Quantos anos são necessários para recompor-se de uma tragédia?

Quantos anos são necessários para recompor-se de uma tragédia?

*Naiara Bertão

Olá, pessoal. Tudo bem?

Na semana passada dois fatos chamaram a minha atenção. O primeiro foi a divulgação do balanço auditado da Petrobras, com um prejuízo de R$ 21,6 bilhões em 2014 – o primeiro resultado negativo a empresa desde 1991. O segundo, o tornado que passou pelas cidades catarinenses de Xanxerê e Ponte Serrada.

Apesar das notícias serem de assuntos completamente diferentes, ambas têm o mesmo teor de tragédia e angústia. No caso de Xanxerê, as vítimas não se limitam a quem perdeu a vida no desastre natural, mas abrange também todos os que perderam casas, ficaram sem luz e, por onde olham, veem destruição e falta de esperança.

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Na Petrobras, não foi apenas o dinheiro (R$ 6,2 bilhões em perdas por corrupção) que foi embora com o tornado que passou pela estatal no último ano chamado de Operação Lava Jato. A credibilidade e a dignidade de quem ficou na empresa agora estão sendo postas em cheque a todo momento.

A velocidade com que o tornado se alastrou também impressiona. Em Xanxerê ele não demorou mais de cinco minutos para passar pela cidade de 47 mil habitantes. Na Petrobras, em pouco mais de um ano de investigações já foram deflagradas onze fases e dezenas de pessoas e empresas foram ou ainda estão sendo investigadas por contratos corruptos com a estatal. Na semana passada, um novo fato: a condenação do ex-diretor Paulo Roberto Costa, do doleiro Alberto Yousseff e outras seis pessoas por desvio de dinheiro em obras da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Os dois ainda respondem por ações em outras esferas da Justiça, o que pode aumentar ainda mais suas penas.

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As duas notícias têm suas semelhanças, mas há uma diferença muito grande: Xanxerê é pequena e conseguirá, com planejamento e ajuda de autoridades, ONGs e moradores, a se reerguer. A Petrobras, porém, terá de enfrentar estragos à altura de Nova Orleans, a cidade arrasada pelo furacão Katrina nos Estados Unidos em 2005. Nova Orleans precisou ser posta em pé quase do zero, exatamente o que os dirigentes da Petrobras precisarão fazer a partir de agora com a moral da companhia.

O ano de 2014, enfim, está encerrado. Foram cinco meses de atraso, mas o relatório financeiro auditado saiu. A perda com corrupção foi calculada em aproximadamente R$ 6,2 bilhões, lembrando que foram investigados 31 contratos firmados entre a Petrobras e outras 27 empresas investigadas no âmbito da Lava Jato entre 2004 e 2012.

Além disso, a estatal precisou reavaliar seus ativos para ver se eles valiam, de fato, o que se achava que valiam. A conclusão é que a corrupção, os atrasos em obras, a má gestão e a queda do preço do petróleo no mercado internacional inflou os valores dos ativos em R$ 44,34 bilhões. Ou seja, esse montante foi dado como perda contábil, quando a companhia dá baixa em seu patrimônio, chamado, na linguagem contábil, de impairment. Além da Refinaria Abreu e Lima, outro ativo que entrou nesta conta foi o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

O presidente da estatal, Aldemir Bendine, chegou a pedir desculpas à população por todo o rombo e também por não poder dar dividendos aos acionistas. Mas, não será de choro ou desculpas que Xanxerê e a Petrobras serão reconstruídas. Será de muito suor e trabalho.

A conta dos prejuízos da cidade catarinense ainda não ficou pronta, mas a Petrobras já sabe que terá dois grandes números a olhar daqui para a frente: sua necessidade bilionária de investimentos (US$ 25 bilhões só em 2016), especialmente na exploração do pré-sal, e o alto endividamento (R$ 351 bilhões). Ambas – a cidade e a empresa – têm um longo caminho pela frente. Agora é só torcermos para seus dirigentes fazerem as coisas certas.

Agenda:

Terça-feira (28/04): Pesquisa Mensal de Emprego referente a março pelo IBGE
Quinta-feira (30/04): Nota de Política Fiscal (contas públicas) pelo Banco Central

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalhou em diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana.

Crédito das fotos: Arnaldo Jr/Shutterstock e Agência Petrobras

 

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