Refugiadas da Síria, mãe e filha falam sobre futuro no Brasil

Refugiadas da Síria, mãe e filha falam sobre futuro no Brasil

Quando a refugiada Muna Darweesh fala de seu país natal e antigo lar, ela soa exatamente como a professora de língua inglesa que é. Com palavras doces e comoventes, ela descreveu uma cidade próspera, onde os homens trabalham e as mulheres, em suas próprias palavras, são tratadas como rainhas.

Ouvindo suas histórias, fica difícil imaginar que o antigo lar de Muna, a província de Lataquia na Síria, seja o mesmo descrito por sua filha mais velha, Gawa Aljammal, de sete anos. As memórias mais recentes da menina estão mais parecidas com a situação que acompanhamos atualmente nos noticiários. “Muita, muita guerra e muitas bombas. Toda vez que uma bomba explodia eu precisava tapar meus ouvidos e proteger meus irmãos”, conta a menina.

Não que estas memórias também não tenham abalado Muna, que fugiu da Síria em 2011, no ano que a Guerra Civil contra o ditador Bashar al-Assad, se instaurou no país. Mas ela ainda carrega esperanças de voltar e encontrar sua antiga casa trancada, com alguns móveis lá dentro, do jeito que deixou quando saiu. “Eu pensava em fugir de lá todos os dias, mas se algo assim acontece no seu país, você fica esperando que acabe, mesmo sofrendo”, conta Muna.

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Novo país, nova oportunidade de negócio

Muna chegou ao Brasil em 2013, acompanhada do marido Wessam Aljammal e dos quatro filhos – o mais novo no colo, ainda bebê – buscando por um visto para viver legalmente.

Embora nostálgica, Muna fala sobre a importância de manter os pés no chão e dar aos filhos uma boa vida. “É possível que não dê pra voltar para a Síria. Por isso faço planos e construo minha vida aqui no Brasil”, explica.

Ao chegar à São Paulo, Muna percebeu uma oportunidade de negócio na variedade gastronômica na cidade e, junto com o marido, começou a vender comidas típicas para festas e restaurantes. Para isso, ela teve que se desprender de uma das tradições de seu país. “Lá eu nunca tinha cozinhado para ninguém além de minha família”, conta.

A nova experiência acabou sendo positiva para Muna, que começou a aprender o português e se estabilizar com a família. Mas, em função da crise econômica do país, seus maiores planos têm sido adiados, como a compra da casa própria e de um carro.

Logo, Muna entende a importância de impulsionar seu negócio, tornando-se o principal nome e rosto de sua culinária. Contando com a ajuda de Gawa, praticamente fluente em português, ela divulga seu trabalho na sua página oficial no Facebook e firma parcerias – uma delas é com a ONG Migraflix, que media suas aulas de culinária síria para brasileiros.

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Vivendo mulher e muçulmana no Brasil

“Aqui todo mundo precisa trabalhar, mas a mulher trabalha muito… Mais que o homem”, observa Muna. Passar a trabalhar junto com o marido e ganhar evidência para seu nome foi uma das mudanças na vida dela.

Para a estrangeira refugiada, os homens não respeitam e valorizam as mulheres como deveriam aqui no Brasil. “Você que é brasileira pode achar bobagem o que estou falando, mas percebo um tratamento diferente por aqui”, explica, sem imaginar o quanto é fácil de concordar com isso.

Mas nem Muna, nem Gawa se intimidam com a forma com que as mulheres são cobradas no Brasil. A mãe demonstra aprovação e empolgação quando a filha fala sobre trabalhar duro para ajudar os pais.

“Quando não estou na escola, ajudo minha mãe na cozinha e na Migraflix”, conta a menina orgulhosa. Assim como a mãe, ela também já planejou como será seu futuro no Brasil. “Quero ser jornalista para contar histórias e ajudar minha mãe a comprar as coisas para meus irmãos”, conta.

Mas, ao contrário da mãe, Gawa está decidida que não voltaria a Síria nem se tivesse oportunidade, nem mesmo para fazer uma matéria sobre um futuro utópico de paz em seu país natal. Diante disso, resta a Muna dar a filha o respeito que ela acha que pode faltar na sua vida adulta no Brasil e aceitar sua decisão.

Quando olham para o passado no antigo lar, as duas refugiadas convergem, mas quando pensam no futuro que podem ter no Brasil, as perspectivas são as mesmas para as mulheres dessa família: trabalho e religião são fundamentais para uma vida próspera em qualquer lugar.

“Está tudo bem desde que eu possa levá-la à mesquita e continuar ensinando sobre nossa religião. Somos muçulmanos e é importante mantermos isso pois é o que nos liga à nossa casa e nossa cultura”, explica a mãe.

Fotos: Karoline Gomes

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