Sem body shaming: como mulheres gordas estão driblando as dificuldades ao comprar roupas

Sem body shaming: como mulheres gordas estão driblando as dificuldades ao comprar roupas

Basta sair do corpo considerado padrão para encarar o body shaming – termo que, em tradução livre, significa ter vergonha do corpo. Além dos preconceitos e críticas, mulheres gordas (como elas mesmas preferem ser chamadas) ainda precisam passar estresse na hora de comprar roupas. As poucas lojas que oferecem as peças contam com numerações divergem muito entre si, modelagens que não valorizam as curvas e preços altos.

Infelizmente, não é difícil encontrar relatos. Para a química Laura Medina, comprar calças é uma das piores partes. “Comprar roupa é uma sina para mim. Dependendo da época do ano, até acho coisas legais em uma fast fashion. Mas às vezes, acabo apelando para as feirinha e lojas pequenas de roupas com pegada mais vintage”, conta.

Já a publicitária Roberta Rampini, que usa tamanho 54, sofreu até na hora de comprar uma meia-calça. Quando verificou a tabela de tamanhos da embalagem, de acordo com a marca, o EG lhe serviria. “Não me serviu, a tabela de tamanhos da embalagem não estava certa. Eles simplesmente chutaram um número, achando que não importava”, conta. Além do tamanho, a meia-calça também não considerava o espaço para acomodar a barriga.

“É uma grande ignorância da parte deles, porque garotas gordas usam muita meia-calça. Elas são confortáveis, protegem as pernas de assaduras, disfarçam algo que possa, porventura, incomodar e ajudam a transformar o look de verão em look de inverno”, desabafa.

Na contramão do bodyshaming

Roberta tem uma visão que deveria ser muito aguçada em qualquer empreendedora: a de enxergar oportunidades. Ter sensibilidade para notar os problemas que precisam ser resolvidos é fundamental – e, muitas vezes, ela vem quando se passa por essas questões na pele.

Temos como exemplo Alessandra Almeida e Juliana Lindemann – respectivamente, gerente e estilista da Lollaboo (foto), marca de roupas plus size que traz modelagens mais modernas e ousadas, sem encanar em esconder ou disfarçar as curvas. Elas não encontravam roupas no mercado para si mesmas e, por isso, Juliana acabava costurando para as duas.

“Muitas pessoas elogiavam e sempre diziam que nós deveríamos fazer essas roupas também para vender”, contam. Certo dia, Alessandra recebeu um dinheiro inesperado: um curso que havia pagado à vista foi cancelado, então, ela conseguiu obter o estorno de uma vez só. Como Juliana estava infeliz no trabalho, elas decidiram se unir na empreitada e usar o montante como investimento inicial. “Começamos a produzir totalmente do zero. Na nossa primeira feira, expusemos apenas 30 peças. Vimos ali mulheres e meninas, iguais a nós, encantadas e apaixonadas pelo nosso trabalho. Desde então, não paramos mais”, relatam.

A inspiração para as peças é o próprio estilo de vida das sócias – que lembram que, assim como qualquer mulher jovem, amam se divertir, sair, conhecer pessoas, dançar e amar. “São roupas feitas de gorda para gorda, porque sabemos o que é ser preterida, sofrer preconceito por conta do corpo e não encontrar roupas descoladas e jovens que reflitam a nossa personalidade”, apontam.

body-shaming-roupas-plus-size-mulher-gorda

Pelo direito de amar (e mostrar) o corpo

Encontrar lingeries e peças de moda praia com numeração acima do 48 que sejam confortáveis e sexy é raridade – geralmente, são sutiãs e calcinhas com o único intuito de esconder e disfarçar. Uma das marcas que vem subvertendo este conceito é a For All Types. O nome em si já é um trocadilho, pois é acrônimo de F.A.T. (em inglês, gorda).

“Eu via muitas falhas no mercado, então, decidi que ofereceria lingerie bonitas e confortáveis em tamanhos acima do 48, respeitando as proporções de cada corpo, já que uma mulher pode ter as costas maiores ou os seios maiores, por exemplo”, conta a empresária Bianca Reis, nome por trás da F.A.T.

Ela sabia que era possível unir design e conforto e que, apesar disso, ninguém estava olhando para este nicho. “É muito incrível poder produzir peças que servem em um público que ainda tem muita carência dessas peças”, relata.

Olhar empreendedor

A insatisfação de Bianca com o mercado é tamanha que, raramente, compra roupas para si. E ter conhecimento de causa pode ser determinante para o sucesso de um empreendimento, especialmente os que exploram nichos que são pouco levados em consideração.

“É muito importante se identificar com a causa, pois você, melhor do que ninguém, entenderá as dificuldades”, defende Ligia Molina, professora de gestão da IBE-FGV.

Ligia ensina que um dos grandes segredos é conhecer profundamente seu público-alvo – algo que tanto as idealizadoras da Lullaboo quanto a da F.A.T. entendem muito bem, pois sentem na pele os obstáculos que suas clientes enfrentam.

Segundo ela, tudo começa com um exercício de empatia: quais partes do corpo essa mulher gosta de mostrar? E quais ela não gosta? Daí, é possível partir para uma pesquisa de campo que permitirá entender o que a cliente espera, assim como as melhores formas de chegar nela.

Já como consumidora, Alessandra e Juliana lembram que é importante não aceitar qualquer coisa. “Se a roupa apenas ‘quase serve’, não compre. Se você precisa se apertar, se é desconfortável ou se não faz o seu estilo, mas é o que tem, não consuma. Não aceite menos do que o que você é”, finalizam.

Agradecimentos ao grupo de Facebook Minas Nerds, pelo espaço para discutir a questão.

Fotos: Divulgação

Gostou do nosso conteúdo? Clique aqui e assine a nossa newsletter! 

Desabafa!

Se você tem alguma dúvida sobre sua vida financeira ou uma boa história sobre dinheiro para contar pra gente, mande através do formulário abaixo.

O conteúdo da sua mensagem poderá ser utilizada em nossas matérias. Caso você prefira não ter o seu nome identificado, é só selecionar a opção "Mensagem Anônima".

personNome

personSobrenome

Mensagem anônimainfoSim

local_post_officeEmail:

commentMensagem: (obrigatório)

Este conteúdo foi útil para você?

Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

close