Quando o luxo vira necessidade

Quando o luxo vira necessidade

*Carolina Ruhman Sandler

Não consigo poupar. Esta é uma das frases que mais ouço no meu dia a dia. Recebo centenas de e-mails de leitoras que me contam dos seus esforços para juntar dinheiro, das suas dúvidas e estratégias, mas o problema acaba sendo sempre o mesmo: não conseguem fazer sobrar nada no fim do mês.

No entanto, comecei a perceber uma característica em comum: nunca importa o tamanho do salário. Se você ganha x reais por mês e gasta tudo, quando recebe um aumento, passa a gastar ainda mais. Com isso, entra num ciclo vicioso de inflação de estilo de vida. Quanto mais ganho, mais gasto.

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Outro dia, uma leitora reclamou comigo: “ninguém nunca me disse que eu não podia gastar tudo o que ganho!”. Pois é. Infelizmente, esta é a única forma de juntar dinheiro: gastando menos do que se ganha. Com um padrão de vida ligeiramente inferior ao padrão que o seu salário pagaria.

Eu sei que é difícil. São tantos desejos, sonhos, planos, que quando entra um valor a mais na conta, já temos uma lista de todas as maneiras que gostaríamos de gastar aquele dinheiro. Então como lidar com esse dilema?

Li outro dia algo que me tocou de forma profunda. “Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar certas obrigações. Uma vez que as pessoas se acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com ele. Acabam por chegar a um ponto em que não podem viver sem”, diz Yuval Noah Harari no livro “Sapiens: Uma breve história da humanidade” (recomendo muito, o livro é fantástico). Na hora me caiu uma ficha: o nosso problema é que queremos tanto tantas coisas, que vamos criando uma série de obrigações em nossas vidas.

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É interessante pensar desta forma. Um dia, o celular já foi um luxo. Um carro. Um jantar em um determinado restaurante. Mas nós nos apegamos e nos tornamos habituados a tudo isso. Então uma viagem de férias para um destino bacana deixa de ser um luxo para se tornar o mínimo para acharmos que somos pessoas felizes. Uma tarde de compras. E assim por diante.

O problema é que desta forma a nossa lista de gastos essenciais só cresce. E qual salário no mundo consegue dar conta de tudo isso? É impossível. Ninguém nos disse que não poderíamos gastar tudo o que ganhamos, mas também não nos disseram que não dava para ter tudo o que queríamos. Se você não tem dinheiro para pagar à vista, não tem problema: parcela no cartão.

Entretanto, parcela após parcela, passamos a acreditar que podemos ter tudo o que quisermos: é só parcelar. E deixar de ter algo vira uma fonte de sofrimento enorme. Como assim, não posso ter tudo?

Eu recebo também dúvidas de leitoras que estão extremamente endividadas, e aí vemos o outro lado dessa moeda. Quando o seu salário não consegue mais bancar todos estes sonhos, a sua dívida cresce de forma exponencial. No cartão de crédito, são juros de 450% ao ano; sua vida financeira vira uma bola de neve.

Para sair desse cenário de terror, não tem jeito. É fundamental começar a repensar (e separar) o que é luxo e o que é necessidade. O que é essencial e o que é supérfluo. Sem isso, sua vida vira um poço sem fundo: sempre dá para querer mais e mais. Só não tem conta bancária que dê conta de tudo isso.

*Carolina Ruhman Sandler é a fundadora do site Finanças Femininas e coautora do livro “Finanças femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva). Jornalista, tem 31 anos, é casada e mãe da Beatriz.

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carolinaruhman

Fundadora e CEO do site, coautora do livro “Finanças femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva, 2015). É também palestrante sobre finanças para mulheres e empreendedorismo feminino e palestrou no TEDxSP

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