Segura no corrimão que o vendaval só começou

Na coluna Em $uma de hoje a jornalista Naiara Bertão traz um resumo de como anda o PIB de nossa economia e a perspectiva diante da crise econômica. leia mais

Olá, meninas! Na coluna Em $uma de hoje a jornalista Naiara Bertão traz um apanhado de como está o PIB de nossa economia e a perspectiva diante da crise financeira do país. 

Quem nunca ficou desconfiado com alguma coisa? Com o namorado que não deu notícias, com um vendedor de roupas que falou mil vezes que você ficou linda naquela calça e em todas as outras, com o atendente do banco que oferece um super-hiper-top seguro ou mesmo com a sua segurança no emprego? O ser humano é um bicho racional, sim, mas que trabalha e age muito de acordo com sua intuição. E o feeling dos brasileiros hoje nada mais é do que de medo com o restante de 2015.

Já foram três meses e, desde o “Feliz Ano Novo” o que mais escutamos são pessoas falando que não têm dinheiro para nada, ou que estão “segurando os gastos” com medo de demissão, ou ainda que congelaram os planos de trocar de carro ou financiar a casa. O índice de confiança do consumidor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), divulgado na semana passada, está pior do que a época da crise de 2008/2009 e no menor nível em quase 10 anos.

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Essa sensação de desconfiança, porém, não é mérito único dos consumidores. Os empresários também colocaram fortemente o pé no freio e mal estão gastando com o básico da operação. Enquanto o brasileiro está desistindo até de comprar ovos de Páscoa, os empresários já estão demitindo ou congelando a expansão de suas companhias. Os ovos devem ser menores este ano, assim como os frutos que um país colhe de toda a dinâmica ruim da economia.

Os especialistas já preveem recessão para 2015, ao mesmo tempo em que ficam sabendo do pífio desempenho da economia em 2014 – crescimento de apenas 0,1%. A tal desconfiança já começou ano passado – o quarto trimestre o PIB só subiu 0,2% ante o terceiro por causa da agropecuária. Mas, essa desconfiança generalizada vai impactar o país ainda mais este ano.

Para aqueles que ouvem tanto falar de PIB, mas não fazem ideia de como ele funciona, vou explicar. O PIB nada mais é do que a soma de toda a riqueza que é produzida no país durante um determinado período. Na escola nós aprendemos sobre a divisão em setores Primário (agricultura), Secundário (indústria) e Terciário (Comércio e Serviços), certo? Simplificando, os  técnicos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) somam tudo o que esses três setores geraram em riqueza (precificam seus produtos e serviços) e chegam a um número chamado Produto Interno Bruto, o famoso PIB. Essa maneira de olhar o PIB é a chamada ótica da oferta.

agropecuaria-brasil

Há ainda a ótica da demanda (ou de gastos), que subdivide a conta do PIB em quatro: 1) investimentos (que tem o nome assustador de Formação Bruta de Capital Fixo); 2) consumo das famílias; 3) gastos do governo; e 4) balança comercial (diferença entre exportações e importações). Ambas as análises estão corretas e, no meu ponto de vista, são igualmente importantes.

Onde estamos - Ao analisar a primeira, é visível que a indústria tem dado uma rasteira no PIB (queda de 1,2% em 2014), enquanto a agropecuária está fazendo o seu trabalho, mas nada excepcional (alta de 0,4%). Por fim, o resultado só não foi pior porque o Comércio/Serviços, hoje o maior peso da economia brasileira, esteve ainda Ok no ano passado (avanço de 0,7%).

Do outro ponto de vista, é fácil ver que os investimentos estão ‘mal das pernas’, refletindo a queda histórica nos índices de confiança na economia e no governo – em 2014, a Formação Bruta de Capital Fixo (o nome feio que o IBGE dá aos investimentos) recuou para 19,7% do PIB, depois de bater 20,5% em 2013, porcentual já considerado baixo.

Por ter sido ano eleitoral, a máquina pública continuou com sua política expansionista iniciada anos atrás e os gastos do governo subiram 1,3%. O nosso comércio exterior está ruim, não apenas por causa da crise internacional, a quem presidente Dilma Rousseff tanto culpa, mas também por falta planejamento e investimento em produtividade local. Por fim, o consumo das famílias, que tanto puxou o PIB para cima nos últimos tempos, já reflete a falta de dinheiro e a baixa propensão a gastar – só subiu 0,9% em 2014. Vale lembrar que os gringos e brasileiros não gastaram como os especialistas achavam para a Copa do Mundo.

Mas isso, meninas, é apenas o retrovisor. O dado do PIB só olha o passado. Para o presente, 2015, o mercado espera que seja ainda pior: queda de mais de 0,8%.

É hora de testarmos nossa paciência e a capacidade brasileira de dar um jeitinho e resolver rápido esse mal-estar. Mais uma vez eu digo e não deve ser a primeira: “segurem no corrimão, que o vendaval só começou”.

 

Crédito das fotos: AFNR/Shutterstock