Usando o 13º com consciência

Usando o 13º com consciência

*Aldo Pessagno

Fim de ano já está chegando e junto dele começam a florescer alguns temas na cabeça: férias, compras de natal, viagem de réveillon, etc… E de mãos dadas com essa anarquia de gastos, o conforto de contar com o 13º para financiá-los.

O parágrafo acima parece trivial e o senso comum já nos diz que esse não é visto como o caminho certo, mas, mesmo assim muitos o seguem a risca sob os mantras “Eu mereço”, “Trabalhei o ano todo para tê-lo”…

Não estou afirmando que você não mereça férias, comprar presentes de natal ou viajar. A questão é que usar o 13º salário de maneira irracional (como acima) apenas lhe trará benefícios no curtíssimo prazo (o prazer do consumo imediato), enquanto o longo prazo é constantemente sacrificado.

O 13º salário não deve ser tratado como um “presente” de fim de ano que você recebe e que por isso tem o direito de gastar onde e como bem entender. Muito pelo contrário, o 13º faz parte de sua renda, ele compõe o seu salário e deve ser tratado como qual. A única diferença é que você o recebe de uma só vez (ou em duas parcelas, mas ambas muito próximas), e não dividido mês a mês como o restante do seu salário. Tratá-lo como algo “a parte” certamente fará você se desviar da melhor decisão financeira. Mas enfim, o que devo fazer com ele, então? Preparei abaixo um pequeno roteiro para ajudá-la:

1º Passo – Quite as dívidas

Fico surpreendido quando leio algum Blog ou artigo dando conselhos às pessoas no sentido de priorizarem o consumo em detrimento do acerto de seus passivos sob os argumentos apresentados no inicio do artigo. Dívidas têm custo, e um custo alto (exorbitante em alguns casos). Elas simplesmente protelam sua independência financeira.

É estranhamente comum pessoas com dinheiro aplicado na caderneta de poupança, mantendo concomitantemente dívidas de Cartão de crédito, cheque especial, etc. A conta não fecha. Você recebe 7,5% ao ano de um lado (rendimento da poupança nos últimos 12 meses) para pagar mais de 10% ao mês do outro em casos extremos (cheque especial e rotativo do cartão de crédito). É como correr de paraquedas: você pode até chegar lá, mas vai exigir um esforço descomunal.

Portanto, minha dica é: verifique suas dívidas. O primeiro passo é saber se elas são pagáveis, ou seja, se as parcelas cabem no seu orçamento. Nesse caso, procure seus credores, renegocie suas dívidas e só então comece a usar o 13º para quitar.

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2º Passo – Reserva para despesas do início do ano

Depois de resolvidas dívidas passadas, hora de pensar de forma prospectiva. Assim como no fim do ano há um recebimento fora do padrão mensal, ao qual os brasileiros estão acostumados, no início de ano também temos de arcar com despesas relativas ao ano todo, mas que são desembolsadas no início. Estão entre as principais: IPTU, IPVA e Material escolar (tanto para as que tem filhos como as que estudam).

Então, porque não utilizar um recebimento fora do padrão mensal para pagamento de obrigações, também fora do mesmo padrão? Saber a data de ocorrência de suas despesas para o ano todo é tão importante quanto saber sua ocorrência em si. Saiba controlar seu fluxo de caixa.

3º Passo – Reserva de emergência

Dívidas quitadas e controladas; e despesas iminentes programadas, estamos prontos para dar um passo à frente. Agora, você já tem a base para montar uma reserva de emergência. Mas o que seria isso?

Uma reserva de emergência nada mais é do que uma aplicação que você mantém para fazer frente a desembolsos inesperados de caixa. Entre os principais: problemas de saúde, sinistro de veículo e perda de emprego.

Logo, o tamanho dessa reserva dependerá muito da sua recolocação no mercado de trabalho, podendo variar na média de 6 a 12 vezes suas despesas mensais.

E onde aplicar esse dinheiro? Como se trata de uma reserva de EMERGÊNCIA, a liquidez é fundamental, ou seja, esse dinheiro precisa estar sempre à mão, pois emergências são, por natureza, imprevisíveis. Logo, um Fundo DI com baixas taxas de administração (menos de 1% ao ano) ou CDBs com liquidez diária são recomendados.

 

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4º Passo – Inicie os investimentos/Aposentadoria

Quitou as dívidas, programou-se para o que está por vir e já tem sua reserva de emergência estabelecida?  Agora posso gastar meu 13º com a consciência limpa? Ainda não!

Os três passos anteriores na verdade servem a diversos objetivos maiores. Mas gostaria de destacar um deles em especial: sua aposentadoria. Nós apenas criamos as bases necessárias para que o plano de aposentadoria fosse implementado. Sem os itens anteriores, o 4º passo já estaria fadado ao fracasso antes mesmo de ser concluído.

Logo, minha sugestão é que você procure o quanto antes um profissional da área para auxiliá-la em um plano de aposentaria. Um profissional competente certamente irá ajudá-la a ter uma aposentadoria digna e tranquila de acordo com seu padrão de vida.

Quer um presente melhor para você mesmo do que poder contar com uma maturidade tranquila?

Você deve estar se perguntando, se esse presente é tão bom assim, porque tão pouca adesão? Simples, pois se trata de um presente em que você paga antecipadamente por mais de 20 anos e só começa a desfrutá-lo depois desse período. Ao passo que comprar algum bem, ou fazer uma viagem o presente é desfrutado no mesmo momento, proporcionando o prazer imediato do consumo.

5º Passo – Pague a viagem de fim de ano!

Finalmente, depois de todas essas etapas superadas, você poderá gozar de seu 13º sem culpa alguma. Com o dinheiro em mãos, negociar uma viagem ou algum bem de seu interesse fica bem mais fácil. Fique sempre atenta aos seus programas de milhagens, pois condições bem interessantes podem aparecer no caminho.

Acredite, não há nada melhor do que curtir uma viagem sabendo que já está tudo pago e que não haverá nenhuma parcela depois disso. Fora isso, a viagem vai ter outro sabor, já que você cumpriu todos os passos anteriores de suas obrigações financeiras, limpando sua consciência. Em outras palavras, a mesma será vista como um prêmio pela sua disciplina financeira, e não como uma ilha de satisfação em meio a um oceano de descontrole financeiro. Disciplina é fundamental.

Em suma, seguindo esses passos, acredito que você estará fazendo o uso consciente do 13º salário. O caminho é difícil e exige uma dose de sacrifício da sua parte. Dependendo do caso, a situação pode ser tão crítica, a ponto de levar alguns anos até se chegar no ultimo passo, que pode acabar desestimulando a disciplina. Para evitar isso, que certamente seria a pior decisão (o abandono completo do plano), proponho um meio termo: ao invés de usar 100% de seu 13º salário para seguir o roteiro acima, use, digamos, 70% e destine os outros 30% para viajar, descansar ou fazer compras. Financeiramente pode não ser a decisão ideal, mas sabemos que, assim como ocorre com dietas radicais, quando um plano financeiro é muito rígido, a chance de desistência é alta. E não é isso que queremos.

*Aldo Pessagno é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner) concedida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF)As respostas refletem as opiniões do autor, e não do Finanças Femininas ou do IBCPF. O site e o IBCPF não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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