vinhos e destilados vai subir a partir de dezembro.

Na semana passada, Dilma, em seu discurso de 7 de setembro, admitiu que poderá usar “remédios amargos” para o tratamento contra erros do passado. “As dificuldades e os desafios resultam de um longo período que o governo entendeu que deveria gastar o que fosse preciso para garantir o emprego e a renda do trabalhador, a continuidade dos investimentos e dos programas sociais. Agora temos de reavaliar todas essas medidas e reduzir as que devem ser reduzidas”, disse Dilma Rousseff no pronunciamento. Está dada a largada para mais revisões de gastos, dessa vez nos investimentos e programas sociais.

As pessoas já sentem as tonturas de um regime rígido. Quem perde o emprego tem dificuldade de conseguir seguro-desemprego; quem quer estudar não pode contar com os recursos do Fies; quem quer investir em produção não pode esperar receber dinheiro fácil e barato do BNDES; quem esperava comprar casa com subsídio pode ter dificuldade se a verba do Minha Casa, Minha Vida secar. Mesmo assim, ainda há dúvida se o prato principal também diminuirá de tamanho, o imexível Bolsa Família.

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalha para o Guia Bolso e passou por diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

Fotos: Shutterstock

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