Quem deve pagar a conta do restaurante?

Quem deve pagar a conta do restaurante?

Você começa um relacionamento e quer curtir o Dia dos Namorados com uma programação especial. Sua vontade é jantar em um restaurante específico, mas ele está totalmente sem grana e preferia fazer um jantar em casa. Se os dois estão precisando economizar e preferem ficar em casa, tudo bem. Mas e se você quisesse muito ir ao tal restaurante e se dispusesse a bancar a conta? Se o cara ao seu lado estiver tranquilo quanto a isso, maravilhoso. Mas há boas chances dele ficar relutante, fazer cara feia ou, pior ainda, não aceitar de forma nenhuma.

Por outro lado, você pode começar a sair com um cara e estranhar ou achar ruim se ele quiser dividir a conta. Há quem pense que isso demonstra “falta de interesse”. Por mais que esse tipo de estranhamento por parte de homens e mulheres ocorra com frequência, pensando friamente, essa lógica de “obrigações” de cada sexo não soa bem estranha? Por qual motivo um homem não poderia aceitar a divisão de conta com a mulher? E por que razão ele estaria “menos interessado” se preferisse que ela dividisse a conta?

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Citamos o caso do restaurante aproveitando o gancho da data, mas este tipo de situação de “isso é papel de homem, aquilo é papel de mulher” se repete todos os dias, em contextos diferentes. A verdade é que todo esse tabu sobre quem paga o restaurante, o motel e etc vem de uma cultura com raízes machistas. Incomodada com este tipo de situação, a fotógrafa Cláudia Regina escreveu um texto relatando o que acontece quando ela vai a um restaurante acompanhada: a conta sempre é entregue ao homem da mesa.

De um modo sucinto, ela faz uma comparação interessante. Se você vai a um restaurante com uma criança, é óbvio que a conta será entregue a você, tendo em vista que criança ainda não tem condições de sustentar-se sozinha. Mas quando estamos falando de um casal, o garçom está diante de duas pessoas adultas, independentes, com renda e autonomia sobre suas próprias vidas, então qual a razão lógica para entregar a conta ao homem?

Decidindo a conta com racionalidade

Namoro, noivado, casamento, tudo isso é sinônimo de parceria. Rachar a conta por igual ou um pagar mais que o outro deveria ser uma questão norteada pela condição financeira de cada um. O grande problema é que, da forma como a nossa cultura rotula os papeis, é comum o homem bater o pé para pagar uma conta cara em um restaurante – mesmo sem condições financeiras para isso – ou a mulher ficar frustrada em não fazer esta ou aquela programação porque o namorado não aceita que ela pague ou divida a conta, ou ainda achar ruim se estiver ao lado de um homem que não se disponha a pagar integralmente.

A verdade é que o “cavalheirismo” da forma como a sociedade nos ensina a ver, esconde uma série de problemas que estão diretamente ligados às raízes do machismo. Aliás, vale a pena dar uma lida no texto do Alex Castro sobre este tema. Existe uma diferença muito grande entre ser gentil e ser cavalheiro. A gentileza abrange qualquer pessoa, seja homem ou mulher, criança ou adulto, jovem ou idoso. O cavalheirismo parte de uma premissa de dar um tratamento privilegiado à mulher por considera-la mais frágil, portanto, alvo de proteção.

Os anos de luta das mulheres em prol de equilíbrio entre os gêneros estão ai para mostrar que não somos (e nunca seremos) sexo frágil. Ter empatia por uma mulher quando ela sofre com os diversos tipos de injustiças que são colocados para o universo feminino é muito mais importante do que oferecer flores no Dia Internacional da Mulher. Neste aspecto, muita gente pode pensar: “Nossa, mas então o meu marido/namorado não pode fazer nenhum tipo de agrado para mim ou me proteger?”.

Claro que pode, mas como dissemos acima, o que chamamos atenção aqui é para a distinção entre ser gentil e ser cavalheiro. Abrir a porta do carro é um ato de gentileza, desde que seja praticado não só com a namorada, mas também com o amigo, com o parente, com o colega de trabalho, etc. Se o seu namorado for fisicamente mais forte que você e fizer questão de te acompanhar na rua durante a madrugada – na intenção de te proteger –  o ideal é que ele faça o mesmo por um amigo fisicamente mais fraco. Isso é gentileza, não é cavalheirismo.

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Os riscos de “idealizar” mulheres

Restringir essas atitudes somente a mulheres é reforçar conceitos históricos que já estão passando da hora de serem revistos.  O maior mal do cavalheirismo é que ele esconde dois tipos de conceitos que vendo sendo discutidos no ramo da psicologia e merecem nossa atenção: o sexismo benevolente e o sexismo hostil. Os pesquisadores Peter Glick e Susan Fiske, em artigo publicado na Associação Americana de Psicologia, mostram como esses conceitos surgem e o perigo dessa objetificação da mulher como alguém frágil.

“Glick e Fiske mostraram as consequências negativas de atitudes que idealizam mulheres como puras, morais, dignas de pedestais, objetos da adoração masculina, proteção e provisão. Pessoas que reforçam o sexismo benevolente se sentem positivas em torno de mulheres, mas somente quando elas atendem a seus padrões de como ‘as mulheres devem ser’. Sexismo benevolente motiva atitudes cavalheiras que muitas mulheres podem gostar, como um homem se oferecer para carregar caixas pesadas ou instalar o computador novo. Enquanto o caminho do sexismo benevolente pode ser pavimentado de boas intenções, ele reforça uma presunção de que homens possuem mais competências que as mulheres, que os sexistas benevolentes enxergam como maravilhosas, mas fracas e frágeis”.

Esse sexismo benevolente, no entanto, mostra ainda sua faceta hostil quando uma mulher não atende às concepções de ideal.

“…sexismo benevolente ‘recompensa’ mulheres quando elas preenchem os quesitos tradicionais, enquanto o sexismo hostil pune as mulheres que não se enquadram nos perfis tradicionalistas. Ambos os conceitos trabalham juntos para manter as relações tradicionais. Em outras palavras, aja de maneira doce e eles vão te agradar, se imponha e eles te colocam em seu lugar”.

O sexismo benevolente associado ao hostil criam, por exemplo, as concepções que reprimem uma mulher que resolva viver sua sexualidade de forma livre. São os dois conceitos que classificam mulheres entre: “essa é para casar e aquela é só para diversão”. São a partir destes conceitos que vemos os desequilíbrios que acontecem cotidianamente. Quando uma mulher é vítima de pornografia por vingança, quando é apontada como culpada mesmo sendo a vítima de uma violência. Ou ainda, em um contexto distinto, quando um homem se sente desconfortável ao ver a mulher ou namorada ganhando mais do que ele.

Como vocês podem ver, a discussão sobre algo que inicialmente parecia simples – a decisão sobre quem deve pagar a conta – está sistematicamente ligada a questões mais profundas e que interferem tão diretamente no cotidiano feminino. Portanto, se hoje vocês dois pretendem ir a um restaurante, aproveitem a noite sem peso, sem rótulos ou obrigações de “quem paga isso ou aquilo”. Companheirismo e gentileza são sempre bem-vindos, cavalheirismo é dispensável.

Crédito das fotos: Shutterstock

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