Qual é o papel do pai para criar mulheres empoderadas?

Qual é o papel do pai para criar mulheres empoderadas?

Há mais de um século a psicologia e outras ciências sociais se debruçam sobre o papel do pai na vida dos filhos – especialmente da filha. A maneira que a menina é criada por essa figura influenciará sua fase adulta. Isso inclui desde relacionamentos afetivos até questões como carreira e empoderamento.

Quem é o pai?

Antes, porém, é preciso definir: o que é a figura paterna? Na psicanálise, entende-se que ela é responsável por introduzir as interdições necessárias à vida em sociedade. “Ou seja, aquela que aos poucos vai surgindo enquanto terceiro na relação mãe-bebê e introduz um limite ao desejo infantil de permanecer num lugar pleno de satisfação de desejos”, define Fabiana Esteca, psicoterapeuta de casal e família e doutora em psicologia clínica.

Isso significa que o pai não é, necessariamente, o biológico. Na verdade, não é preciso nem ser homem para representar a figura paterna. Basta que a pessoa seja responsável por conectar a criança à realidade e barre sua busca desenfreada por prazer, para que ela entenda seus limites sociais.

Por isso, diversos estudos já mostraram que filhos que crescem em novos modelos de família – ou seja, criados por um casal homoafetivo, por apenas um dos pais ou por outros familiares, como avós e tios – não têm seu desenvolvimento prejudicado, desde que essa função seja cumprida.

Entretanto, sabemos que esse é apenas o mundo ideal. Na vida real, apesar de todas as conquistas das mulheres, ainda temos pais ausentes, autoritários e superprotetores – e muito disso se deve a construções históricas. “No passado, a figura do pai era autoritária, forte e disciplinadora. Era aquela de relação distante dos filhos, porque sua função era guerrear, prover e cuidar de todos. Por causa disso, era considerada a autoridade máxima e todos da casa eram subjugados a ele. Apesar de se transformar na história, essas características se mantiveram”, afirma Rosana Schwartz, professora e socióloga da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O caminho para desconstruir essa imagem autoritária e distante já está sendo percorrido, mas ainda prevalece em famílias onde os pais não aceitam a divisão de papéis, o que inclui a educação dos filhos.

“Princesinha do papai”

Mesmo quando há um esforço, permanecem alguns traços da criação patriarcal, que podem prejudicar as filhas quando adultas. Por exemplo, quantas vezes você não ouviu um amigo, parente ou até mesmo o próprio pai de seus filhos dizendo que, se algum menino se aproximasse de suas filhas, estaria o esperando com uma espingarda (ou alguma outra arma)? Ou que ninguém faria mal para a “princesinha do papai”?

O excesso de proteção ou “ciuminho” soa meigo, mas pode trazer consequências negativas para o desenvolvimento da menina. “Um pai, ou figura paterna, superprotetor pode gerar medo e insegurança no momento em que a filha vai seguir a vida, como ao sair de casa ou iniciar um relacionamento amoroso”, aponta Fabiana.

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Assim como a superprotetora, a figura paterna autoritária também pode causar grandes prejuízos ao empoderamento da menina e, consequentemente, da mulher que ela se tornará – inclusive sobre sua autoconfiança e capacidade de tomar decisões por si mesma.

“Ou seja, gera uma figura feminina frágil que depende que os outros decidam por ela, que tem medo de agir pela própria cabeça e com dificuldade de discernimento. Numa relação amorosa, por exemplo, ela pode se tornar uma mulher submissa, ou muito passiva”, alerta.

Que horas ele volta?

Apesar de estar no polo completamente oposto, a ausência é igualmente prejudicial. Lembra que a função da figura paterna é impor limites para que a criança possa se conectar à realidade? Isso significa que, quando o pai não está presente, todo o desenvolvimento social acaba afetado – e isso vale para meninos e meninas. “Podemos pensar em uma adulta com dificuldades em cumprir regras, ter disciplina, determinação e responsabilidade com as obrigações”, descreve Fabiana.

Essas características causam impacto até mesmo na carreira, pois terão impacto negativo no desenvolvimento do potencial da adulta. Isso pode ainda gerar dificuldades de se manter em um emprego, assim como respeitar hierarquias no trabalho.

“Quando não conseguimos controlar os impulsos, ficamos reféns e escravos de nossos desejos, o que não combina com emancipação, independência e empoderamento. Só podemos falar em empoderamento quando estamos diante de um indivíduo autônomo e consciente de seus limites”, diz a psicoterapeuta.

Quem é a figura paterna empoderadora

Conforme caminhamos para a desconstrução daquela figura histórica do pai autoritário e provedor, também estamos construindo uma trilha empoderadora para as meninas. “Estamos no meio do caminho. Ainda existe violência doméstica e pais que insistem em estereótipos de gênero, como o desejo de que a filha case cedo. Mas estamos acertando aos poucos, com pais que dividem igualmente tarefas domésticas e entendem seu papel na educação”, pondera Rosana.

Para a professora, a figura paterna empoderadora é aquela que troca os mecanismos disciplinadores do passado pelo incentivo e participação plena.

“É importante não reprimir as brincadeiras e interesses, desde que elas não prejudiquem a criança ou os outros. Ainda hoje, nas lojas de brinquedos, vemos a sessão cor de rosa para as meninas e de super heróis para os meninos. Ser uma figura paterna empoderadora é questionar isso”, defende Fabiana.

Isso não quer dizer proibi-la de brincar de boneca e vestir rosa, mas, sim, apresentar outros universos e possibilidades. “É preciso mostrar que ela pode ir além, levá-la para jogar futebol, apresentar brinquedos eletrônicos, bola e carrinho. Isso fará com que ela escolha por si mesma qual mundo deseja para o futuro”, orienta Rosana.

Para tanto, os pais deverão reconhecer a importância deste empoderamento – só assim se cria meninas que se tornam mulheres seguras, firmes, independentes e que saibam se defender. Sejam estes “pais” o biológico, de criação, mães, tia, tio, avó ou avô.

Fotos: Shutterstock

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