Tive síndrome do pânico por causa de emails fora do horário de trabalho

Tive síndrome do pânico por causa de emails fora do horário de trabalho

Já é noite, o celular vibra: é uma notificação de email. Com as mãos trêmulas, você desbloqueia a tela e constata que é mais uma mensagem de seu chefe com uma “urgência” a ser resolvida, apesar de o expediente já ter acabado há horas. Emails e mensagens de WhatsApp fora do horário de trabalho deixam muitas pessoas de cabelo em pé – algumas até desenvolvem transtornos psicológicos, como ansiedade e síndrome do pânico.

Não é à toa que, na França, entrou em vigor uma lei que garante aos funcionários do país o direito de ignorar emails ou mensagens no celular referentes ao trabalho nos horários de folga. Por aqui, porém, a situação ainda não é tão favorável. Muitas mulheres enfrentam a jornada de trabalho e, além de terem que dar conta das tarefas de casa (dupla jornada), ainda precisam aguentar demandas corporativas no escasso período de descanso.

“Eu poderia perder minha bolsa se não respondesse”

Cada uma lida com a situação à sua maneira, porém, é difícil encontrar quem a encare numa boa – e isso pode ser acontecer em diversos meios, desde o corporativo até o acadêmico. Por isso, é fácil se identificar com a história de Marília*, 23 anos, que era bolsista do PIBID-CAPES, programa do governo federal que coloca professores em formação em sala de aula.

Por ainda estar na faculdade, sua carga horária era de apenas 10 horas por semana, sendo 8h de trabalho e 2h de reunião. A carga oficial era pequena, mas não se pode dizer o mesmo sobre a informal. Além de os bolsistas terem que organizarem eventos, era extremamente comum o surgimento de trabalhos e reuniões de última hora. E os avisos sempre vinham por email. “Nossa coordenadora dizia que poderíamos ser desligados da nossa bolsa caso não respondêssemos os emails dentro do prazo desejado”, relembra Marília.

Nos primeiros meses, ela fazia tudo que sua coordenadora pedia porque tinha medo de perder a bolsa – mesmo sabendo que essa obrigação de responder os emails com urgência não era uma regra da entidade. Aos poucos, a ansiedade foi ganhando espaço em sua vida, atrapalhando até mesmo o rendimento na faculdade. “Quando eu não podia responder na hora, eu não conseguia me concentrar em outras coisas”, relata. No último ano da graduação, a coordenadora ainda criou um grupo de WhatsApp. “Era um inferno”, diz.

Hoje, Marília é revisora de texto freelancer e não faz mais parte do programa. “Mesmo após sair deste emprego, ainda fiquei com o hábito de verificar a minha caixa de entrada inúmeras vezes ao dia”, conta.

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“Gerenciar o estresse é uma questão de filtrar”

Assim como Marília, Alessandra Souza, 31 anos, também sofreu muita pressão graças aos emails inoportunos. Porém, isso a fez aprender na marra que nem toda mensagem que se diz urgente é, de fato, urgente. Sua formação profissional é de designer, mas hoje ela atua em TI – duas áreas onde “alterações urgentes” de chefes e clientes imperam, e haja nervos para lidar com tudo isso. Pior: depois de receberem o que pediram, é comum que os superiores descartem ou posterguem a validação por dias.

A demanda de urgências era tamanha que atrapalhava os demais trabalhos que Alessandra estava desenvolvendo. Por isso, chegou o momento em que ela não dava conta de nenhum dos dois. A solução? Argumentar com tranquilidade e educação, deixando claro que ela até poderia resolver aquele problema inadiável, mas, para isso, iria atrasar a entrega da outra demanda que ela já estava resolvendo. “Pronto, era só esperar a ansiedade do meu chefe passar que muitas vezes ele até esquecia ou resolvia sozinho”, brinca.

Aprender essa lição, no entanto, não foi nada fácil: Alessandra chegou a sofrer com síndrome do pânico até descobrir como priorizar tarefas, separando as que realmente pedem pressa. “Com isso, tomei pra mim que 98% das ‘urgências’ são produto da ansiedade do chefe ou do cliente e/ou, quando se trabalha em um time, da desatenção de algum colega por quem o projeto passou antes. E tudo isso é contornável sem estresse”, pondera. Por isso, ela garante que, hoje em dia, emails fora do expediente não são um grande problema para ela. “O que é urgente nem sempre é importante e o que é importante nem sempre é urgente. Gerenciar o estresse é uma questão de filtrar”, pontua.

Neste sentido, Alessandra fez um gol de placa. “O ideal é que isso seja conversado na chegada do profissional na empresa. Se não for possível, faça isso antes que a sua situação perca o rumo”, aconselha Aristides Brito, coach membro da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento e diretor do Marca Pessoal Treinamentos. O especialista ensina que o ideal é agir com sutileza, mostrando toda a sua organização e disciplina.

Além disso, é comum que não saibamos diferenciar o que é um email, de fato, importante e o que não é – principalmente entre workaholics. Porém, priorizar é preciso. “Dividir as tarefas entre urgentes, mais importantes, menos importantes e fúteis pode ser uma boa maneira de filtrar estes incômodos”, ensina Brito.

Para saber se a situação está fugindo do controle, observe como você reage toda vez que um email chega e você já saiu do escritório. “A irritação é o primeiro sinal identificável. A partir daí, a tendência é que se agrave, então, não deixe isso continuar. Mude enquanto há tempo de mudar”, enfatiza Brito.

*O nome foi ocultado para preservar a identidade da fonte.

Fotos: Shutterstock

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
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